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O mal de Miguel e Martim era o mesmo: queriam ser escritores argentinos. Como empecilho, havia sempre a circunstância de não terem nascido na Argentina. No futuro, caso se aventurassem por Buenos Aires, talvez dividissem um prêmio de consolação: não podendo ser escritores argentinos, seriam pelo menos escritores radicados na Argentina. Era um plano, mas no íntimo não se animavam. Não tinham o fascínio dos expatriados. Queriam ser verdadeiros escritores argentinos.
Conheceram-se em 1987, no Rio, cursando Letras. Moravam na Tijuca. Durante uma assembleia dos estudantes em que se propunha nova greve e piquete, os dois se entreviram de braços cruzados, com as camisas entocadas dentro das calças. Captaram um no outro uma indiferença que ia além da alienação política. Nas primeiras palavras trocadas, constataram o estrangeirismo comum, não apenas porque se cumprimentaram em espanhol, mas porque algo neles — gostariam de dizer “certa aura” — os apartava do grupo de estudantes, das paredes pichadas da faculdade de Letras, do sol que banhava o Rio.
Naquela primeira ocasião, não demoraram a perceber que havia algo fajuto no sotaque de ambos. Falavam sem contundência. Não acertavam a música. Enquanto um estudante na assembleia pedia palavra de ordem, confessaram-se, cheios de vergonha: eram brasileiros.
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A amizade foi fulminante. A partir dali andaram sempre juntos. Concordavam que a nacionalidade brasileira era uma fatalidade a qual não deveriam dar uma importância exagerada. Matriculados nas mesmas disciplinas, frequentavam o Real Gabinete, fantasiando a biblioteca de Babel, e discutiam a imaginação enferma de Macedônio Fernández. Sempre que podiam, entravam em debates com Julio, o argentino da Geografia. Na verdade, viviam emboscando Julio, querendo estudar sua cadência, porém Julio era o mais brasileiro dos argentinos: surfava, vivia de bermuda e regata e não sabia quem era Lugones. A visão daquele argentino tropical os horrorizava, mas de tempos em tempos lhe pagavam cervejas para ouvir o idioma na voz do nativo.
Certa tarde, caminhando pela Avenida Presidente Vargas, cada um evocando intimamente sua Avenida Corrientes, postularam uma hipótese: eram escritores argentinos, adormecidos naquele exato instante na noite alta do barrio de Palermo, sonhando o sonho absurdo de serem escritores brasileiros.
A hipótese teve um efeito apaziguador sobre os dois amigos. A Tijuca nunca havia existido. O pai de Martim, funcionário dos Correios, era uma fabricação mental, como a pastelaria de seu Rubens, pai de Miguel. Leitores vorazes, certamente se arriscaram nos tomos da selvagem literatura brasileira. Dali seus sonhos puderam arrancar o Maracanã, o Morro de Santa Teresa, o Cristo. O que parecia uma vida, no tempo onírico que se estendia, era apenas uma noite.
Restava esperar que os afazeres do dia viessem acordá-los.
3
Poucos meses depois de se conhecerem, Miguel e Martim fundaram a revista Otro Sur, dedicada a estudos de literatura argentina. O primeiro número foi lançado em 14 de junho de 1987, em homenagem ao aniversário de um ano da morte de Borges. O carro-chefe era um texto escrito a quatro mãos que, sob o pretexto de analisar os contos de Silvina Ocampo, elaborava um feroz ataque à “prosa suja” de Roberto Arlt.
Nessa época houve uma primeira rusga. Sempre tiveram pudor de trazer o assunto à tona, mas desde o começo havia a questão subjacente: decidir, dos dois, quem era Borges e quem era Bioy. Não houve uma acomodação natural. Embora admirassem a dupla mítica, ambos queriam ser Borges. Martim alegava que Miguel sequer usava óculos, portanto tinha uma vista demasiadamente saudável para ser Borges, ao passo que ele, se não era cego, pelo menos ostentava três graus e meio de miopia no olho direito. Miguel por sua vez apontava seu domínio do inglês, superior ao de Martim — era, pois, mais bilíngue, também como Borges.
O debate permaneceu, entre trocas de acusações e estremecimentos, até o próximo número.
Na ocasião de lançamento da Otro Sur Dos, a faculdade recebeu a visita de Ricardo Valverde, professor da Universidade de Buenos Aires. Ao fim de uma palestra sobre o conto contemporâneo argentino, Miguel pediu a palavra e perguntou ao professor quem era o grande talento, “o Borges da literatura argentina contemporânea”. Valverde riu da pergunta ingênua e disse que havia muitas décadas a última coisa que qualquer escritor argentino desejava era ser o novo Borges. Ser chamado de novo Borges era uma agressão que muitas vezes resultava em troca de socos.
Miguel e Martim absorveram a informação contrariados. Todos os presentes, estudantes de literatura hispânica, conheciam os dois amigos, e naquela tarde se compadeceram deles, vendo como se arrastaram para fora do auditório com ar perplexo, como se tivessem tomado um banho de realidade.
Nos dias seguintes, pesaram honestamente se o que desejavam era ser escritores argentinos ou meramente Borges. Um pouco trêmulos, atraídos pelo desconhecido, concluíram que, sim, queriam ser escritores argentinos. A partir daí, reabilitaram Roberto Arlt e a questão de quem era Borges e quem era Bioy perdeu a razão de ser.
