Rua de uma cidade cinza; no limbo entre o ontem e o hoje. Os socos virão de quatro mãos. Os
chutes de quatro pés. Eles são raivosos como cães selvagens, mas não sabem o porquê. Querem
matar o que, no fundo, gostariam de ser. Raposas covardes que chamam de verdes as uvas que não
conseguiram alcançar. ELE, depois de uma festa. Ouvidos surdos pelas batidas. Luzes ainda
piscando dentro da cabeça. O gosto de alguém na boca. ELE, caído no chão. ELE e um resto de
voz:
Primeiro soco. Lado direito do rosto.
Do chão, vejo o inferno dentro dos olhos deles.
Eu tento me levantar, mas
Primeiro chute. Oblíquo externo direito.
A dor é forte, mas ainda não anestésica.
Tento ficar de joelhos, mas
Outro chute. Meio das costas.
São dois contra um.
Eu tento me apoiar sobre as mãos, mas
Rasteira. As costas contra a calçada dura. Eles riem e eu me pergunto se sempre haverá um castigo.
Uma praga. Anátema. Um vírus, uma maldição. Quatro mãos fechadas, em forma de socos, que te
esperam na saída de uma festa. No escuro entre o ontem e o hoje. Quatro pés-patas prontos para
desencaixar cada um dos ossos do seu
corpoque agora há pouco dançava, no meio de outras solidões. Entre outros incompletos. Entre outros
perdidos esbarrando suas vontades e suores debaixo das luzes coloridas. Dentro da fumaça-neblina.
Porque agora há pouco, um sorriso. Uma mão puxando a minha. Uma palavra abafada entre o refrão
de uma música alta:
vem.
Terceiro chute. Ombro esquerdo.
Eu ainda tento, mas
Outro.
E outro.
Mais um e eu paro de contar.
Mais um e eu não encontro mais força.
Mais um e eles riem.
A noite é quente, mas eu sinto frio.
Eu abro a boca, mas não tenho um grito.
Tento rezar, mas não tenho um deus.
Eles têm.
De uma das quatro mãos, mais um soco. Orelha esquerda.
Zunido dentro da orelha como depois de uma explosão.
Um zunido dentro da orelha misturado a duas vozes.
Eles não me conhecem, mas me chamam por um nome que aprendi bem cedo também ser meu.
Olha
Olha como ele fala
Olha
Olha como ele anda
Olha o cabelo dele
A letra de menina
A cor da camiseta
As músicas que ele canta
O jeitinho
Deixa no gol, fazer o quê?
Sempre com as meninas
Olha com o que ele brinca
Batom vermelho da mãe
Salto alto da irmã
Dublagem em frente ao espelho
Estranho, ele
Diferente, ele
Mora com a avó, ele
Então, põe tachinha
Dá peteleco Cola chiclete
Aperta o peitinho
Desenha ele na lousa
Mira nele
Na cabeça dele
Bem no meio da cabeça dele
Olha
Ele gosta de poesia
Sublinha frases de livros
Decora versos
Escreve contos
Desmunheca
Ele rebola, você não acha que ele rebola?
Olha como mexe a bunda dele
Olha
Olha como rebola, aBI
CHA
Duas sílabas
Cinco letras
Meu outro nome
Carimbado
Colado na testa
Gravado na pele com ferro quente de boi
Substantivo feminino:
Verme, larva, serpente, sanguessuga,
Animal do sexo feminino
Adjetivo ofensivo
Meu outro nome
Para sempre dentro da orelha como um
Zunido
Então, olha
Olha como ele dança, olhaOlha como ele dança, ele me disse que pensou de longe, enquanto me via no meio da festa. Porque
agora há pouco, um sorriso. O pulso acelerado, a nuca arrepiada. A mão dele puxando a minha.
Vem. Porque agora há pouco, entre o refrão de uma música alta, ele me dizendo que tinha gostado
do meu jeito de dançar. Assim, meio desajeitado, sabe? Porque também existe beleza nas coisas
imperfeitas. E então, nós dois em um dos cantos. Nós dois sozinhos, no meio dos outros. Dois
abismos que se reconhecem. Duas sedes. O tempo suspenso para dois corações rasgados e
Um pisão. Não lá, mas agora.
Aqui.
