Senti aquele furinho na testa quando a Joana entrou na loja. É o furo que surge quando não consigo entender o que está acontecendo ou quando estou montando um dos nossos quebra-cabeças.
Joana parecia irritada. Colocou uma caixa sobre o balcão e disse:
— Falta uma peça.
Eu estava sozinha, como muitas vezes meus pais me deixam quando têm algo pra resolver, uma briga pra terminar ou querem dormir. Olha, fica aí um pouquinho, que nós vamos tirar um cochilo, mas eles fazem outra coisa na cama. Dá pra ouvir.
— Falta uma peça — repetiu.
— Peça do quê?
— Deste quebra-cabeça. Comprei há umas semanas, e meu filho percebeu que falta o olho, vê?
Joana sacou o celular e me mostrou várias fotos do quebra-cabeça. Mostrava uma selva com vários tons de verde ao fundo e, no centro, uma onça-pintada em posição de ataque.
Mas era verdade: ali na foto, o olho esquerdo era a flor vermelha da toalha que cobria a mesa onde o jogo havia sido montado.
— Quero trocar.
— Não trocamos produto usado — repeti o que tinha sido ensinada a dizer nesses casos.
— Mas como eu ia saber que não estava completo antes de montar?
— Até que ficou bonita essa flor no lugar do olho. Deixa a onça menos malvada, né?
— Tá brincando?
Joana falou com tanta raiva que dei a resposta que tinha decorado.
— Tinha que ter contado as peças. Na caixa diz 150.
— E alguém conta todas as peças antes?
— Eu conto quando abro um novo.
— Cadê seus pais?
— Foram resolver umas coisas.
Lá de cima, ouvimos a cama bater na parede.
— É um absurdo deixarem uma criança tomar conta da loja. Você tem o quê, seis anos?
— Oito, em três semanas.
— Quero meu dinheiro de volta.
— Não dá.
— Vou chamar a polícia, então. Vamos ver o que eles vão achar disso.
Estremeci. O pai já tinha sido preso uma vez e, quando isso aconteceu, minha mãe chorou um tempão deitada na cama. E eu fiquei esse tempão sem comer, porque ninguém fazia comida em casa. Deus me livre passar fome de novo.
— Calma. Eu te devolvo. Quanto foi?
— Cem.
Peguei as notas no caixa e devolvi.
— Seus pais deviam estar aqui, e não lá em cima fazendo saliência — disse Joana, e saiu batendo a porta.
Ah, então é saliência o nome do que eles fazem.
*
Eu gosto de olhar a lua. Quando o céu tá limpinho e só ela aparece.
No meu quarto ficávamos eu e a bisa. Agora sou só eu.
A bisa era dona da loja. Depois passou pra filha dela, minha avó, que eu não conheci, e hoje é da minha mãe.
Meu pai trabalha na loja quando tem vontade e inventa dívida de jogo quando tem abstinência. Aprendi essa palavra ontem mesmo.
Meus pais não brigam como os outros, sabe? Eles brigam quietos. Quanto maior o silêncio, maior foi a briga. E ontem, pra sacolejar o ar que já não se mexia há dias, minha mãe disse:
— Você vai jogar de novo. Dá pra ver que está em abstinência. Precisa se segurar, não podemos perder mais nada.
Eu e minha bisa olhávamos a lua juntas. Ela dizia que as pessoas gostam da lua cheia, grandona. Mas eu sempre gostei de ver a bola branca diminuir e aumentar, como se alguém estivesse montando um quebra-cabeça.
Sinto falta da bisa.
No canto da sala tem uma cadeirinha de madeira, meio escondida atrás do piano. A bisa dizia que a cadeira era do meu tamanho e pintou ela pra mim. No encosto, tem uma lua branca e um céu azul-escuro, sem nenhuma estrela. Ela me disse que meus olhos lembravam o céu assim: enluarado.
Já fiquei grande pra cadeira, mas, de vez em quando, me aperto um pouco e finjo que caibo. É que assim eu lembro mais forte.
O rosto da bisa era como um rio, cheio de afluentes que escorriam da testa, dos olhos, do nariz… E tinha um que eu gostava mais. Uma linha funda desenhada no triângulo em cima da boca.
Quando ela sorria, a linha se esticava e quase sumia. Aí, quando ficava séria de novo, ela aparecia com tudo. Certa vez, falei:
— Você tem uma linha mágica bem aqui.
A bisa contou que essa parte do rosto se chama triângulo da morte.
— Que nome ruim — respondi.
Ela riu e disse que a linha dela devia ser uma marca da vida. Gostei mais.
Por isso, às vezes, eu fico horas olhando pra lua. Ela me lembra da cadeira, mas o mais legal é que me lembra da bisa.
*
Minha mãe brigou muito comigo quando soube da Joana.
— Aquele jogo não custou nem quarenta!
— Amorzinho, a menina é pequena — meu pai me defendeu. — Como ela ia saber?
— Ela vai herdar essa loja, tem que aprender a não cair na lábia dessa gente.
— Ela só tem sete anos.
— Vai fazer oito já, já. Não é mais tão pequena.
Minha mãe suspirou, fechou a gaveta do caixa e me mandou subir.
Obedeci e corri pra cadeirinha.
Quando sento nela, parece que fico invisível. A mãe passa direto por mim, o pai me olha e não me vê. Só falam comigo se eu falo com eles.
Na verdade, eles quase nunca conversam comigo.
Às vezes, sentada na cadeira, eu escuto eles falando baixo um com o outro. Dizem que fiquei assim porque a bisa resolveu morrer na minha frente. Eu na minha cadeira, ela na poltrona dela. No meio de uma risada tão linda! A linha na boca sumindo e aparecendo… Aí, um engasgo e pronto, ela tava morta.
