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Extravio

Extravio

A cirurgia durou oito horas e vinte e três minutos. Durante oito horas e vinte e três minutos, não dormi; não comi; sorvi goles esparsos de água, por puro automatismo — com a alienação do paciente a quem se administra soro intravenoso. Fui ao banheiro? ou tinha, além de soro, também uma sonda posta?

As únicas percepções realmente conscientes: o trânsito de equipes médicas pelo corredor; os ponteiros do relógio pendurado sobre o sofá, sobre o vaso de plantas de plástico, sobre uma mancha amarelada (quem e como a poderia ter produzido?) na parede; o rodízio em turnos entre luzes naturais e fluorescentes; eflúvios de miasma; ecos de estertor.

“Uma verdadeira batalha”. “Ela foi uma guerreira”. “Foi feito todo o possível”. “Meus profundos sentimentos”.

Não desmoronei. Recebi a notícia com desalento, mas sem desespero. Exausto; sereno; centrado; derrotado; conformado. Otimista. Como no dia do acidente, quando começou a guerra. E uma batalha não é a inteira guerra.

Exausto. Eu precisava dormir, recompor forças, para acompanhar de perto a operação seguinte, ainda mais delicada: soube que a autópsia seria feita nos próximos poucos dias. Tempo suficiente para me recompor.

Não exatamente, pois me ligaram do hospital perguntando se eu me sentia confortável com o desejo dela de doar os órgãos. Era o desejo dela… Mas quais órgãos, exatamente? “Todos”. Todos-todos? Até a pele? “Todos, até a pele, menos o cérebro, naturalmente…”. Naturalmente… O que é natural? O que é da natureza? Não perguntei.

O silêncio crescia dentro de mim, inchando, inflando, pressionando, como faz o ar dentro do pulmão ao reter o fôlego. Mas e depois? O que aconteceria? Quais seriam os riscos e os efeitos dessa operação? Esperavam de mim que assinasse o termo de responsabilidade, e eu era incapaz de me pronunciar.

O ar preso do silêncio, o peito pressionado. Soltei. Quais seriam os beneficiários? “Era apenas uma beneficiária”. Só uma? Uma-uma? Todos-todos os órgãos para uma-uma beneficiária? “Isso mesmo”. Silêncio. Ar. Pressão.

Um certo alívio. Óbvio que a beneficiária era apenas uma, que ideia… E o cérebro? Provavelmente cuidariam dele na autópsia. Mas e se os órgãos fossem encaminhados a outra beneficiária, por engano? Não: uma situação tão crítica exigia o máximo profissionalismo — nem mesmo eu, um diretor de teatro boêmio e caído em desuso, cometeria um equívoco tão grosseiro. Além disso, pelo menos o cérebro ficaria preservado. Imagina se a beneficiária-por-engano, toda-toda preenchida dela, revestida dela, me reconhecesse na rua? Sem o cérebro, não me reconheceria. Eu tomaria um susto, é verdade, achando que me perseguia uma alma do além, mas seguiria em frente, sem olhar para trás. Não era ela.

Um momento! Então não seria melhor, muito melhor, não seria exatamente perfeito que a beneficiária-por-engano recebesse também o cérebro? Ela me reconheceria na rua, sim, mas tanto melhor! Seria ela! Talvez ligeiramente mais baixa, levemente mais ruiva, suavemente mais corcunda, mas alguma dúvida de que seria ela? Voltaríamos para casa juntos, como se estivéssemos buscando um ao outro depois de nos perdermos por alguns meses no meio da multidão.

Sugeri essa ideia à residente de plantão no hospital, ansioso. Com sorriso hesitante, ela encaminharia minha sugestão ao setor responsável. Ninguém me respondeu. As pessoas encarregadas do setor em questão, pouco numerosas, estão sempre ocupadíssimas — sem contar que não é todo dia que recebem um órgão em bom estado para doação, que dirá então todos-todos os órgãos (menos um, vá lá…) em bom estado para doação. O jeito era mesmo aguardar.

Enquanto isso, havia ainda o plano B: a autópsia. Se fosse bem-sucedida, eu requisitaria em seguida a devolução integral dos órgãos ao corpo bem-sucedido. Afinal, era desejo dela doar, mas apenas em último caso, uma vez fracassadas todas as cirurgias e intervenções.

A autópsia infelizmente também fracassou. Não gostei do comentário cínico, insensível, do médico legista. “Claro que a autópsia foi muito bem-sucedida, não estou afirmando o contrário. É preciso aceitar que ela não voltará para casa”. Bem-sucedida, claro… Impressionante a pouca capacidade das pessoas em reconhecer os próprios erros. Mesmo nos piores cenários, os médicos sempre fizeram seu trabalho impecavelmente. “Foi feito todo o possível”.

