A verdade é que ninguém viu direito, ou entendeu, ou sabe o que houve, ou pensa que sabe, mas é claro que saberiam mais tarde, então eu não podia ficar ali de bobeira, e foi só o tempo de correr pro mato antes que soubessem, e me esgueirei na encosta até achar um monte de entulho, onde fiquei escondido, quieto, quase sem respirar, até que ouvi um ruído crescente, e então vi os homens descendo, e vinham gesticulando, falando alto, ameaçando pessoas que podiam ter visto alguma coisa, mas não viram, isso eu já sabia, porque havia o escudo, o corpo fechado à seta que voa, à peste que anda, à mortandade que assola, eu estava vestido nas armas, na força dos santos, de modo que ninguém me viu, aqueles caras não tiveram a menor chance, seus pés não me alcançaram nem haveriam de me alcançar, e foi por essa razão que passaram perto de onde eu estava e não me viram, mesmo em bom número não me acharam, e deram voltas nas ruas desnorteados, sem entender o que houve, onde eu havia me metido, se é que era eu e não outro que procuravam, porque no fundo não tinham certeza de nada, podia ser qualquer um, então praguejaram e deram tiros pro alto, ameaçando o povo que não sabia de nada, ou fingia não saber, ou inventava qualquer coisa pra se safar, e nessa confusão, aos poucos me arrastei ladeira abaixo, na escuridão, até chegar à casa de Consuelo, que me esperava sem ser vista, com o portãozinho meio aberto pra que eu entrasse, com a porta só encostada, que abri com cuidado, e já estava lá dentro quando a vi, olhos arregalados, a pele suada, as tranças do cabelo amarradas acima da cabeça, estava ali, esperando, tensa, assustada, ofegante, mas também cheia de firmeza, dando a entender que estava tudo bem, sob controle, mas eu sabia que não estava, não ainda, ninguém estava a salvo, o que me fez pensar no pior, e rever a minha vida, as coisas direitas que fiz, outras que não fiz, não por falta de vontade, mas porque a vida é assim, tem altos e baixos, e pensei também nas coisas erradas, que foram poucas, mas justamente essas me levaram por onde não devia, por esses caminhos, e foi assim, pensando, que entrei na casa, e ela me disse:
— Vai ali, debaixo da cama.
Fui até lá, e havia um buraco no assoalho, uma cova retangular escavada, com tampa de madeira, e foi lá que me meti, sem dizer nada, respirando pelo furo que ela fez, girando a manivela, a pua, e com ela abriu um orifício pequeno demais pra ser visto (a menos que se vasculhasse muito), mas grande o bastante pra manter alguém respirando, e tudo parecia bom, a ideia do buraco, ficar ali escondido, mas me ocorreu também que o espaço abaixo da cama é justamente onde se procura alguém quando há um fugitivo, mas em geral, pensei, não se desloca a cama, quase nunca chegam a esse ponto, apenas olham por baixo do estrado, e por isso mesmo achei que tinha uma chance, a ideia do buraco era boa, esperta, porque sem mover a cama, à noite, não se via direito a folha de madeira, o que havia abaixo dela, então podia dar certo, ficar ali, protegido, fiado na trama de Consuelo, que havia pensado em tudo, ou quase tudo, e estando ali, no buraco, fui me acalmando, relaxando o corpo, a respiração, e não sei se dormi, acho que não, não devo ter dormido, ou talvez só um pouquinho, porque também estava cansado, não sei, o mais certo é que tenha sido lembrança o que vi, algum tipo de lembrança, porque sempre estamos lembrando alguma coisa, queremos sempre voltar no tempo, ao início de tudo, a esse tempo anterior, momento exato de entender as coisas, o que houve, esperando a chance de fazer diferente, mudar um detalhe, um pequeno detalhe, ou então repetir, novamente, o que já se fez.
