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A sombra da vela

A sombra da vela

Assim que fechou a porta, os pensamentos caíram do céu e foram derramados na sala vazia, em desordem, o que a fez olhar para o chão na penumbra como se naquele vazio pudesse haver esperança ou o vislumbre da comicidade de todo o infortúnio que sua vida havia convergido a ser. Não chorava, ainda; muito embora o âmago persistente na garganta lhe causasse repulsa, provavelmente queria cuspir, mas a boca era seca. Que gosto ocre tem seu peito dilacerado.

Era então este o intervalo silencioso entre a notícia e o entendimento da carne – não da mente ou da alma, estas talvez pudessem compreender os emaranhados de palavras dispostas num léxico básico. Mas o corpo, esse levava tempo pois há algo cruelmente lento em perceber com os músculos, com o sangue e os ossos. E nesse intervalo lúgubre por essência, veio o primeiro pêsame: a percepção da eternidade da infelicidade.

Mas não só dela, havia a tristeza abstrusa ressoando no silvo do seu respirar. Disseram-lhe que era o filho moço, mesmo, único e amado. Era ele que estava agora caído perto do mangue, com a camisa parcialmente levantada, suja de terra e de rumor; este, que parece crescer em seu corpo como musgo e o marca firmemente. Dois tiros no peito, disseram – um de frente, fatal, ao coração; o outro de lado, como quem hesita ou confirma, impregna com veneno. O corpo jazia inclinado sobre si, os braços projetados num gesto interrompido, quase como se protegessem algo. As folhas grudadas na pele, o tênis desamarrado, a boca entreaberta revelando os dentes, mas não a língua. Se pudesse chegar ali perto e orar em seu ouvido para ouvir um sussurro, mas era inútil sonhar com a era dourada.

E pensou na barriga. Sim, nela, na barriga à mostra, com o umbigo exposto, algo sujo de sangue já seco, escuro como tinta âmbar antiga em seu espectro secular. Ela lembrou do corte, o primeiro. A tesoura esterilizada nas luvas de látex, o choro estridente ampliado pelas paredes estupidamente verdes e brancas, o primeiro toque na mão, no rosto, no seio. Pensou no cordão. Seu presente de Deus. E agora, o que se tem dessa ligação? Cortada mais uma vez, sim, mas agora com violência e ausência, sem entrega. Que navalha gelada a vida lhe entregava. Nenhuma enfermeira lhe colocaria o filho nos braços, envolto em pano, ainda quente, vivo.

Agora o tinham lançado longe, como quem se livra do que se despreza, como quem fecha um pacote e o deixa no canto a empoeirar. E ela, deixada para trás, não era órfã nem viúva: sequer tinha nome. Não havia palavra que coubesse no espaço aberto entre ela e o que perdera. Fora jogada também ao breu, ao abismo de uma condição sem título e sem ritual. Havia o umbigo, aquela cicatriz silenciosa, vestígio de um rompimento. A cicatriz dela permaneceria interna, fadada a ser escondida.

Ao finalmente estar em casa, ela se sentou devagar no sofá e olhou em volta, tentando lembrar onde estariam suas mãos. O relógio da parede marcava pouco antes do fim da tarde. A luz entrava oblíqua e furtiva pelas frestas da veneziana, e o pó dançava no feixe morno como se não soubesse que o mundo havia mudado por ali.

Quando o sol começou a recuar atrás das árvores da rua, ela levantou. Passou pelo corredor da casa antiga, pela cozinha, sentiu-se sufocada. Não se interessou em organizar a mesa pós almoço, empurrou a porta dos fundos.

No quintal de terra batida, as folhas do cacaueiro tombavam pesadas e densas, silenciosas para além do muro. Subitamente fraca, sentou-se no tamborete de madeira ao lado da parede da casa. A brisa soprava quente ainda. Lentamente, deixou-se recostar. Pensou nele pequeno, subindo no tronco dessa árvore, voltando da escola com os joelhos ralados, rindo torto. Pensou nas brigas, nos silêncios longos na adolescência, nos olhos dele que pareciam cada vez mais distantes. Pensou sobretudo no futuro. Elaborou todas as renúncias pelas privações da felicidade.

Murmurou sem som algo ritmado à saudade instalada, e os olhos marejados buscaram o canto do muro, abaixo da sombra espessa das árvores, onde a luz da iniciante lua não ousava chegar. Um vazio escuro, angulado, como se o tempo ficasse guardado.

Queria que cada canto recebesse luz, nada poderia se furtar ao conhecimento.

Sem pensar muito, queria acender uma vela.

Era cedo demais para as luzes noturnas e tarde demais para qualquer esperança tola. Os dedos, trêmulos, cavaram um buraco raso no chão duro. A terra, ressequida pela secura dos dias vorazes, cedia em farelos finos, na entrega ao gesto não pedia resistência. A vela intacta foi cravada ali com uma firmeza que contrastava com o resto do seu corpo frágil e alquebrado, recolhido dentro de si como bicho ferido entregue à própria sorte.

