Após o banho, enrolada numa toalha, gostava de sentar-se na cama diante do grande espelho e do guarda-roupa com as portas abertas, os casacos, saias, calças, blusas, lenços, tudo exposto. Olhava as peças, combinava os estilos e as cores, secava os cabelos, passava cremes no corpo.
Tinha percebido no banho outra dobrinha na base do queixo. Aproximou-se do espelho para inspecionar a pele do rosto como se fosse uma joia valiosa com sinais de desgaste. Os olhos tinham sorte para escapar da vingança imposta pelo tempo, mas os primeiros pezinhos de galinhas surgiam ao redor. “É um massacre.” Os cabelos negros, compridos, brilhantes, exibidos com orgulho desde pequena, perderam a cor e a beleza. Pintava todo mês, passava hidratantes, deixava-os cada vez mais curtos, era possível conviver com isso, porém o que fazer com as manchas e craterinhas no rosto, os vincos no pescoço, as mãos ressequidas, a flacidez no ventre e coxas? “Até os 40 anos consegui enfrentar, agora perdi o controle, é um massacre.”
Estava arrependida por ter comprado, há quinze anos, aquele espelho enorme, caríssimo. “Com o passar do tempo, eles tornam-se os maiores inimigos das mulheres, quer dizer, os melhores são os mais cruéis.” Tocou a pele ao redor do pescoço. “Uma agressão logo de manhã, sem direito de defesa, é falta de ética e covardia. Se a vida tivesse lógica, ou sentido, a juventude seria eterna.” Ao contrário do corpo, sua mente permanecia impecável, vibrante e, talvez graças a isso, teve uma grande ideia naquele momento. O desgaste visto na superfície talvez escondesse um passado que recusava o esquecimento. “Por que não arrancar esta pele?”
Não hesitou para pegar um canivete suíço numa gaveta, acionar a lâmina mais curta e afiada, voltar ao banheiro, sentar-se na borda da banheira e cortar-se acima dos tornozelos. A dor não a impediu de enterrar as unhas e as pontas dos dedos, nem de puxar com força o que podia até os joelhos e depois até a cintura. Estava coberta de razão: enquanto uma pele saía, entre os filetes de sangue, outra se revelava. Controlou a ardência aguda, a excitação quase fora de controle e, sem acreditar na maluquice, cortou-se nos ombros, arrancou a pele que cobria os braços e as mãos. Após o esforço tomou uma chuveirada, enxugou-se e, diante do espelho no quarto, recebeu sua recompensa: os membros voltaram à aparência que tinham aos 30 anos.
A situação era absurda, parte do corpo doía demais, só que, em vez de gemer ou gritar, ela jogou-se na cama, pulou, dançou. Nenhuma droga poderia proporcionar tal euforia. Estava mais excitada do que feliz quando voltou à banheira, cortou, arrancou a pele da cintura até o pescoço, na frente e nas costas. Sentiu o corpo rejuvenescer, apesar da dificuldade, dos pedaços de pele difíceis de cortar, do sangue que escorria, do aspecto de assassina serial. Saiu do chuveiro, enxugou-se e viu no espelho seu novo corpo com cerca de 30 anos. Só o rosto permanecia o mesmo. “Descobri a fórmula da eterna juventude… ou fiquei louca de vez?”
A dor atingiu um nível extremo quando ela voltou ao banheiro e, à frente do pequeno espelho sobre a pia, cortou o alto da testa com o canivete, enterrou as unhas e os dedos, urrou, puxou e arrancou a pele até os ombros. Lavou o rosto e teve um ataque de pânico ao tocá-lo e ver, diante do espelhinho, que ele estava uns dez anos… mais velho. Diante do espelho do quarto examinou seu formidável corpo de 30 anos e a face cinquentona com os sinais explícitos da maturidade.
Recusou-se a aceitar aquilo, revoltou-se, gritou, sentou-se na cama, chorou durante cinco minutos. “Se arrependimento matasse…” Precisava reagir, tomar uma providência, resolver o problema. Nada de fórmulas de eterna juventude, queria as coisas como eram antes, estava tudo bem, umas ruguinhas e dobrinhas aqui, umas estrias acolá. Por que decidira acordar o monstro? “Você está no meio de um pesadelo, basta!” Doía bastante ao enxugar as lágrimas e, resignada, voltar à banheira para tentar arrancar a pele recente. Não acreditava nisso, mas torcia para as coisas voltarem ao antigo normal.
Recomeçou a se cortar, arrancou a pele nova dos pés ao pescoço. Ao final, após o banho, admirou cada palmo do corpo no esplendor dos 18 ou 20 anos, a pele dura, os músculos delineados e curvas intactas, as cores vivas, a postura petulante inseparável da juventude. Em parte orgulhosa, em parte apavorada, e em dúvida sobre as consequências, voltou à pia, cortou a pele no alto da testa, enterrou as unhas, puxou a pele do rosto, arrancou tudo. Após lavar o rosto viu diante do espelho uma pessoa semelhante a ela com a beleza do início da idade adulta, porém com um rosto de 60 anos, os cabelos grisalhos, as rugas multiplicadas, o aspecto sombrio, indefeso. Fosse quem fosse, olhava para ela com um sorriso que parecia de surpresa, mas era de nervoso.