Foi nesse estado que ouvi, ou lembrei ter ouvido, quando os homens chegaram, e havia na casa um corredor comprido que já não sei se vi ou sonhei, um corredor que atravessava a casa de duas águas, com varanda, quintal, e no quintal essa mangueira carregada, a goiabeira baixa, ramificada, um pé de jambo imponente, florido, e também a mesa antiga, debaixo do caramanchão, uma mesa sólida, ampla, de madeira maciça, com duas gavetas, levada até ali por causa do calor, e em torno da mesa os homens se reuniram, fizeram anotações, contando o dinheiro, rindo, relatando casos, rindo na maior parte do tempo, mas também subitamente sérios, muito sérios, uma seriedade sinistra, crescente, até que chamaram alguém, e vi quando trouxeram esse homem, arrastado, que já entrou ali se cagando, porque o acusavam, e pelo visto tinha feito merda, tinha vacilado, e quem vacila já era, tá morto, mas às vezes os caras têm umas ideias, umas maldades que vêm lá do fundo, e acabam fazendo pior, como fizeram dessa vez, sem saber que eu estava lá, porque havia entrado pelos fundos, e enchia uma sacola de manga-espada justamente quando chegaram, e tive que me esconder no mato que se alastrava no quintal, junto ao muro, então foi dali que vi Consuelo a primeira vez, já bonita, com a beleza que ainda tem hoje, os olhos, as tranças, usava um colar de miçangas que arrebentou quando arrancaram seu vestido, e vi o seu corpo, e soube o que fariam na presença do pai, a essa altura amarrado, arrebentado, mas mantido consciente, e então fizeram aquela maldade, um a um, na frente dele, pra só então matar o coitado, diante da filha, também arrebentada, largada no chão, e então riram e disseram que se quisesse enterrá-lo teria que arranjar dinheiro, mas ela depois deu um jeito e conseguiu, não sei como, e foi nessa hora, enquanto estavam ali, num semicírculo, e riam dela, foi ali que tive a certeza, estava claro como o dia, era certo que começava uma história, porque acharam que era uma garota qualquer, morrendo de medo, que daria o fora assim que saísse dali, assim que pudesse, como se nunca tivesse existido ou estado naquela casa, ou que a usariam quando quisessem, até que fugisse ou morresse, e estavam certos de que estaria sempre calada, cheia de medo, e foi nisso que erraram, pensando assim, e ainda tiveram o azar de achar que estavam sozinhos na casa, mas lá estava eu, com as minhas mangas e goiabas, metido no matagal. Isso já faz muito tempo.
Despertei, ou tive a impressão de haver despertado, com o som de alguém esmurrando a porta, já entrando, e pelo som enfiaram a mão na cara de Consuelo, que caiu no chão e disse que não sabia de nada e não escondia ninguém, podiam olhar se quisessem, e foi o que fizeram, não sem dar mais uns tapas em Consuelo, que aguentou firme, ou pelo menos não fez grandes ruídos, não gritou, então entendi que estava aguentando bem, enquanto me fiz de pedra, no buraco, sob a folha de madeira, respirando pelo furo, rígido como se estivesse morto, mas morto não estava, nem morreria, não naquele dia, porque na cintura usava a umbigueira de palha, e os homens, mesmo armados, não podiam me atingir, suas mãos fariam movimentos, mas não me alcançariam, nem suas armas, nem em intenção ou pensamentos me fariam mal, então lembrei de Dona Inácia fazendo a jurubeba e dizendo:
— Tudo bem, agora vai, tudo está certo.
Enquanto eu ficava de pé na bacia, com o pé direito pisando o esquerdo, no equilíbrio do corpo, e ela fazendo a oração, rodeando, olhando pro céu, tirando a chave da caixa de madeira, a enorme chave de ferro fundido, chave que abre e fecha caminhos, e ergueu-a fazendo um xis com os braços, e depois gestos mais suaves, delicados, que admirei, emitindo sons que não entendi, mas respeitei, preparando a corda com palha de jupati, me enlaçando, e então, feita a umbigueira, disse que estava certo, que eu saberia o caminho, porque no fundo era bom, podia ir, que os maus viriam, cedo ou tarde, mas não me quebrariam, ainda que tivessem olhos e pernas e mãos, ainda que carregassem armas nas mãos, nada me quebraria, nenhuma seta, nenhuma bola de fogo, e então pegou o cachimbo e fumou, e na fumaça azul viu o que devia ver, e me disse pra ir. Então fui, andei, e aqui estou, enquanto os filhos-da-puta cospem e mijam na casa de Consuelo, e me procuram, mas tendo olhos não me veem, não me alcançam, e acabam, após um tempo, saindo, mesmo o sacana que olhou debaixo da cama, olhou, mas não viu, não viu a tampa, nem o furo, não ouviu a respiração, não captou o som, o invisível, nem percebeu ou imaginou ou sonhou que alguém poderia estar ali, então mais tarde, quando saí, abracei Consuelo, depois ajudei a limpar o chão, e tomei água, muita água, comi um pedaço de pão com manteiga, porque de repente me deu fome, e disse a ela que tudo ficaria bem.