Um pisão. Sola dura sobre a mão esquerda. O sangue do corte atravessando o meio da palma da
minha mão. Fio vermelho sobre uma das linhas. Você vai encontrar alguém. Está escrito, uma vez
uma velha me disse. Esta linha. Está vendo esta linha? Você ainda vai encontrar alguém. Um dia
você vai morar em outro lugar. A dor não vai ser a sua casa pra sempre. As bocas encostadas. A voz
dele fazendo cócegas dentro das orelhas. A minha pele dilatada. Vem. Cigarros iluminando a noite
no terraço. Dois copos pela metade. As batidas graves da música atravessando as paredes. O céu
começando a clarear sobre a cidade infinita. Agora há pouco. Eu falando de filmes. Ele sobre livros.
Finais e começos. Discos, refrões. Sobre quadros, museus. Deus, diabo, santos, religiões. Sobre
poetas e loucos. Cidades e pontes. Gatos, manias, pecados. Sobre acasos, superstições. Sobre o
futuro e o que já tinha sido. Sobre nós que ainda não éramos nós, mas que talvez pudéssemos ser. A
dor não vai ser a sua casa pra sempre.
Um cuspe. Lado esquerdo do rosto.
O veneno da boca de um deles.
Gotas ásperas sobre a pele e
Mais chutes.
Um pé em cima do meu peito.
O ar que não sai nem entra.
Tento respirar e
Pra aprender, eles dizem.
Agora.
Pra você aprender.Pela falta de vergonha. De pai. De surra.
Pela falta de uns tapas naquele menino do passado que só sabia ser
assim
Camiseta de desenho animado.
Óculos grossos.
Botas marrons para endireitar os pés.
Topete lambido.
A vontade de ser astronauta e viver lá em cima.
Ursa-maior.
Pégaso.
Órion.
Cruzeiro-do-Sul.
Deve ter um lugar melhor do que o aqui.
Um planeta melhor do que esta imensa pedra dura.
Em algum lugar, deve existir um tempo melhor do que o
agora
Não sei se são socos ou chutes.
Agora.
Não sei se eles cospem ou riem.
Agora.
Porque tudo é escuro, borrão, zunido.
Vertigem.
E o menino dentro dela.
Sentado sobre a calçada.
Ao meu lado.
O menino do passado.
O menino que ainda não sabe queUma noite ele vai sair para dançar. Porque é preciso entreter o coração, ele vai aprender. Porque é
preciso dar de comer à alegria pra que ela não amanheça morta na gaiola. O menino ainda não sabe,
mas. Nesse dia, ele vai sair para dançar daquele jeito desajeitado. E entre outros incompletos,
alguém vai sorrir e puxar a mão dele, no meio de uma música alta. Vem. E de cima de um terraço,
eles vão ver o fim da escuridão. E vão falar sobre filmes, livros. Finais e começos. Sobre eles que
ainda não são eles, mas que poderiam ser. A dor não vai ser a sua casa pra sempre, ele vai pensar,
nessa noite. Até sair dali. Os ouvidos surdos pelas batidas. Luzes ainda piscando dentro da cabeça.
O gosto do outro na boca. Até ele caminhar por uma das ruas vazias da cidade cinza e indiferente.
No limbo entre o ontem e o amanhã. Até ele ser derrubado pelo primeiro soco vindo de uma de
quatro mãos fechadas. Lado direito do rosto. Até ele cair e ver o inferno dentro dos olhos deles. A
vontade de matar o que eles não podem ser. Estão verdes, dizem as raposas sobre as uvas que não
conseguem alcançar. O menino ainda não sabe, mas. Nessa noite, ele vai cair sobre a calçada e ver a
manhã clareando. E vai tentar fugir dali, se agarrando à sombra de um pássaro que passa. Antes de
tudo virar escuro, borrão, zunido. Vertigem. Antes de, dentro dela, ele encontrar o menino do
passado. O menino que ainda não sabe que
Eles riem e entram no carro.
Motor ligado.
Uma música saindo do rádio.
Eles riem e aumentam o volume.
Farol alto.
Uma luz.
Dizem que no final a gente vê uma luz, não é?
Assim.
Uma luz bem forte contra os olhos.
Assim.
E que depois dela, tem um lugar melhor do que o aqui.
Porque, em algum lugar, deve existir um tempo melhor do que o
agora.