Sinto que as vozes dessa casa foram todas embora naquele engasgo.
Meu pai apareceu na sala pouco depois da bronca que eu tinha levado. Achei que passaria reto por mim, mas ele se sentou na poltrona da bisa e me olhou.
Sustentei o olhar.
Foi uma boa conversa.
*
O piano no canto da sala era da minha avó. Tem um porta-retratos com a foto dela em cima dele. Seu nome era Vitória.
— A música se derramava o tempo todo. Alguns clientes se demoravam lá embaixo e só iam embora quando soava a última nota. Era tão bonito! — lembrava a bisa.
Minha mãe também aprendeu a tocar, a bisa segredou. Só que, depois que a minha avó morreu, nunca mais ela encostou nele… As duas eram muito amigas.
— Brigavam e faziam as pazes na velocidade da luz. Era um terror, um drama, uma alegria… — a bisa contava, se rindo toda.
Gosto de imaginar como seria ouvir minha mãe tocar.
Os dedos longos passeando pelas teclas. O pé robusto pisando nos pedais. O cabelo comprido balançando nas costas. A bisa na poltrona, e o pai de mãos dadas comigo.
O som escorrendo pelos cantos calados da casa…
*
A professora disse esses dias que eu sou uma menina muito inteligente e silenciosa.
Ela tinha lido um poema que eu escrevi chamado “A lua é um quebra-cabeça” e gostou tanto que apresentou pra turma.
A classe não se animou, mas eu estava feliz mesmo assim.
Em casa, devo ter esquecido o papel com o poema em algum lugar. Procurei por todos os lados e já estava quase chorando quando o encontrei.
Estava pendurado no quadro de camurça, onde meu pai coloca bilhetes de jogo do bicho e cartelinhas de corrida de cavalo.
*
— Saudade — a bisa disse. Era noite, e a gente estava olhando a lua. — Tem horas que bate fundo.
E me explicou que saudade era vontade de agarrar o passado.
— O que é passado?
— É um ontem muito antigo.
Agora que ela vive no passado, será que a saudade foi embora?
*
Meus pais estão fazendo saliência de novo. Queria saber o que é essa tal de saliência e por que eles sempre correm pra ela quando o pai volta depois de dias sumido.
Dessa vez foram cinco. Quando perguntei pra mãe onde ele estava, ela disse esfregando o nariz em algum jogo de cartas.
Lá pelo quarto dia, aquele ar de tristeza absoluta brilhava nos olhos dela. E eu com medo de passar fome.
No quinto, ele apareceu. Primeiro na loja, onde eu estava sozinha porque minha mãe não tinha levantado da cama. Me deu um beijo e subiu. Percebi que tinha um olho roxo.
Não demorou muito pra cama começar a fazer barulho.
Minha mãe sempre fica mais sorridente depois da saliência. Não gosto de ficar sozinha aqui embaixo, mas gosto de ver ela feliz.
Não vejo a hora de fazer saliência e me sentir assim também.
*
Meu ontem com a bisa tá cada vez mais antigo.
Será que a saudade dela é de mim agora?
*
Hoje aconteceu uma coisa diferente. Eu estava triste, pensando muito na bisa. Me sentei meio apertada na cadeirinha.
Muitas vezes, quando estávamos só nós duas, ela me falava sobre a filha dela, minha avó, que eu não conheci. Contava que meu olhar enluarado era igual ao dela e que, se eu tivesse tido a chance, teria amado a vovó. Depois suspirava e dizia que as pessoas boas vão embora cedo.
Eu acho que a bisa foi embora cedo. A gente só teve seis anos juntas. E agora já tem quase dois que ela não tá mais aqui.
Era isso o que estava me deixando triste hoje cedo: pensar em como vai ser uma vida toda sem ela.
Quando estava prestes a chorar, meu pai apareceu. Sentou-se na poltrona. Desde o dia em que conversamos em silêncio, isso virou um hábito nosso.
Mas, dessa vez, ele falou. Olhou bem fundo pra mim e disse:
— Você é uma felicidade que eu não sei abraçar.
E ficou em silêncio, só me olhando.
Então levantou, carregando uma mala em uma das mãos e um olhar estranho no rosto. Fez um carinho na minha cabeça e foi pra loja.
Lá embaixo, um farfalhar de vozes e uma porta batendo.
*
Tem uma foto da bisa ao lado da Vitória sobre o piano.
A pele riscadinha, a linha mágica na boca, o cabelo branquinho…
É isso que a gente vira depois que morre? Um retrato sobre um piano largado?
*
Sabe, eu acho que esse silêncio aqui em casa, esse vazio que veio junto com o engasgo da bisa… acho que é culpa minha.
Na única vez que perguntei pros meus pais como é que ia ser viver sem a bisa, eles olharam um pro outro e só depois de um tempão disseram que eu ia acabar esquecendo. Que era coisa que acostuma.
Então perguntei pra mãe se ela já tinha esquecido a mãe dela. Ela virou as costas, com cara de choro, e subiu pra casa, me deixando sozinha com o pai. Ele brigou comigo, o que nunca faz, e percebi que tinha feito algo errado.
Deve ser por isso que quase nunca falam comigo. Têm medo que eu faça perguntas assim de novo. Mas, se eles tentarem, juro que vou falar coisas melhores.
Vou contar sobre ser inteligente e silenciosa. Sobre a lua ser um quebra-cabeça.
Quem sabe, quando o pai voltar, eu não diga algumas palavrinhas na nossa conversa de olhares?
Acho que dá. Vou fazer oito anos daqui uns dias. Já não sou mais tão pequena.
Acho que consigo.

