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Entre nomes que partem e ficam

Entre nomes que partem e ficam

Minha mãe morreu sem nunca dizer meu nome em voz alta, mas o escreveu, trêmulo e hesitante, na última página amarelada de um diário antigo, como se aquela palavra pudesse fugir de seus dedos a qualquer momento.

Voltar para aquela cidade foi como calçar um sapato velho que me ferira até o osso: a forma da dor permanecia intacta, cada passo despertando feridas que o tempo não conseguiu fechar. As ruas, antes vastas em minha memória, agora pareciam encolhidas, sufocadas pela poeira fina que dançava no ar morno do entardecer. A cidade tinha mudado — ou talvez só eu tivesse mudado demais para ela.

A antiga farmácia do centro, que vendia doces e remédios, agora tinha vidros adesivados que prometiam bênçãos. O supermercado, onde uma vez me chamaram de aberração, havia desaparecido, tomado pelo avanço das igrejas.

O cemitério parecia quase alheio ao tempo e às mudanças. Suas lápides polidas reluziam ao sol, contrastando com a poeira que subia no ar e cobria a cidade como um véu de esquecimento.

Mas a casa… a casa continuava ali, imóvel, quieta, guardando o pó exato do dia em que fui expulsa.

A chave ainda estava no mesmo lugar — escondida sob um vaso rachado no jardim, coberta por uma fina camada de terra seca e folhas mortas. Quando a peguei, senti a carga de tudo o que fui e não fui. A porta gemeu com um longo rangido quando a empurrei, como se ela própria reconhecesse o peso do meu retorno. O ar dentro era denso, impregnado de uma mistura antiga de naftalina, orquídeas artificiais e o silêncio sufocante de um tempo congelado.

Subi as escadas devagar, sentindo cada degrau como uma pergunta que me atravessava:

— Você tem certeza do que veio buscar aqui?

O quarto estava intacto, congelado no tempo. A colcha de retalhos sobre a cama ainda exibia as cores desbotadas pela luz amarelada que entrava pela janela. As paredes, pálidas e marcadas pelo tempo, pareciam absorver o passado.

Sobre a cama repousava a boneca de porcelana que eu costumava esconder no fundo do armário — agora cuidadosamente colocada ali, como um aviso silencioso. Alguém a colocou ali. Alguém sabia.

Na mesa, um caderno de capa de couro repousava como um relicário, guardando um segredo. Nele, estava escrito meu nome — Helena — com a letra trêmula da minha mãe, uma caligrafia que parecia tentar segurar água entre os dedos.

“Hoje pensei em você, filho. Ou filha. Não sei qual palavra usar sem errar — e talvez esse seja o meu maior erro: ter medo até das palavras.”

Fechei os olhos, e então eles vieram, todos eles, como fantasmas que habitam cada pedaço da minha história.

Paulo — o nome gritado na maternidade, forçado pelo orgulho de um pai que só desejava um herdeiro. Na infância, Paulo vestia bermudas largas, jogava bola até o sol desaparecer e engolia o choro quando alguém o chamava de maricas. Cada vez que aquele nome era pronunciado, algo dentro de mim se partia, como se chamassem por um corpo que não me pertencia.

Paula — rabiscada em letras redondas na capa do caderno da sexta série, uma esperança tímida de viver como eu queria. O uniforme escolar parecia menos sufocante, mas o chamado na lista era uma sentença. Cada voz do professor era uma lâmina invisível que me perfurava.

Joana — identidade improvisada para conseguir um emprego. Uma foto 3×4 com maquiagem malfeita e cabelo preso. No crachá, um nome estranho, um sapato novo que ainda não calçava direito, mas que pagava o aluguel.

Otávio — uma tentativa desesperada de caber no molde. Camisas masculinas, voz engessada, sorrisos falsos em reuniões de família para evitar sermões. Dormia de olhos fechados para não encarar o reflexo que me rejeitava.

Maria — nome emprestado de uma amiga, usado para atravessar fronteiras e desaparecer. Longe dali, quase livre, mas arrastando pedras invisíveis amarradas aos pés. Cada nome era uma cicatriz invisível. Cada mudança arrancava um pedaço, como carne puxada de unha.

Lembrei daquela noite num quarto barato, diante do espelho. Cortei meu próprio cabelo até o couro cabeludo porque não suportava o rosto que aquele nome moldava. O chão ficou coberto por fios pretos — serpentes mortas caídas no piso frio. Não chorei. Só senti um alívio sujo, como arrancar um espinho que, embora parte do meu corpo, nunca deveria ter estado ali.

Lembrei das mãos trêmulas ao escrever “Helena” pela primeira vez num formulário oficial. Não era dúvida, era medo — medo do silêncio que viria depois.

No velório, os bancos estavam quase vazios, exceto por olhares perdidos em sombras. O pastor recitava um salmo desconhecido; as irmãs da oração, vestidas de branco, cochichavam, tentando decifrar o enigma que eu representava. Uma voz sussurrou atrás de mim:

— É ela, né? Aquela que virou homem… ou mulher… sei lá.

Respirei fundo. Não chorei.

Caminhei até o caixão e toquei o vidro frio. O rosto da minha mãe parecia mais leve do que eu lembrava, como se ela finalmente tivesse largado a pedra que carregava.

