Povo já não se aguentava mais. Faltava sombra. Água rareava. Sobrava mosquito.
— Cadê esse homi, deus do céeeeeeu!
— Misericórdia!
— Diacho de ônibus arrengado. Deve di tê entregado os ponto aculá…
A ladainha não tinha fim. O motorista atrasava vinte minutos. O sol e sua violência faziam parecer duas horas.
Quatro ou cinco velhos disputavam a sombra rala de uma palmeira, tocando de roda em tópicos de dores, doenças e preço de remédios. Dois estudantes riam sem parar, muito próximos, sem tirar os olhos de suas telas. Um vendedor ambulante trazia, atado ao pescoço, um grande isopor com salgados, exalando cheiro intenso de frango. As moscas se concentravam nele. Um homem de meia-idade, roupas puídas e ensebadas, chinelos encardidos, segurava duas galinhas amarradas pelos pés e já cansadas de grasnir seu alerta: cráaaaa-cráaaaaaaaaaaa…
Até que do fim da rua subiu um poeirão.
Era o expresso Baiacu.
— Vamo, vamo! Entra, meu povo, que até o Geringau tem chão. — Disse o motorista ao abrir a porta do ônibus, como se o atrasado não fosse ele mesmo.
— Se tu tivesse chegad na hora, Deusdete, a genti já tava era lá…
— Arre, dona Dirvina! Que amargura é essa? Pega aqui um docinho de bacuri, ó. Pra dá brilho nas bela miçanga dos zóio.
— Tome tento, homi! Largue di sê pá frenti.
O motorista ligou um ventiladorzinho sobre o painel; depois, sacou um maço de jornal de um canto e pareceu procurar uma notícia específica. Para quem ia entrando, ele derramava comentários como se para uma única pessoa. Uns respondiam, outros nem ouviam.
— É o inferno, homi. Comé que tem monstro assim? Pobre da criança!
— Tu fala do assassino no menino, né? Lá da Xapiripe… — Perguntou um que entrava.
— Mas claro! E tu cuide dos teu bacuri! Tesouro maior desse diacho de vida! — continuou o motorista, já para o passageiro seguinte.
— É triste, viu, Dete. Fico cum medo é pelos meu neto. — disse uma velhinha, a dona Lissa, rendera, pelejando para subir os degraus do ônibus. Deusdete içou a velha com seus longos braços:
— Te socorra aqui, dona Lissa… seavexe não… apruma… Mas digo pra senhora: tê um anjo teu, tão amado, tão cuidadim, sê mastigado e cuspido por abusadô… depois largado no meio do mangue, pra sê achado dispois de três dia na boca de urubu… Num quero é pra ninguém, meu Pai! Tenha piedade!
— Uai, sô…. três dia só de largado ali… fazia era semana que o bixim tinha sumido, né não, cumpadi Ares? — disse o passageiro da vez, voltando-se para o seguinte, antes de finalizar o comentário. — Cê pense, Dete: o que ques minino num sofreu? O quê? O quê? — repetia apontando para o alto.
— Aaaaarre! Num sei; num consigo. Eu num vô! Baixeza demais, seu Ravel! Digo pro sinhô: se eu pego o desgramado, esse alma sebosa dos quinto, eu…
Um tapa. E o motorista ficou com as palavras dependuradas. Um tapa, no meio do nariz, por um fedor desgraçado. O futum arrastava consigo um ser estranho, de um olho preto meio derramado para a esclera; parecia um bovino; — e cada passo pesado daquilo era um baque e um tilintar de argolas se batendo. Um calor daqueles, e o cabra enfiado no couro cru de uma jaqueta grossa, de um chapéu com aba frontal dobrada para o alto. “Esse mal-encarado tá se achando o cangaceiro”, pensou. Então, com o súbito silêncio — ponteado pelo som dos passos —, todos se esticaram para olhar. Aquelas histórias, largadas assim, mais aquele tipinho no caminho e, imediatamente, as cabeças polvilharam um assunto no outro: sem nunca terem visto aquele sujeito antes, a imagem mental, que todos tentavam fazer do estuprador da mata Xapiripe, tomou as feições do ser abismal que avançava ali entre eles.
O povo continuou entrando, desabando. Os mosquitos também. O cheiro do frango assado adensou, e suas primas vivas dobraram a reza: cráaa-crá-cráaaaa. O rosário dos velhinhos só se interrompeu à vista dos lugares vagos… ao lado do homem-touro, com seu odor acre, mistura miserável de suor antigo, couro e álcool — bebido, escorrido, exalado. Tentavam olhar para baixo, virar o rosto, mas tudo nele gritava, exigia… e aquele barro todo nas botinas — credo! — lavadas na lama. De que buraco teria saído aquilo?
***
— ESPEEERA! PAAARA! DEUSDEEETEE!
No retrovisor, uma mulher com uma caixa na mão, e duas crianças na frente, abanando os braços. — Arre égua! Mas hoje ninguém chega! — Parou e, ao abrir a porta, saudou-o uma nuvem de pó fino.
Depois apareceram duas crianças, ar desconcertado; logo atrás, a vó esbaforida vinha erguendo a caixa, dentro da qual se via uma construção maciça de três andares.
— Deusdete, leva! É o bolo do professô Cândido.
— Mas Arre! E a tampa, Dona Bellona? Vai derretê!
— Meus neto segura… bem no rumo do seu ventiladô. Até lá guenta…
— Dona Be…
— Num retruque, menino! Até hoje! Lembra quanto bolo já te fiz? Imagina a felicidade do minino do Cândido! Aniversário de dez anos é só uma vez!
