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A era da felicidade

A era da felicidade

A vida é serena. Esse é o primeiro pensamento que invade a mulher todos os dias, quando ela desperta na luz tranquila de um amanhecer ainda jovem, ainda se esgueirando pela janela do quarto e vindo tocar sua face e a de seu marido. Ela se senta na cama e inspira o momento inicial de mais um dia de sua vida e, muitas vezes, recorda-se vagamente de quando acordar costumava ser uma violência terrível contra sua mente. Sempre traz às margens de si essas recordações sombrias, mesmo agora, na era da felicidade, porque acredita ser necessário constatar diariamente o quão distante está daquele tempo e como continua sempre a se afastar graciosamente, porém sem nunca tirar os olhos dele. Porque não se dá as costas a algo que pode lhe abater no primeiro momento de distração. Porque não se subjuga o passado jamais.

Ela se move sem pressa até a janela e afasta as cortinas o suficiente para ver a neblina da matina competindo com a luz do sol lá fora, cobrindo a serra paraibana e suas árvores. Abre uma brecha da janela para sentir, em seus dedos, o frio saudando a pele. Pequenas coisas como essa não a impactavam antes; agora o fazem. Enquanto se detém nos próprios dedos, ouve o remexer dos lençóis denunciando o princípio do despertar de quem ama. Ela abandona a janela e volta à cama, acaricia os cabelos do amado, avalia seu rosto. Já não é tão jovem quanto era quando o conheceu, mas ela aprecia esses sinais da idade com um carinho cada vez mais imenso, traçando com ternura o caminho das rugas que se anunciam.

— Bom dia — ela meio fala, meio canta, conduzindo o marido ao mundo dos despertos. — Trinta e nove semanas hoje.

Ele pisca algumas vezes, até que enfim sorri.

— Qualquer hora agora.

— Qualquer hora agora — ela repete.

Com a mão lenta, preguiçosa, ele alcança a grande barriga da mulher, redonda de uma maneira que só um ventre que carrega gentes é capaz de ser. Acaricia e é acariciado de volta com um movimento interno sutil — provavelmente um pé. Pé fetal, anfíbio, que ainda conhece apenas a água.

— Pode ser hoje — ele diz.

— Pode ser amanhã.

— Pode ser semana que vem.

— Nossa, espero que não seja semana que vem — ela suspira, voltando a se levantar. — Não sei se aguento mais um dia com essa dor na lombar.

Mesmo em meio às reclamações características, aos suspiros e aos ais, a mulher derrama a todo instante o brilho inesquecível, quase opressivo, que grávidas felizes emanam por todos os seus poros. Há a felicidade, e há a felicidade grávida: essa que é ao mesmo tempo ataque ao corpo e simbiose materna.

Ela para em frente ao espelho do quarto, e aquele brilho é refletido de volta para si. Uma de suas mãos desliza sobre a barriga lisa, enquanto a outra lhe dá sustento. Vem, de sua profundeza, mais um chute. A mulher sorri. Consegue sentir o cheiro desse momento de sua vida, ainda que não exista no ar perfume algum.

— Eu sei que vou sentir falta de estar grávida.

E ela adivinha o que o marido dirá segundos antes de ser dito:

— Sempre podemos ter outros filhos.

Sim, sempre podem ter outros filhos. Esse fato a acalenta, o de poder crescer com vida de dentro para fora novamente. O que ela ainda não suspeita é o óbvio de que nunca mais poderá ter outra primeira gravidez. A primeira será sempre a primeira.

Vai até a cozinha no passo cambaleante, porém firme, que adquiriu nas últimas semanas, e lá prepara o café da manhã para os dois: o queijo coalho assado, coberto por mel de engenho e orégano, que ela jura ser a refeição preferida da criança, porque os movimentos sempre se intensificam pouco depois de comê-la. Duas xícaras de café, e pronto: estão servidos. Comem à mesa, em um silêncio feliz. Logo começa a esperada festa uterina: os comentários de “aí está ela”, “coloca a mão para sentir”. Conversam as amenidades dos pares. Imaginam, pela enésima vez, o rosto desconhecido, em novo exercício criativo: espero que tenha seu nariz, espero que tenha seus cabelos, com certeza suas orelhas. Em meio a isso, emerge dela o suspiro:

— Eu nem acredito que passamos por tudo aquilo e agora podemos ser apenas felizes.

E, dele, um amigável franzir de testa:

— Tudo aquilo o quê?

Os olhos dela buscam pelos dele com sincera surpresa; então ela ri, brilhante, e ele a acompanha, como sempre faz. Ela entende que se trata de uma brincadeira, que ele não esqueceu o tempo terrível — seria impossível esquecer… esquecer o quê? O riso se desfaz em uma busca interna. O tempo terrível, ora. Mas que tempo foi esse?

O homem arrasta a cadeira para trás e boceja, levantando-se.

— Vou voltar mais tarde hoje. Me ligue se algo acontecer.

Ela concorda, sabendo que ele se refere à chegada do ser que a habita.

Esse evento não ocorre naquele dia, nem no seguinte, nem naquela semana; mas chega, anunciando-se numa terça-feira insuspeita, fazendo-se sentir através do ineditismo de uma contração que abre as portas para muitas outras. Horas depois, a empolgação que se acendera nos olhos dela já havia sido substituída pela frustração de uma dor que não cessa nem cede, só cresce para todos os lados. No fim do dia, estão em um quarto de hospital, ela nua, quadrúpede, uivando, deixando por onde caminha um rastro de sangue e muco, e sendo seguida com o olhar por duas mulheres, doula e obstetra.