O risco do fósforo deu vida. A chama acendeu pequena, inteira. Hesitante, mas viva. Ao acender, acendeu com ela uma cena inteira de silêncio, recortes do quintal que até então repousavam esquecidos sob o véu tímido da noite que iniciava, com as cabaças secas nos galhos de cacau, folhas verdes e outras já mortas, compondo um desenho irregular que se projetava no muro à sua frente. Nada além disso. Mas foi ali, nesse instante de desimportância aparente, que ela soube, com a clareza insuportável das epifanias tristes, que não gostaria de voltar para a sala. Aquela terra era, agora, o lugar onde os pensamentos enfim chegavam com clareza. Ali, onde a dor inominável, insuportável e imensa finalmente aceitava ser pensada, sua vida se projetava anárquica nos tijolos.

A princípio, pensou que era só isso, alívio. Mas a noite, como se fosse tecida nos fios duros do dia que a precedera, mostrou-se mais insistente. A necessidade da vela virou vontade quase litúrgica. Não deixou que a chama acabasse, acendera uma vela logo perto do término do fogo da outra.

Logo, como uma água que transborda sem aviso, a culpa tomou forma. Já não era só sobre ela e seu filho morto, era sobre o mundo em que viveram. A rua onde cresceram os meninos que brincavam e depois se perderam, um por um. A vizinhança que se acostumou a dormir ao som abjeto da violência velada. A escola com janelas quebradas. A igreja onde se rezava por sobrevivência, e não por fé. A cidade onde o tempo se media não em dias, mas em mortes.

Teria ela, com suas forças limitadas, conseguido romper o cerco silencioso que se fechava em torno de todos? Buscou na própria memória um momento em que se abrisse a possibilidade de fugir. Embora obstinada a encontrá-lo, sentiu vergonha ao perceber que, por muito tempo, cozinhou a própria vida em banho-maria, na qual a água era a própria violência que vivenciava. Ter que correr para dentro de casa quando alguém gritava na rua, ensinar o filho a não olhar demais, não reagir demais, não confiar demais. Era incapaz de destrinchar a ideia de que o filho também deveria engolir a revolta todos os dias como se fosse obrigação de mãe ser pedra e carne ao mesmo tempo.

A culpa que sentia agora era mais cruel porque não teria rosto, não havia com quem brandar seu ódio, muito menos a quem pedir perdão. Era uma culpa por ter pertencido a um tempo em que a vida valia tão pouco, e por ter, mesmo sem querer, reproduzido as engrenagens de todo este sistema.

Chorou sem fazer barulho, com a respiração entrecortada, como se o ar também a julgasse. E então pensou que talvez devesse ter lutado mais; ela, já guerreira. Ter saído dali, nem que fosse com as mãos nuas e o filho no colo, como se foge de um incêndio.

A vela tremia diante dela. A chama parecia querer subir mais, mas o vento a mantinha baixa, como se pedisse calma. Ajoelhada, ela tocou a terra com a palma da mão. Estava morna. Era o único calor real que sentia.

“Sinto muito”, sussurrou.

A culpa era uma lâmina escondida no peito. Cortava por dentro como se o sofrimento fosse um ritual sagrado que não poderia ser apressado, como se a dor fosse necessidade a ser sentida. Ela tentava se proteger com justificativas e hipóteses, mas nada disso tinha a força de um abraço que não pôde ser dado. Chorava devagar como se houvesse um cuidado em não derramar mais do que podia perder.

E então havia a saudade. Essa vinha sem aviso, de modo súbito, impiedoso. A saudade tinha cheiro e som, era a forma mais pura de presença, mesmo na ausência absoluta.

A lua cheia riscava de um branco doentio a copa do pé de cacau. Sentou-se novamente com lentidão, e percebeu, não sem espanto, que os joelhos tremiam. As sombras, projetadas no muro, dançavam com vigor. Os contornos ondulavam, se multiplicavam, e ela teve a nítida sensação de que as sombras a observavam, de que sabiam o que ela escondia de si mesma.

Foi então que o desespero chegou. Não como um grito, mas como um silêncio espesso, palpável, que parecia colar-se aos pulmões. Ela sentiu medo. Um medo primitivo, ancestral, do tipo que não se explica nem se racionaliza.

E, ao mesmo tempo, havia o amor. Um amor intacto, dolorido, feito de lembranças e arrependimentos, mas ainda assim amor. Era isso, afinal, o que doía mais: ainda amar, apesar da morte. Ainda sentir o coração esticar como um pano molhado, pesado, prestes a rasgar.

Deitou com as mãos entrelaçadas sobre as pernas, encostando a cabeça nos joelhos. Chorou mais em silêncio, para não espantar as sombras. Depois, rezou. Não como se pede um milagre, mas como se reconhecesse culpada por tudo que não se pode mais remediar. Sussurrou o nome tantas vezes que pareceu, por um segundo, que o vento respondeu.

A vela ainda queimava tênue. Embora nada tivesse mudado em si, o quintal parecia mais brando, em paz. O escuro voltou a tomar o lugar de tudo quando uma brisa mais incisiva soprou, mas já não feria com tanta força enquanto ela, guerreira, lutava para manter seus olhos abertos contra um sono violento dos vitoriosos. A noite a cobria num manto de compreensão, mas jamais mataria seu frio. As sombras ainda estavam lá, já não acusavam. Afinal, pensou, antes de dormir completamente: uma sombra… uma sombra não há de doer, não como dói a lembrança.

Como pode o amor, de todos os sentimentos, ser aquele que tem a virtude da imortalidade.

1º Bula Prêmio de Conto
Alex Pereira Ramos

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