Mas ainda era cedo, e ela sabia que não, não podia ficar nada bem, nunca mais, e foi como se a visse novamente mexendo no cabelo, tirando o suor do rosto, descendo a ladeira que sempre desceu, só que um pouco mais magra, desligada, pensativa, ressabiada, e recordo que vinha devagar, matutando, levando algo na bolsa, umas compras, e eu sabia que era ela, a garota que tinha visto naquele dia, escondido no mato, depois de pegar as mangas no quintal daquele bando, e lembro bem o que ela sofreu, vendo o pai, a morte, o riso, sentindo o peso dos homens, tudo isso estava nela enquanto vinha e descia a ladeira dias depois, e eu via tudo de onde estava, e não me viam, nem ela, nem os outros que passavam na rua, pois eu já tinha o dom, o passo leve, a força, o peso sem peso que herdei de minha mãe, sem falar nos trabalhos de Dona Inácia, cuidando de mim, rezando com as ervas na mão, fumando o cachimbo, fazendo a defumação pra que não me vissem em meio à fumaça, e não soubessem quem sou, e sempre tivesse o dom do segredo, dos caminhos escuros, do acaso, do imprevisto, da confusão, invocando o manto, se preciso, e as armas, fazendo-me entrar e sair dos lugares, me esconder nos detalhes, na sombra, no vão das paredes, entre as coisas do mundo e outras que não são deste mundo, de modo que via Consuelo sem que fosse visto, e sabia que ela descia a ladeira levando a sacola, curiosa de sua força, cismada, indo devagar, como quem quase para ou tem a capacidade de ver tudo parado, no controle de si, de sua ordem, no limite em que o olho vem e fura e atravessa o tempo, o olho dela pairava no mundo e enfim via tudo, foi o que pensei, e nessa hora também me viu, na estranheza que me visse alguém e soubesse de mim, e tive medo, porque ainda estava no manto, guardado, enrolado, protegido das almas, mas ela teve olhos de ver e me viu, e ainda entendeu o que tinha que fazer, a solução que buscava, achou a resposta, e nessa hora sorriu, mas não era bem um sorriso, porque não sorria nunca, só ergueu a mão e acenou, e no aceno moveu as forças, franziu o tecido, a defesa do manto, então me viu bem melhor, porque estava ali, sem saber ao certo o que viam seus olhos, um homem, mas era só uma parte, como soube depois, quando já estava no ônibus.
O complicado foi depois, e foi bem quando saí que tudo pareceu desfeito, e veio a sensação de que algo estava errado, ou que não era ou não podia ser, e não fazia sentido, a começar por não ter sido eu quem havia roubado, e que depois matou e fugiu, quem entrou e saiu da casa de Consuelo, ou nem esteve lá, escondido debaixo da cama, respirando pelo furo na madeira, não ter sido a pessoa que desceu a ladeira, se esgueirando, passando veloz entre coisas, pessoas, objetos, passando como um gato passa ligeiro, um gato sem corpo, ou o vento guardado no corpo do gato, o mesmo gato sereno, atento ao choro do vento, a massa de ar que passa, resvala a folhagem, as paredes, os muros, o vento que vem e passa, ou não é nada disso, mas pensamos assim, imaginamos o gato, o vento enchendo o espaço e varrendo as ruas, ladeiras, lixões, o vento que vai adiante, no vão entre as casas, incorpóreo, sem que nada o detenha, sendo um pouco como o tempo é, duração, ruído, um instante, depois outro, e outro, até que em algum momento deixa o lugar, esta rua, este bairro, ficando pra trás essa mistura de som e silêncio, como o disparo depois do disparo, o projétil, a bala perdida no meio da noite.
O difícil foi fazer isso havendo barreiras, vigias, caguetes, então fui descendo com todas as possibilidades passando na cabeça, acasos infelizes, tipo de coisa que dá medo, expectativa de coisas ruins, uma quase certeza do desastre, da merda total, irremediável, a soma de tudo que se pode chamar de azar, e seria mesmo, apesar da benzedura, do corpo fechado, das sendas, caminhos abertos, do fumo e do cachimbo, da fumaça azulada, da escuridão, apesar de tudo isso eu sabia que não seria fácil escapar, haveria complicações, consequências, e o mais certo era que não escapasse, e não teria mesmo conseguido, não fosse a firmeza no laço da umbigueira, no encanto que emana o feitiço, a força do menino no homem, e de repente me vi sendo outro, renovado, entendendo uma forma de ser o que era, ficar invisível, intocado pelo mal, pelo ódio, por rancor, pela filhaputice do alheio, foi esse o poder que roguei aos protetores, às armas que me vestiam, aos bons espíritos que me guiaram pela saída até os arredores da rodoviária, lá onde o plano era só embarcar, e embarquei, mas foi muito mais uma espera, porque pensava ou desejava muito que ela viesse, mas ela não veio, e também achava que seria perseguido até o último momento, mas não fui, então estar no ônibus, sentado à janela, na poltrona 29, não havendo ninguém ao meu lado, permanecendo atento ao movimento do lado de fora, sentado no interior do ônibus que já manobrava com todo cuidado, deixando a plataforma, tudo isso era bom e ruim, e nesse movimento do ônibus foi como se tudo feito se perdesse pra sempre, iniciando outro tipo de medo, uma resistência à manobra de andar, como se houvesse, e de fato havia, a intenção de desistir saindo de mim para o ônibus, transmitida à sua mecânica, ao controle e toda perícia do motorista já veterano, cabelos brancos, que ainda assim manobrou e conduziu o ônibus para fora da plataforma, lentamente deixou o terminal rodoviário, aos poucos avançou pela cidade até chegar à rodovia, por onde seguiu seu caminho sem volta, e avançou, acelerou, até que sobreveio o cansaço, e tive sono novamente, reclinei a poltrona, e já não vi mais nada.