Arrependeu-se mil vezes, principalmente porque não podia fazer nada. Como explicar aquilo a alguém? Desrespeitara o aviso de não sair da trilha e, diante do perigo previsto, entrara em pânico. Fazer o quê? Pedir socorro? A quem? Confusa, desamparada, sem respostas, voltou à borda da banheira, cortou-se nas extremidades dos pés e mãos, arrancou o que pôde da pele. Sua ossatura, então, começou a ranger; uma forte ilusão dos sentidos anulou por instantes a visão e a audição; o fôlego sumiu e, ao voltar, foi em meio ao som alucinante de artérias, órgãos, ossos se contraindo; sentiu o corpo perder peso e altura sem sinais de hemorragia, parada cardiorrespiratória ou falência dos sentidos. A dor era violenta ao final da vertigem mas ela, com dificuldade, cortou os pedaços de pele soltas e tomou outra chuveirada.
O espelho mostrou o corpo de 10 anos da garota magrela que fora um dia, desprovida de seios, a barriga lisa, a bacia estreita, as pernas finas. O olhar no rosto de 60 anos parecia de surpresa, mas era de medo. Fizera um acordo desastroso com o monstro que despertara: o corpo recuperou a juventude, porém o rosto antecipara a morte. “Quem está do outro lado?” Sem resposta, voltou à pia, cortou-se na testa, enterrou as unhas na pele, retirou tudo até a base do pescoço. Após lavar-se e voltar ao grande espelho, recuou diante de alguém com um rosto de mais de 70 anos, de cabelos ralos, ossatura evidente, pele toda enrugada, olheiras fundas nas faces chupadas iguais às de uma laranja murcha. Fosse quem fosse, era prisioneira de um corpo pré-adolescente e seu olhar parecia de desespero, mas era um princípio de terror.
Chorou por cinco minutos, o corpo doía muito, ela não sabia o que fazer. “Não posso sair de casa assim. Serei presa, vão me transformar na mulher-elefante, na monga do circo. É melhor me matar logo. Mas… só tenho 42 anos… não estou preparada para morrer.” Pensou por alguns minutos, decidiu encerrar aquela aventura irresponsável, arrancar o restante da pele, tentar matar-se de uma vez. Se restasse alguma lógica no mundo ela ficaria com o rosto atual enjaulado no corpo de uma criança. No entanto, regressar no tempo não poderia ser um processo infinito, deveria ter um limite imposto pelo próprio corpo. O provável é que as artérias, veias, neurônios, músculos, ossos e demais órgãos não se entendessem na próxima vez, e ela morresse antes de verificar o resultado de suas artes. Perguntou-se se era mesmo uma boa ideia… “Preciso fazer algo ou vou enlouquecer pensando.” Minutos depois sentiu-se mais confiante, foi à banheira, recomeçou a se cortar, a arrancar a pele.
A menina de 4 anos chorava, sentada nua no chão do banheiro, ao ser encontrada pelos vizinhos e policiais no meio daquela manhã. Entre soluços, dizia não se lembrar do nome, quem eram seus pais ou o que acontecera. No chão havia um canivete suíço e uma tesourinha com manchas de sangue, pedaços de pele, mechas de cabelos pintados, grisalhos e brancos, entretanto o que espantou a todos foi o seu rosto de estimados 70 anos. Os vizinhos disseram que só a viam de longe, de relance, nem o seu nome sabiam. O bairro era de ruas pacatas, a maioria das casas tinha muros altos, foi uma sorte um vigilante ter ouvido o choro, chamado os policiais. A verdade é que por ali só se dava atenção aos moradores quando criavam problemas. Um policial afirmou aos jornalistas que “um máximo de esforço” seria feito para identificar a garota e localizar os familiares.
As semanas se passaram, nenhum conhecido apareceu, os parentes não foram localizados, o caso foi logo esquecido pela opinião pública e três meses depois arquivado pela polícia. Uma década se passou. Ela hoje é uma bebê-vovó, mora num berçário da prefeitura, tem ótima saúde, toma sucos de frutas, leite, papinhas, gelatinas, adora brincar com as bonecas de pano coloridas, despenteia seus cabelos, veste, troca, arranca as roupas. É a queridinha dos médicos, enfermeiras, funcionários, visitantes, todos disputam a sua atenção e a chamam de Princesa. Desde que chegou, sempre que ela vê um espelho tem acessos repentinos de choro que duram cinco minutos e passam sem que os médicos descubram o motivo.
Seu corpo agora é o de uma garotinha de quase dois anos com raros cabelos brancos na cabeça. A pele enrugada cobre o rosto da base do pescoço ao alto da testa e se parece com a de uma senhora com mais de 80 anos. Os olhos expressivos chamam a atenção. As enfermeiras garantem que “certas vezes, eles chegam a assustar”. Uma delas costuma dizer às visitas: “Parece que eles querem contar um segredo.”