— Mas…
— Avia: tem coisa que marca tanto uma criança, que a vida dela passa a rodá em volta daquilo; que nem tu. Teus bolo foram tudo de carrinho. Hoje é motorista!
— Oxi! Podia di tê feito com umas boa nota de dinheiro, que asveiz…
— Apura, homi! — disse a velha, entregando caixa e netos.
E lá foram.
***
Todas as janelas iam abertas. Aquele vento quente — bafo lá das entranhas do mundo — era recebido com naturalidade: refrescava um pouco; tirava a inhaca do ônibus, a de sempre e a específica daquela tarde. Seguiam com a vida; era a que tinham.
Os velhinhos, porém, inquietavam-se.
Dos pés do touro parecia escorrer lodo… era como se derramasse sua essência podre pelo chão, pelo ar, por tudo. Aquilo era como uma cova com uma carniça no fundo: repugnante, mas impossível não olhar, não ser atraído de alguma forma.
De tempos em tempos, também os outros davam olhadelas. Procuravam o estranho para recalibrar uma imagem daquele outro monstro, o assassino do menino. Se tivessem a chance, iriam exterminá-lo como a uma barata, pela honra de todas as crianças que existiam. Imaginar que, além de tudo, o demônio alfinetara no peito do cadáver uma estrelinha dourada em que se lia “Xerifeliz”… Merecia a morte. E olhavam para trás. O boi bufava, absorto. O suor, a lama, a maldade vertia dos poros do imundo e apertava o pescoço de cada um daqueles passageiros, asfixiando-os como mãos de assassino.
E através dos farrapos de um silêncio metafísico, a raiva de um passageiro parecia amontar na de outro.
***
Cráaaa-crá-crá… cráaaaaaa
O ônibus, enfim, parou em frente a uma banquinha de jornais.
— Bença, fessô! Aqui… Dona Bellona me fez trazer. Só trusse porque era pro sinhô, visse? E pro seu menino… Arre! Já tá um rapazinho.
— Muito agradecido, Dete! Vá com Deus.
— Inté, fessô Cândido! Feliz niversário, Vendetiano!
— Brigado, seu Dete! — disse o menino, agarrado na camisa do pai: nunca tinha visto um monumento daqueles! Seu pai era bom demais! Era o melhor do mundo! E observando o ônibus seguir viagem: — É de chocolate, pai?
— E eu ia te presentear com quê, meu anjo?
A resposta veio num assobio de freio.
Era a condução que parava novamente.
Alguém desceu.
E sob o ronco do motor desalentado, a areia redobrou em confusão. Decidiram ir logo para casa.
Porém, uma voz oca saltou de dentro do fuzuê:
— Professor?… Professor Cândido? Esqueceu…
O homem se deteve, tentou entender de onde vinha a voz. Olhou para o filho, que também não sabia. Sentia o papelão úmido murchar entre os dedos; o bolo começava a derreter.
— Pois não? — disse para o nada. — Esqueci o quê?
Uns barulhinhos de metal, qual o retinir de um carro de boi, cutucavam o ouvido. O sol inclemente reverberava. E a areia, ainda mais branca e reluzente naquele turbilhão, vinha certeira, girando na direção deles. Mas apenas quando já bem próxima, a nuvem descerrou a bocarra. Escancarou-se — como uma revoada de pássaros assustados, arremessando grossos grãos de areia sobre os jornais da banquinha, e gerando como que aplausos difusos de uma plateia etérea. Aberta a cortina, tomou o palco o homem-touro, o fedorento, o bebum “cangaceiro”, o pé-de-mangue. Todos eles se haviam juntado num único corpo talhado em pedra, firme, decidido como uma rocha enorme a rolar do topo de um penhasco. Na mão, um 38 implacável apontado para eles; no peito, uma ofuscante insígnia de aço. Logo depois, veio o trovão, misturado a um mugido sofrido:
— Esqueceu a cereja do bolo, monstro assassino! Meu pobre anjinho que te envia, do lodo da Xapiripe.
Um tiro.
Pai e filho observaram àquele rápido desenrolar de eventos sem qualquer reação. Ao estrondo do disparo, sentiram o estremecimento de quando se adentra a escuridão. As pernas falharam. E ajoelharam-se juntos, num segundo interminável.
Um pai com um bolo de aniversário apertado ao peito e um menino agarrado à camisa de seu pai: os dois eram só olhos esbugalhados ante o tilintar de carro de boi assomando sobre eles.
Ah, o boi, bufando sobre a criança, ajoelhou-se — não mais altivo que o servo de um rei. Cabisbaixo, desprendeu do próprio peito a estrela dourada e a prendeu na camiseta do menino.
— Quando crescer e vier, não será difícil me encontrar, menino.
Ergueu-se, deu meia-volta e seguiu por entre as lufadas de areia branca que varriam a rua. Agora sem um único som, sumiu.
O menino, quando buscou pelos olhos do pai, viu-os tão estatelados quanto antes, mas já sem vida. O homem jazia no chão, caído para trás, com o bolo meio amassado ao peito, meio caído de banda, misturando seu glacê a uma calda rubra — sem início, sem fim.
Gritou. Mas ninguém escutou. Correu para a banquinha como pôde. Deserta. Num canto, as manchetes dos jornais bruxuleavam com o vento, todas estampando aquela mesma estrela de aço, mas no peito de outro menino, sob letras garrafais: “HORROR NA XAPIRIPE!”.
Perdido, o menino vagou pelas ruas atrás de alguém. Suava a não poder mais. Respirava fundo; desvairado. Animal. Sob os pés, sempre as marcas de barro branco e um caldo escuro. A cada passo trôpego, o retinir de argolas. Dos rastros, enfim, o extrato: miasmas de morte.
A canga — agora — sobre ele.

