A árvore que produzirá a madeira do seu caixão já foi plantada e, quiçá, até já se encontra à sua espera para cumprir a última função. O caixão aguarda, no silêncio bruto da madeira, o último abraço em um corpo que um dia ardeu em vida, em desejo, em dor. Esse pensamento parece mórbido, mas eu o trago comigo como um velho conhecido — não me causa repulsa, antes me encabula.
A vida é um único fio. Começa em algum ponto — misterioso, que nem o primeiro choro — e termina em outro — inquestionável, tal qual o último suspiro. Seguramos esse fio com mãos trêmulas sobre um abismo. E, entre esses extremos, existe o que inventamos.
Esse pensamento, contudo, não me assombra, embora ele me chame. Eu convivo com ela. A morte. Não por ter perdido mais gente do que os outros, mas por ter enterrado. Porque tantas vezes me sentei, como que conversando com uma velha vizinha que conta sempre as mesmas histórias com a sua voz cansada.
Mas há algo que não estava nos livros da paróquia, nem nos mais solenes manuais de conduta eclesiástica: rezar para os que partem sem coroas de flores com dizeres de saudades eternas. Sem nome. Indigentes sem parentes ou conhecidos. Esse ofício não foi dado por decreto. Nasceu de um gesto simples, quase banal, e de uma chuva fina que insistia em bater nas telhas da sacristia.
Lembro-me com nitidez daquele dia. Folheava alguns papéis, nada demais, registros habituais da paróquia. Três toques na porta. Abri e vi um homem, molhado da cabeça aos pés, que estavam sujos de lama. Semblante duro. Falou com respeito, mas sem cerimônia.
— A sua bênção, padre. Sou coveiro. Tem um enterro agora. Indigente. Não tem ninguém pra rezar. O senhor pode?
O cemitério municipal ficava a uns quatro quarteirões da paróquia. Não sei se foi a chuva, a crueza da frase ou porque no dia anterior havia sido dia de São Vicente de Paulo. Mas eu podia. E fui.
O cemitério parecia mais triste sob o aguaceiro. Há um setor específico para esses casos, e as sepulturas são identificadas por números. O caixão era simples: madeira crua, como todos os outros que vi depois. O som da chuva substituía os choros. Lembro de achar bonito o céu chorar. Céu que parecia, ele mesmo, distraído de tudo aquilo. Irônico. Como a vida. Dois coveiros, encostados em suas pás, esperavam o fim com a naturalidade dos que já enterraram muitos sem despedida.
Rezei. Não por dever formal, mas por uma convicção íntima. Ali havia uma vida — singular e cheia de ilusões como qualquer alma humana. Feita do que quer que fosse que também minha alma era feita. Desde aquele dia, Benedito sempre me chama. E eu sempre vou.
Era uma intimidade estranha, mas legítima. Não estava ali para aplaudir, nem para consolar o que restava dos vivos, como às vezes eu fazia. Minha tarefa era outra: afirmar que aquela vida havia passado por este mundo. Que não partia sem testemunho. E, quando o caixão descia e o primeiro punhado de terra caía sobre ele, o silêncio se tornava ainda mais profundo. Então, a terra acolhia.
Chamaram-me mais uma vez. E outra. Então, eis aqui outra confissão que se impõe: comecei a, estranhamente, desejar ver os rostos daqueles a quem dedicava minhas orações. Até então, rezava sobre caixões cerrados. Mas percebi que a ausência de fisionomia me tornava pobre na imaginação, incapaz de intuir qualquer história além da fria certeza da morte. Rezava, sim, mas rezava a uma abstração. Faltava-me o traço humano, a expressão última, a sombra de uma biografia que jamais conhecerei por inteiro.
Foi assim que passei a pedir à equipe funerária que me avisasse, com antecedência, das ocasiões em que minha presença seria solicitada. Queria chegar antes que a pá do coveiro fechasse o labor; queria, sobretudo, contemplar o rosto. Imaginar o que o tempo concedeu àqueles homens. Ou a vida.
Não pense, por favor, que se tratava de mórbida curiosidade. Era, antes, uma necessidade filosófica. Pois, se a vida é um livro que se fecha, aquele rosto é a última página visível. Um franzir de sobrancelhas, um lábio contraído, a serenidade ou a revolta guardadas nos traços — tudo parecia conter indícios de uma vida inteira. Como se um romance de Dostoiévski pudesse ser resumido em um único parágrafo.
Senti, desde então, que minha oração ganhava mais corpo. Não era um número numa lápide, mas um homem — veja bem, era sempre um homem — que sonhou, padeceu, talvez amou e certamente morreu.
Então me chamaram de novo. Com um acréscimo de gravidade dessa vez:
— Padre, é uma senhora.
Não sei por que a notícia me surpreendeu; a morte não é democrática? Não sei. Ao chegar, disseram-me: encontraram-na num banco de praça. Pedi — como venho pedindo — que me deixassem vê-la antes, com tempo.
O rosto era desses que envelhecem discretamente, sem alarde. As mãos, cruzadas sobre o peito, traziam calos de quem trabalhou; um terço nas mãos, encontrado com ela e polido pelo uso, dizia uma fidelidade. E então me vieram as perguntas — sempre vêm. Quem era essa mulher sem família, sem conhecidos, sem documento, sem casa e, dizem, sem história?
