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As rédeas do carro solar

As rédeas do carro solar

“Enviamos para a Senhora o termo de responsabilidade para cremação testemunhal”, começa a mensagem no WhatsApp, o que é um começo de secar a garganta. Quero continuar lendo, mas a minha mente fixa-se na necessidade de que exista um termo para assistir a uma cremação. O único prejuízo possível, penso, é ver o corpo ser incendiado. Isso não me agrada e me parece irreal. O fogo consome o caixão; as chamas se alastram, como numa explosão. Sinto o calor secar as lágrimas enquanto queimam os pelos do rosto.

“Enviamos para a Senhora o termo de responsabilidade para cremação testemunhal. A cerimônia permite a presença de até quatro familiares durante a incineração. Por questões de segurança e, para evitar traumas, é permitida a permanência na câmara de cremação apenas atrás de uma janela de vidro.”

Passaram-se horas até a leitura final da mensagem. O atraso me fez estar presente na recepção da capela, onde, dias antes, estive no velório. Atrás de uma senhora, fiquei a bater o pé até que me atendessem no balcão. Era hora do almoço; tinha pouco tempo para voltar ao trabalho. Expliquei à recepcionista o motivo de solicitar o adiamento da cremação:

— Moça, foi o atraso em horas para terminar de ler a mensagem e o custo para a ação.

Ela entregou-me os papéis para assinatura segurando uma máquina de cartões.

Com o celular quase sem bateria, sinto os pelos do braço eriçarem ao chegar ao carro. Preciso de um mapa para o local e percebo que, na pressa, não pedi o endereço. Digito o nome do crematório e salvo a rota proposta. Nunca chegaria sozinha a lugar algum. Descobri que minha mente era quebrada ainda na adolescência, quando me vi desprovida de senso de tempo e espaço; esse traço só ficou evidente depois que consegui a habilitação, aos 18 anos. Voltava da faculdade numa tempestade. Direita e esquerda pareciam levar ao mesmo destino. De repente, uma pedra, grande o suficiente para quebrar o eixo do volante, surgiu no caminho. Liguei para os meus pais em lágrimas, sem saber explicar onde estava. Deitei no banco e esperei até perguntar a um transeunte. Minha mãe disse que foram poucas horas até ela e a vizinha chegarem ao local. A mim pareceram a vida inteira.

Puxei o ar antes de girar a chave na porta. Quando abri, soltei o ar. Diferente dos primeiros carros que dirigi, este fui eu quem pagou. Ele precisava de um empurrão para liberar a minha entrada. Meu pai, no banco do passageiro, pegou os papéis da minha mão. Se pudesse, escolheria não estar ali. Não pedi sua presença. Pergunto-me se ele estava no meu nascimento, não o lembro nas comemorações da escola, nas reuniões de pais nem na formatura do colegial. Estivemos juntos escolhendo um carro popular no pátio aberto de um feirão de móveis rendo acabado de tirar a habilitação: com direito a distribuição de pipoca e refrigerante quente com atrações circenses. Saímos do feirão automatizados, e meu pai limpava o para-brisa embaçado pelo calor do interior do modelo prata de 2003.

A rota parece traçada a milhares de quilômetros daqui. Consigo alcançar o volante, mas meus pés ficam a uma certa distância dos pedais. Escorregando e subindo num impulso, consigo dirigir. Ajusto o retrovisor para baixo. Meu pai pergunta se eu conheço o trajeto; cuja resposta ele já sabe, sempre encarei como um modo dele me confrontar. Pede que eu diminua a velocidade, pois os “domingueiros” estão na rua. Seu termo para quem só usa o carro aos fins de semana. Levanta e abaixa a mão esquerda algumas vezes em alerta para diminuir a velocidade, agora sem usar a voz no caminho. Aperto o botão dos faróis de rodagem diurna. Eu costumava correr atrás dele quando andávamos a pé até o mercado, carregando sacolas com as mãos vermelhas, marcadas pelas alças. Ele, a passos largos e pernas esguias, seguia à frente sem pausa, e a mim cabia seguir a sua velocidade interna.

O farol alto desacelera meu coração nas curvas; consigo ver o que me espera à alguns metros no breu. Reluto em abaixar a luz quando o outro carro vem na pista contrária. Meu pai oferece, como em prosa, a imagem do outro motorista perdendo o controle ao erguer as mãos para bloquear a intensidade da luz. E eu, na minha mente, vejo-o cair em uma ribanceira e flutuar no rio. O outro carro segue pela pista por onde vinha, sem desviar. Para evitar novas imagens em tons elevados na voz, o farol permanece baixo. O para-brisa começa a receber pequenas gotas de chuva. Meu pai pede, à sua maneira, para acelerar com “Apresse o passo”. A incoerência da velocidade sempre foi em relação aos outros, não a mim. Penso em pedir para que acenda a luz interna do carro. É que tenho medo do escuro. Nunca precisei pedir que ele acendesse o abajur todas as noites; a luz se fazia no quarto como um gesto devoto. Aqui, resisto à sombra que sua presença projeta em mim. As horas finais anunciam um encontro com a eternidade. Meu pai passa a dizer que o GPS está errado; eu afirmo a minha confiança na tecnologia. Já cruzamos duas cidades. A chuva que desaba faz o carro tremer, uma instabilidade pelos meus braços estarem esticados para alcançar o volante e o banco na posição mais próxima possível. Ele pede para parar o carro:

— Preciso descer. Você não escuta. Não sabe o caminho.