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Em fins de 1987, estavam em um sebo na Visconde de Pirajá, molhados de suor, quando viram Julio, o argentino da Geografia, com uma jovem muito branca e magra, de cabelo preto escorrido, cortado à altura do ombro. Sentiram um frêmito. E não se surpreenderam quando, apresentada, a moça respondeu em espanhol. Perla era irmã de Julio, no Rio havia seis meses.
A amizade aqui era improvável, mas aconteceu.
Perla desde que desembarcara no Santos Dumont fora abduzida pelo Circo Voador, frequentava o baixo Leblon, mas, ao contrário do irmão Julio, não se tropicalizara: lia Ann Radcliffe e Mary Shelley e tocava contrabaixo numa banda chamada Estación Fantasma, inspirada em Siouxsie and the Banshees. Martim e Miguel a seguiam pela cidade. Mais de uma noite quase dormiram ao relento, perdendo o ônibus de volta para a Tijuca, tudo porque queriam ficar até o último segundo com Perla, ou pelo menos nas proximidades de Perla. Ela por sua vez tratava os dois amigos com um misto de simpatia e pena. Achava graça da fascinação dos dois pela Argentina, porém, de tanto observá-los, teve de admitir que lá estava ela também rondando as noites do Rio de coturno preto e vestido vitoriano, sonhando-se, no fundo, inglesa. Quando essa pequena epifania a oprimia, bebia caipirinhas e beijava os dois na boca, beijos de fogo, que punham Martim e Miguel em outra pele.
Como resultado, Martim e Miguel começaram a se aborrecer um com o outro. O corredor de silêncio entre os dois foi ficando cada vez mais longo e escuro. Otro Sur Tres nunca veio à lume. Era a primeira vez que experimentavam a paixão, e lhes doía que não fosse uma paixão particular, que não fosse só de Martim ou só de Miguel. Para piorar, não tinham outros amigos, outros confidentes, e não conseguiam dizer um ao outro: amo Perla. Perla me adoece. Abdico à literatura argentina em nome de Perla. Pois era o que os dois começavam a sentir: que se fossem menos argentinos e mais brasileiros, se fossem mais como os jovens de peito de fora pelas praias de Ipanema, se habitassem também o Arpoador, talvez Perla os tratasse menos como garotos perdidos, e lhes desse mais do que aqueles beijos de fogo. Pois não queriam apenas os beijos, queriam o coração e a alma de Perla.
Mas como teriam, se aos olhos de Perla eles não se distinguiam? A literatura argentina os tornara idênticos, Martim e Miguel. A separação se fazia necessária. Um delicado procedimento cirúrgico, que alforriasse os siameses um do outro.
Foi Martim quem tomou a iniciativa: Miguel, cedendo a um hábito que ambos agora sabiam falso, telefonou. E Martim orientou a mãe a dispensá-lo. A mãe de Martim, com o telefone suspenso ao pé da orelha, não acreditou no que ouvia. Porém, em seu íntimo, comemorou o pedido. Não é que não gostasse de Miguel. Sabia que Miguel era um bom rapaz, precisamente porque sabia que Miguel e seu filho eram idênticos. E o convívio só alimentava sempre mais aquela identidade. Era preciso que se separassem. E que bom que a ruptura partisse de Martim, que dispensava ali o chamado de Miguel. Mostrava que o filho era capaz de proteger suas fronteiras, era capaz de afirmar: daqui para cá, o território se chama Martim.
5
No fim de semana, Perla lhe telefonou. Não soube se também telefonara a Miguel. Não perguntou. Era uma convocação: iriam ao Teatro Galeria para a estreia de Gardel, Uma Lembrança, escrita por Manuel Puig. Puig, que morava no Rio desde 1982, era entusiasta da Estación Fantasma e exigiu a presença de todos os amigos. Depois beberiam. Queria uma noite de desbunde carioca. Perla achou que era a oportunidade perfeita para apresentar Martim e Miguel a um legítimo escritor argentino.
Martim marcou de encontrá-los no apartamento de Julio, em Copacabana. De lá iriam todos de carro. Quando chegou, Perla e o irmão o esperavam na porta do edifício, fumando, na companhia de Marina, namorada de Julio. Esperaram Miguel — Perla não esquecera dele —, mas Miguel não apareceu. Jogaram no chão as bitucas de cigarro e partiram.
O coração de Martim se encheu de aventura. Era sua primeira noitada no Rio sem Miguel, a sós no banco traseiro com Perla. Julio acelerava. O vento do mar rugia pela Avenida Atlântica. No rádio, Odara. Na companhia daquela estranha gótica argentina, sentiu-se pela primeira vez brasileiro e cantou Odara a plenos pulmões: é claro que sabia a letra, disse a Julio, rindo com Perla e Marina, jovem, muito jovem. Cerrou as pálpebras, reclinou por um breve instante a cabeça contra o banco, e de repente sentiu a luz nos olhos: não era o farol de outro carro, não eram os refletores da Avenida Atlântica, era o seu modesto quarto banhado de luz, seu quarto na calle Aráoz, em Palermo, cidade autônoma de B