— Mãe… — minha voz mal saiu. — Não estou aqui para perdoar. Estou aqui para me libertar.

Saí antes do fim. Ninguém me queria ali, como sempre fora. E quem eu queria ver não estava lá. O vento forte parecia me empurrar para fora, como se o próprio ar quisesse me proteger daquele lugar.

De volta à casa, sentei no chão frio da cozinha, peguei uma folha em branco e escrevi, um a um, todos os nomes que carreguei. Cada letra pesava mais que a anterior, cada nome uma marca profunda. Dobrei o papel com cuidado, saí para o quintal e o enterrei no canteiro onde minha mãe plantava violetas. A terra seca arranhou minhas unhas e abriu um corte na ponta do dedo. O sangue escorreu e desapareceu rápido, misturando-se à poeira do chão.

Ali, sob aquela terra dura, ficaram os nomes, as vidas que eu fui e deixei para trás. Pela primeira vez, não precisei inventar outro nome para continuar viva. Eu finalmente era inteira.

Sentei na varanda e, por costume, abri a caixa de madeira onde meu pai escondia chocolates para mim, longe dos olhos da minha mãe. Ele foi embora uma semana depois que saí de casa, abandonando-a por não aceitar o amor dela não ter me aceitado. Também não sabia lidar com minha verdade, mas jamais quis que eu partisse. Fui embora — ou melhor, expulsa — sem me despedir dele. Nunca mais o vi. Ele fez muita falta durante todos esses anos.

Para minha surpresa, dentro da caixa havia um envelope lacrado, escrito: “Para minha filha”. Reconheci a letra — era do meu pai.

Peguei o envelope e o deixei ao meu lado, sem saber se devia abri-lo.

A brisa balançava suavemente a rede no canto da varanda. Fechei os olhos e, por um instante, escutei meu pai caminhando no assoalho rangente da casa. Talvez fosse o vento. Talvez fosse o peso da lembrança.

Não resisti. Abri o envelope.

Dentro, havia três coisas: a escritura da casa, deixando-a para mim; um desenho feito na infância, onde ele me carregava nos ombros, com a inscrição “Eu te amo, minha girafa”, assinado como Paula — como se já naquela época quisesse revelar minha verdade a ele.

E, por fim, uma carta curta, escrita de próprio punho:

“Filha, amo-te!
Sinto sua falta. Infelizmente, não sei nem o seu nome. Estive aí mais cedo, mas sem coragem para esperar por você. Perdoe-me…
Como você sempre foi — e sempre será — muito mais valente do que eu, quero te pedir para vir até mim, se não for pedir demais. A verdade só se sustenta com firmeza. Quero que conheça minha nova família, que é também sua.
Será que nos daria uma chance de te amar?
Com saudades,
Papai Girafa.”

Eu chorei. Apertei a carta contra o peito, sentindo um calor que o tempo nunca havia trazido. Sorri, pela primeira vez em anos, com um sorriso que parecia abrir portas dentro de mim.

Olhei para o endereço e até isso me pareceu acolhedor — outra cidade, outra rua, outra casa: Rua do Arco-Íris, nº 26, bairro Esperança, Nova Vida — SC.

Nada mais importava.

Peguei minhas coisas e parti para a cidade vizinha, a vinte minutos de carro.

Agora, eu era uma mulher segura, firme em minha própria pele, mas ainda parecia uma menina pronta para correr novamente aos braços do pai. Um sorriso brotou abundante em meu rosto.

Chegando lá, foi fácil encontrar a casa: toda colorida, com um jardim exuberante onde duas crianças brincavam despreocupadas na frente.

Estacionei o carro e caminhei até elas.

— Essa é a casa do José Afonso? — perguntei.

Elas assentiram e, em seguida, fizeram duas perguntas que me tiraram o chão:

— Você é a nossa irmã que o papai disse que ia chegar?

— Qual é o seu nome?

Respondi com a voz trêmula:

— Sim, sou eu. Me chamo Helena.

Comecei a chorar compulsivamente na frente delas e me sentei no chão, porque minhas pernas já não me sustentavam.

Uma delas falou:

— Paula, fica aqui com nossa irmã que eu vou chamar o papai.

— Tá bom, Joana.

Joana saiu correndo, gritando:

— Papai! Papai! Nossa irmã Helena finalmente chegou!

Naquele instante, percebi que aquelas crianças tinham nomes que um dia também já foram meus — nomes que eu havia enterrado minutos antes.

Paula se aproximou e simplesmente me abraçou, como só crianças sabem fazer: sem palavras, sem perguntas, apenas acolhendo.

Olhei em direção à porta da casa, que permanecia aberta. Joana saiu novamente, correu até mim, me abraçou e disse:

— Vai ficar tudo bem. Nossos papais já estão vindo.

Então meu pai apareceu, de mãos dadas com um homem que carregava nos ombros uma criança pequena, sorrindo encantada. Meu pai me olhou, sorriu e disse:

— Seja bem-vinda ao nosso lar, minha filha…

Fez uma pausa, lançou um olhar ao companheiro e continuou:

— Ou melhor, nossa filha, Helena.

O homem, que eu ainda não conhecia, me ofereceu um sorriso enorme. Naquele instante, percebi que acabara de ganhar mais um papai girafa.

1º Bula Prêmio de Conto
Edison Luiz Leal Junior

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