Peço a ele, balançando a mão para cima e para baixo, para diminuir a intensidade da voz. Digo que falta pouco para o fim.

Estaciono em frente a uma igreja pequena, paredes pintadas de azul e branco, e uma cruz metálica no alto. Meu pai não quis me batizar na infância, disse ser minha escolha. A verdade é que nunca escolhi nada; deixei diversos credos se instalarem. A chuva nos mantém dentro do carro. Peço a ele permissão para pular as poças de água, e ele diz que ficarei doente. Deixo a lamúria escorrer pelos olhos, olhando para o vidro embaçado. Peço a São Longuinho que pare a chuva, assim retribuo com o meu desejo de pular. Esperamos juntos o fim.

Tive uma cachorrinha chamada Xuxa. Fugia na chuva e voltava enlamassando a casa. Por um tempo, a fiz de bebê, segurando-a no colo e obrigando-a a dormir coberta, até que, nas férias de verão, a esqueci, enquanto andava de patins por horas. Quando senti sua falta, perguntei em lágrimas à minha mãe onde estava a Xuxa, e ela respondeu: “Há três dias a doei e você nem percebeu”. Nunca disse adeus a Xuxa, e isso me acompanhou por anos. Meu pai não se recorda dela. Por vezes, penso se ela esteve mesmo na nossa casa.

Recebendo poucos pingos na cabeça, caminho em direção à igreja. Pergunto ao vendedor de abacaxi quanto falta para o crematório. Ele pergunta onde estão meus pais, se estou sozinha. Corro de volta e entro no carro. Meu pai diz que não quer continuar sem as “rédeas da carruagem”. Adverte-me que sou imprudente como Faetonte — mais uma das referências mitológicas da sua bagagem — e me pede para que não tente guiar a carruagem do Sol se não sei domar o caminho.

Peço que ele confie em mim. Lembro de quando ele assinou o boletim no lugar da minha mãe, no quinto ano do primário; combinamos de não contar o desvio de conduta até superar a nota vergonhosa. Minha mãe descobriu e, naquela noite, ouvi seus os gritos com meu pai. Nunca mais senti que eu e ele tínhamos a mesma cumplicidade.

O sol vai secando o asfalto. Vendo a estrada por cima do volante; me parece cada vez mais imensa. Por vezes, meu pai segura o volante para manter a estabilidade do carro. Sempre fui a mais alta da turma e sentia um certo orgulho de ocupar um lugar só meu. Alta como o pai, diziam. Havia uma expectativa sobre quando eu o ultrapassaria em estatura, e o que eu queria mesmo era ultrapassar a sua mente. Numa noite, ficamos à luz de velas por horas em casa, distraindo-nos com histórias antigas, como a da criação da igreja protestante. A inadequação do tema me fascinava: idealizava nele uma inteligência que queria ver em mim.

Nessa noite, perguntei-lhe se tinha fé, ao que respondeu:

— Todos acreditamos em algo para sobreviver.

O azul do céu nos recebe ao adentrar os portões do cemitério. Deveria ser em outro lugar, indago ao meu pai. É o mais brilhante verde na grama, e do amarelo das flores. Ele aponta, ao longe, para o crematório. Chegamos ao fim. Peço que ele amarre uma fita cor-de-rosa nos meus cabelos: já não alcanço mais o volante nem os pedais do carro. Vejo, em memória, meu pai na sala de estar do nosso sufocante apartamento em frente à praça principal, colocando bolinhas uma por uma em um fio de náilon. Estava atenta, esperando a ordem das cores que ele seguia. Minha mãe contou que ele foi buscar bolinhas coloridas para montar um colar para mim, depois de eu ter tido uma febre e implorado por um colar de pérolas igual ao da vizinha. O colar ainda resiste em mim.

Meu pai já está à frente, andando em sua velocidade jovial. Há tempos não o via andar assim. Corro logo atrás e grito que me espere; afinal, é dia de domingueiros. Ele diz que o pai dele o espera e pede para acelerar o passo. Nunca o ouvi falar sobre o pai, não sei por que agora o evoca. Pergunto-me por que partir com quem foi tão ausente em vida. Peço que me dê a mão durante todo caminho.

Ficamos algum tempo olhando as coroas de flores à porta do crematório. Digo que são nossas, que podemos tocá-las. Ele solta a minha mão, diz que o pai o espera e entra pela porta ao lado da janela de vidro.

— Espera — meu grito faz o funcionário da câmara de cremação deter-se.

— Pai, quando eu tiver que ir, você me busca?

Ele balança a cabeça em sinal de sim e diz:

— Atreveu-se a guiar o carro do Sol sem conhecer o caminho. Eu venho, filha.

O funcionário do crematório pergunta se pode fechar o caixão; digo que sim, pois chegamos ao fim esperado.

Sigo pelo caminho por onde vim, a passos largos em pernas esguias, como as do meu pai. Olho para o crematório uma vez mais e vejo subir a fumaça branca, dançando até o céu azul.

Despeço-me dele:

— Vai com Deus, meu pai. Vá com Deus.

Então, já não precisava mais me apressar.

1º Bula Prêmio de Conto
Fabíola Amaral

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