Estou perdida em suas dobras.
Minhas mãos ensaboadas deslizam pela sua pele com uma facilidade que me enjoa e vicia ao mesmo tempo. Quero espremer e sentir a sua gordura extravasando por entre meus dedos que nem massa de pão.
Você solta uma das mãos da barra de apoio e levanta a banha que esconde o espaço púbere e inóspito onde alguns pelos camuflam a cicatriz do portal aberto e pelo qual passei há mais de 50 anos. Não tenho coragem de olhar, mas o cheiro chama a minha mão cheia de sabão. Olhando fixamente para a lâmpada que pisca no banheiro, com a mão, sinto o frênulo que segura a aba solta do seu abdômen.
Você também está constrangida. Eu sei, porque está olhando fixamente para os padrões do azulejo e não procurando um defeito na minha roupa. Vejo seus olhos acompanhando os desenhos num vai-e-vem circular. Sua boca se mexe, acho que balbucia alguma música, mas não sei qual é. Você nunca esteve tão silenciosa na minha presença. Eu nunca estive tão silenciosa na sua presença. Não há nada a ser dito. Não há nada a ser dito?
Você se desequilibra um pouco e volta a segurar a barra de apoio bruscamente. Esqueceu da minha mão que lhe limpava as dobras e que ficou presa por frações de segundo sob sua pele pesada. Nossos olhares se cruzam ainda mais rápido. Retiro tudo, a mão e o olho, eu não lhe pertenço.
Ensaboo sob seus peitos, dois sacos gordos e vazios que escondem cavidades úmidas e malcheirosas. A pele branca esticada que une o pescoço ao mamilo pede apenas uma passada.
Estou perdida em seu corpo. O que é irônico, porque eu já morei dentro dele. Por onde já passei? Por onde ainda preciso passar? Estou lhe tateando como um oleiro dando formas à sua voluptuosa escultura. Mas você não permite ser moldada, não é? Nunca permitiu, por ninguém. Aliás, foi você que me moldou! Será que gosta da minha forma?
Com as mãos sei que estou deslizando nas suas nádegas, na sua virilha, nas suas coxas. Meu olho acompanha a luz que pisca, a água que escorre pelo ralo…
Estou ajoelhada limpando as dobras dos dedos dos seus pés. Me sinto humilhada, em humilhação, devoção. Odeio o poder que você tem sobre mim. Quando você se tornou a minha Vênus de Willendorf? Lembra daquela escultura que fiz sozinha na 6ª série? Era para escolher alguma obra de arte e fazer uma réplica, você me ajudou a escolher. No dia, brigamos tanto que acabei fazendo sozinha. Você tinha que sair com o namorado, a propósito, era casado e por isso, você precisava se adaptar ao horário dele.
Você está a cara dela… “a cara” não: “o corpo”. Ela com seus 20 mil anos e você com seus quase 90. Os muitos seios, a muita bunda, a muita perna. Um umbigo profundo. A púbis tímida, mas presente. Tudo e o rosto sem expressão e mesmo assim, expressa tudo, o todo. Ode à vida e à fertilidade, à fecundidade, à minha fecundação, mas só a minha. Por quê? Por que, de todos os que habitaram teu corpo, apenas eu saí? Por que você não permitiu que eu compartilhasse com alguém a vida miserável que você ia me dar
Desculpe, estou esfregando com muita força. Quando foi que peguei a esponja?
Eu sei, nunca me faltou nada… Nada que você pudesse dar. Você foi uma ótima provedora. Mas não foi suficiente. A minha Vênus tem essa diferença, com braços grandes e fortes. Mas foram tão poucos abraços.
Subitamente, sinto a memória no corpo da sensação de estar esparramada no seu, totalmente abarcada pelos seus braços. Meu rosto perdido no meio dos seus seios.
Você estica os braços, indicando a nova fase da limpeza. Uma cortina de pelancas se estendem e despencam desde a axila escura até o cotovelo enrugado e de novo até o punho amarrada. Asas que sempre se descortinavam para me assombrar antes de um tapa. Eu só queria colo. Alguma vez fomos felizes juntas? Qual terá sido nosso recorde sem gritar uma com a outra? Eu era só uma criança… uma jovem… uma mulher… mas aí eu virei mãe, você avó… Droga, você adora ser avó. Por que nunca gostou de ser mãe?
Agora, estou aqui procurando seu pescoço que está perdido dentro dessa pele que se desdobra desde o seu queixo até a sua clavícula. Seus cabelos estão me atrapalhando. Não, não me ajude. Eu consigo. Se segure, droga! A única coisa que você tem que fazer é se segurar. Eu não estou pedindo muito!
Quando foi que seus cabelos ficaram tão longos? Desde que as meninas nasceram você aderiu aos cabelos brancos e curtos, mais “apropriados para uma avó”. Eles já passam do seu ombro, refletem a luz num prateado bonito. Como são finos, ainda mais molhados. Eu consigo ver as veias azuis sob a sua pele branca, quase transparente. Os sinais marrons no seu couro cabeludo. Sempre estiveram aí ou são da velhice? Eu gosto desse shampoo, tem o seu cheiro.