Único homem na sala, o marido se senta no canto e troca mensagens com os familiares. Está tudo indo bem, é o que ele comunica enquanto a mulher demanda mais compressas de água quente para aplacar o tormento em suas costas. A felicidade não vem fácil, ele pensa. Oito centímetros de dilatação. Não deve demorar muito agora.

Mas demora. O infinito brinca de se estender, toma gosto pelo oito e aterrissa ali. Os batimentos cardíacos no mostrador escalam cada vez mais, amontoando-se. Nenhuma quantidade de água é suficiente para aplacar a sede da mulher. O sangue desce em um rio fino por suas pernas. Com o avançar das horas, os olhares de sentinela das outras mulheres mudam, e o marido percebe. O tom da espera é diferente. A frequência com que são checados os sinais vitais de mãe e criança faz com que ele silencie as mensagens com os familiares e apenas observe. Na fenda sonora aberta pelos gritos da mulher, ele enxerga, simultaneamente, todas as possibilidades de futuro. Todos os resultados possíveis. Vive cinquenta vidas no espaço de uma contração. Nem todas elas são boas.

Algo acontece. Ou não acontece, pelo contrário. Já se passaram trinta horas e ainda não há criança fora da mãe. As outras mulheres conversam baixo entre si. Depois dirigem-se a ele. Depois enfim dirigem-se a ela, que está dobrada sobre si mesma na cama. Falam com doçura. Repousam as mãos com carinho no corpo exausto. O homem entende. Há algo de errado, e é preciso ir para o bloco cirúrgico.

— Eu nem acredito que passamos por tudo aquilo e agora podemos ser apenas felizes.

Ele inclina a cabeça e diz com a suavidade dos inteiros:

— Tudo aquilo o quê?

Ela está sentindo a primeira contração no sofá da sala de casa.
Ela está em uma cadeira de rodas a caminho do bloco cirúrgico, com a mão sobre aquela barriga, cujos minutos de grandeza estão contados. Dentro do ventre, estática.

— Não era para ela estar se mexendo?

Todos a ignoram com o máximo de afeto com que é possível ignorar alguém. Em poucos minutos, ela estará anestesiada sobre uma maca, não sentirá mais as pernas, não sentirá mais as dores, e sua barriga, antes tão uniforme e redonda e macia, será dividida, escoando para os lados tripas e carne, abrindo espaço para o milagre aquático e brutal que é o sair de alguém.

A frigideira estala em contato com o queijo.

Só há silêncio.

E então, frio.

Talvez pela ausência do outro corpo. Talvez pelas vísceras à mostra. Mas um frio que só o choro de criança poderia afastar — e não afasta, porque não vem.

O marido fala algo com a equipe, a equipe fala algo entre si, e a mulher não escuta. Só consegue ouvir sua barriga esvaziada. Essa, sim, parece gritar, implorando para que retornem a ela o que lhe pertence, para que seja lacrada com sua criação novamente. A confirmação do motivo do silêncio vem, e a mulher pensa: é tão simples. É tão óbvio. Devolvam-na à barriga. Retornem-na para o local onde ela esteve viva esse tempo todo, e tudo estará corrigido.

Então ela entende algo terrível, e de sua garganta sai algo mais que grito: algo que preenche cada espaço vazio do seu corpo e se estende por cada ala hospitalar, cada recôndito do oco terrível espalhado pelas cabeças das pessoas ao seu redor, cada avenida e rua deserta como seu ventre na madrugada da cidade, e escorre por debaixo da porta de casa para alcançar cada pequenina roupinha na gaveta do armário, cada pequenina meia, pequenino gorro, enfiando-se em seus átomos e tomando corpo no que há de mais mínimo no mundo. Algo que quebra dimensões e cria outras inteiramente novas, que arrasa estrelas e galáxias, que dobra o tempo em si mesmo da maneira mais justa e misericordiosa possível: uma que coloca a criança de volta na mulher e a mulher de volta na luz tranquila de um amanhecer ainda jovem, ainda se esgueirando pela janela do quarto e vindo tocar sua face e a de seu marido.

Ela se move sem pressa até a janela e afasta as cortinas o suficiente para ver a neblina da matina competindo com a luz do sol lá fora, cobrindo a serra paraibana e suas árvores. Abre uma brecha da janela para sentir, em seus dedos, o frio saudando a pele. Pequenas coisas como essa não a impactavam antes; agora o fazem. Enquanto se detém nos próprios dedos, ouve o remexer dos lençóis denunciando o princípio do despertar de quem ama. Ela abandona a janela e volta à cama, acaricia os cabelos do amado, avalia seu rosto. Já não é tão jovem quanto era quando o conheceu, mas ela aprecia esses sinais da idade com um carinho cada vez mais imenso, traçando com ternura o caminho das rugas que se anunciam.

— Bom dia — ela meio fala, meio canta, conduzindo o marido ao mundo dos despertos. — Trinta e nove semanas hoje.

Ele pisca algumas vezes, até que enfim sorri.

— Qualquer hora agora.

— Qualquer hora agora — ela repete.

1º Bula Prêmio de Conto
Isabor Meneses Quintiere

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