Eu rezei por ela. E então, como sempre sucede, a história dela se inventou diante de mim — não a real, que jamais saberei, mas a que minha necessidade insiste em tecer. Em segundos, aquela senhora já me era conhecida antiga.
Aquele corpo me mostrava uma moça que não casou por falta de tempo, e o tempo, paciente, tratou de tornar definitivo o provisório. Entrou na casa de uma senhora, que depois ficou enferma — a patroa — e ali ficou por anos que se somam sem alarde. Sabia a hora dos remédios, o jeito certo de virar o corpo no lençol para evitar escaras e cantarolava, pois a patroa gostava: “Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também”.
Nos dias bons, passava as roupas a ferro, com gosto de ordem; nos ruins, apenas as dobrava. Quando a patroa partiu, não houve herança além de um aperto de mãos e um agradecimento apressado. Ficou o hábito do cuidado.
Não teve filhos. Parentes tampouco. Morou de aluguel, em algum cubículo que tinha um piso vermelhão. E cada objeto tinha lugar exato: a toalha cor-de-rosa bordada, um vaso de plástico com um girassol artificial, um retrato antigo de alguém que também não precisava de nome.
A vizinha doente, do outro lado da rua, sempre recebia dela o caldo de galinha e conversa na porta. Essas conversas que sustentam uma vida. Havia um cachorro pequeno, companheiro de passos curtos; andava devagar como se soubesse da dor no quadril que ela tinha havia anos. A seguia até a padaria, ganhava um pão de queijo e voltava cerimonioso.
Ela o amava e, por isso, quando soube da doença que se espalhava por dentro, entregou-o a boas mãos — um rapaz da banca de frutas, paciente com animais. Fez isso com a firmeza de quem assina um documento: queria o bem do bicho longe da sua ausência.
Nos últimos dias, refez a barra do vestido que estava meio descosturada e lustrou os sapatos. O terço dormia sob o travesseiro; acordava e já ia para a bolsa. Deixava a cama feita, arrumação de quem deseja sair sem desordem. Não queria morrer fechada e às demoras do encontro. Preferia a claridade da praça, o rumor contínuo de passos, o assovio das aves, a respiração da cidade como testemunha.
Sentava-se no banco de sempre, aquele sob a sombra que muda de lugar ao longo da tarde. Observava as crianças indo pra escola, o vendedor de pipoca, as conversas no ponto de ônibus. Contava as contas do terço sem pressa; cada dezena parecia amarrar o dia ao corpo, o corpo ao mundo.
Então, quando o cansaço subiu devagar, encostou as costas, ajeitou a bolsa no colo, cruzou as mãos. Não adormeceu como quem foge; repousou como quem chega. A praça, cheia de olhos, manteve a costumeira miopia.
— Padre, temos que levá-la agora.
Guardei os desvaneios pra mais tarde e acompanhei Benedito.
O coveiro colocou o caixão sobre as ripas, ajustou as cordas, e eu fiz tudo como sempre fazia. Rezei. O Salmo 23 saiu quase sozinho:
— O Senhor é meu pastor, nada me faltará…
Benedito começou a lançar a primeira pá de terra. O som seco me cortou a atenção, lembrando-me do fim definitivo que a realidade impõe à fantasia. Quando a cerimônia terminou, precisei perguntar:
— Onde exatamente foi encontrada? Qual praça, qual banco?
— O banco embaixo da mangueira, na praça central mesmo.
Pois bem. Sentei-me naquele banco. Mas não era a primeira vez. A sombra daquela mangueira permanecia em mim e provavelmente sempre aguardara o meu retorno. Era o mesmo banco onde tantas vezes me sentei, nas tardes de solidão, folheando meus cadernos, recitando distraidamente o terço, fingindo que lia meus livros de filosofia.
Eu era jovem ainda. Não havia entrado no seminário. Trabalhava como ajudante num escritório modesto; minha caligrafia correta me garantia um bom trocado, o suficiente para ajudar em casa. E aquele banco era perfeito: dali se via o ônibus chegando, e a espera nunca era vazia, porque havia o abrigo da sombra e o murmúrio das folhas. A vida ainda era uma estrada longa.
Nesse mesmo lugar, anos atrás, uma senhora me oferecera metade de um pão embrulhado em guardanapo.
— O senhor já almoçou? — perguntou, com simplicidade.
Recusei, agradecido. Ela me olhou nos olhos — que agora me lembro eram verde-piscina — e perguntou, sem rodeios:
— Quando o senhor reza, reza também por si mesmo?
Respondi que sim, claro que sim. Mas disse que sempre me perguntava se alguém também rezava por mim. Ela sorriu de volta. Um sorriso quase cúmplice, e seguiu seu caminho. Talvez suas preces tenham me antecedido, como pequenas sementes lançadas ao vento.
A árvore que um dia me dará o caixão já cresce em silêncio, indiferente à pressa dos meus passos. E o banco, paciente, continua à minha espera — para o dia em que, talvez, eu também não tenha quem me acompanhe até a cova. Aquela morte não era apenas dela; era também a minha, antecipada, ensaiada.
Eis, então, minha última confissão: a morte me apavora. Mas o que me apavora não é que ninguém chore por mim. É que ninguém se lembre sequer de ter recusado meu pão.