Retomei então o plano de doação do cérebro à beneficiária. Percorri todos os labirintos setoriais do hospital, cheguei a entrar (me disseram depois) no banheiro feminino do vigésimo oitavo andar, perguntando pelo subsetor 472/390.845 subordinado ao departamento de doação de órgãos. Um grito de terror me disse que não era ali.

Enterraram-na por fim. Tentei ainda cancelar o evento, ao menos adiá-lo por motivo de saúde; em vão. Soterraram-na, com o cérebro embutido, frustrando todas as minhas estratégias de guerra. Escolhi os sapatos mais confortáveis no armário dela, sem poder imaginar que não seriam utilizados para amortecer seus passos durante o trajeto de volta a casa. Com que angústia acompanhei a descida do caixão à cova, e as carradas de terra que uma a uma o cobriam! Seu corpo esvaziado, murcho, com o cérebro esquecido lá dentro! Por sorte, o meu próprio cérebro, no primor de seu bom funcionamento, me lembrou uma frase de um advogado de defesa perante o júri, numa série de TV que víamos juntos toda noite antes de dormir. “Sem corpo, não há morto”.

Foi o que pude comprovar na seguinte operação, igualmente delicadíssima, à mesa da médium que finalmente a trouxe de volta! Quando praticamente todas as esperanças de recuperação se esvaíam. A guerra foi vencida no apagar de todas as luzes, na última bala de canhão, bem ao fim da derradeira batalha!

Foi essa médium, a verdadeira beneficiária única, foi ela que voltou para casa comigo, vivendo comigo até que meu dinheiro acabasse todo, e que fosse eu o próximo a ser internado, isso faz poucos dias, em outro andar daquele mesmo hospital. Assim como teria sido ela quem eu teria encontrado na rua, ela toda-toda transplantada na beneficiária única, se meu plano anterior tivesse prosperado.

Ela deve estar ocupadíssima esses dias, sempre foi assim, transbordada de tarefas cotidianas, ainda que nunca tivéssemos tido filhos. Sem dúvida virá me visitar hoje, na ala psiquiátrica do hospital que ela conhece tão bem, e por isso não terá problemas em achar-me, bastando soletrar meu nome na recepção que se encontra no térreo bem na entrada principal do prédio. No mais tardar, virá no mês que vem. Da mesma forma como ela saiu-se bem daquela, eu também hei de sair desta, e em breve estaremos juntos novamente.

Seguimento

Escrevi o relato acima em plenos acontecimentos, sem saber bem por quê — sem saber sequer se era uma maneira de lidar com eles. Hoje, já se passaram dois anos desde que recebi alta da ala psiquiátrica. No dia da minha despedida, uma enfermeira me presenteou com um exemplar de O ano do pensamento mágico, de Joan Didion. O pensamento mágico que dá título ao livro é o que resiste a toda superfície racional, para emergir em forma de certeza profunda — mais especificamente: a certeza profunda de que o morto um dia voltará. Não em forma reencarnada, ou em forma imaterial. Simplesmente voltará, como se volta a casa após um dia de trabalho, ou após uma ida à padaria da esquina para comprar pão. O que mais me chamou a atenção não foi a semelhança com meu próprio pensamento de então. O que mais me impressionou foi a constatação, durante a leitura do livro, de que o pensamento realmente mágico é outro; ou melhor: é uma generalização do pensamento mágico. O verdadeiro pensamento mágico, com toda a carga de irracionalidade (e, paradoxalmente, de pragmatismo) que ele contém, não é nem o pensamento, mas o entranhamento no corpo da ideia de que a morte existe, é real, para todos, menos para aqueles cuja morte, se fosse real, nos seria intolerável. Só mesmo por efeito de magia seria possível que tal ideia se mantivesse de pé, incontestada, dia após dia, ano após ano, antes de tudo tornando possível a sólida sucessão do cotidiano. Do aprendizado da morte, o que afinal extraímos é a insana lição da imortalidade.

O ano do pensamento mágico é, assim, os anos do pensamento mágico; os meses do pensamento mágico; os dias, todos-todos os dias do pensamento mágico. Chega a ser curioso que a racionalidade seja prontamente invocada perante a quebra inevitável da magia. Que eu tenha sido encerrado durante doze anos em uma ala psiquiátrica por ter, meu corpo, resistido à ruptura de uma magia que desde sempre foi parte constitutiva dele mesmo, feito órgão vital em perfeito estado de funcionamento. E no entanto: nada garante a você, nem mesmo a mim, que eu não me encontre, agora mesmo, ainda internado naquela ala de psiquiatria, ainda e sempre ferrenhamente obstinado com o regresso à magia — e que não seja este (qual?) o pensamento verdadeiramente mágico.

1º Bula Prêmio de Conto
André Bazzoni Bueno

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