Sua cabeça está pendendo suavemente para trás. Você está de olhos fechados. O tempo parece em câmera lenta, você está sentindo também? Acho que está gostando que eu lave os seus cabelos assim, não é? Estamos curtindo um mesmo momento juntas? Há quanto tempo isso não acontece? Quanto tempo eles costumavam durar? Cuido para que a água com espuma não escorra para os seus olhos. É isso! Você só não quer que entre produtos nos seus olhos, não é?
Você está mais baixa do que eu? Engraçado, você está diminuindo… Sabia que a Vênus de Willendorf só tem 11 centímetros e também não ficava em pé sem apoio? Era um talismã, os arqueólogos dizem. É, eu estou pensando isso enquanto observo você deixar a água cair pelo seu rosto. No que você está pensando? Você também está pensando em mim? Por que está olhando para mim?
Vamos enxugar agora.
Prefiro essa sensação de lhe esfregar. A polidez não nos é familiar, já essa aspereza… De novo, estou ajoelhada aos seus pés. Escavando cada dobra atrás da última gota. O médico disse para secar direito, não adianta reclamar. Você pede para eu espremer um buraco minúsculo e estranho no seu quadril, de onde sai uma massa cinza em tripa. Estou enojada, mas queria espremer mais, tirar mais sujeira de você.
Está cansada de ficar em pé. Vamos para o quarto e você se senta na parte da cama forrada por uma toalha para eu acabar esse ritual. Enxugo seus cabelos, escavo à procura de fios pelo seu pescoço, deslizo pelos seus ombros e escorro pelos seus braços.
Suas mãos estão cheias de marcas. Ainda usa as unhas longas. É você que faz ainda? Lindas! Suas mãos sempre foram minha parte favorita do seu corpo e a única que sei que nunca serei igual. Você sempre as manteve impecáveis. Como faz para ter unhas tão fortes?
Lembra quando você me fazia rir tocando suas antigas castanholas? De repente, seus braços fortes e pesados começavam a voar pelo ar. Formava curvas suaves, rodopiavam e acompanhavam o seu canto, escondendo e revelando o seu rosto passando por cima da sua cabeça. Queria ter lhe visto nos palcos, o único lugar onde você foi feliz de verdade, não foi?
Você escolhe a roupa apontando para a gaveta que eu estou abrindo. Essa camisa é difícil de colocar. Pego um vestido. Você reclama, diz alguma coisa sobre o tecido, mas eu estou distraída penteando seus cabelos prateados, longos. Você tem cachos agora? São 4 ou 5 que se formam nas pontas dos feixes de cabelo ainda molhados. Sempre tivemos a mesma fibra grossa e preta, levemente ondulada. Ou estou enganada? Será que um dia também vou ser cacheada?
Pede um perfume, aquela colônia de lavanda da moça com um cesto na cabeça. Sempre achei sem graça, mas é o toque que faltava para o seu cheiro, junto com seu shampoo. Acho que sou incapaz de esquecer esse aroma. Mesmo de noite, depois de ter passado o dia sozinha assistindo televisão e comendo o que tinha na despensa, eu sabia que você tinha chegado em casa por causa desse cheiro. Você me deu muitos perfumes, mas sempre usou o mesmo. Sempre me deu os shampoos que eu queria, mas sempre escolhia os que tivessem esse mesmo cheiro de praia. Será que você gosta da praia ainda? Lembra quando acordávamos cedo para ver o sol nascer no mar antes dos seus plantões?
Você disse que já quer dormir, o que quer dizer que preciso colocar sua fralda. Ai, que raiva disso! Preparo o protetor do colchão, mas eu e você sabemos que não é suficiente. É a sua vez de se distrair com a lâmpada do quarto e as marcas nas paredes. Já eu preciso olhar atentamente onde desdobro essa fralda e como coloco. Se não vai sobrar pra mim.
Você agradece já emborcada para o lado oposto ao que eu estou guardando os produtos. Os olhos fechados. Eu desligo a luz. Estou quase saindo, você me chama para deitar com você até que pegue no sono. Eu não quero, mas deito. Olho para o teto e as sombras que vêm da janela. Pernas e braços cruzados, imagino estar num caixão. Não sei o que fazer com meu corpo do seu lado.
Sinto que você me olha.
Desculpa, eu não consigo olhar para você. Tenho medo. Eu quero lhe abraçar. Seu braço se desdobra e você estende sua mão para mim. Não sei por que, meu braço se desdobra e minha mão encontra a sua. O tempo para, seu ronco começa. Eu aperto a sua mão, você aperta de volta. Me viro para você. Até dormindo suas feições são sombrias. Seus cabelos, agora, escondem seu rosto. Melhor. Assim eu consigo olhar. Eu não consigo parar de olhar, você é o meu enigma. Eu te sinto se afastar, cada vez mais longe. Sinto mais medo!
Uma vertigem. Você está mesmo é diminuindo. Eu não quero. Estou te apertando, mas você fica me escapando…
Eu consigo te segurar, mas não tem jeito. Estou grande demais para você ou você pequena demais para mim? Com menos de 11 centímetros, você se esconde dentro da minha mão. Aqui, (des)dobrada, você é o meu talismã.

