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Faroeste duro do Calango Estrelado

Faroeste duro do Calango Estrelado

Um ovo apodrece. Também é de seu feitio… Um ferro também apodrece: o revólver que matou o Mexicano também apodrece — demora, mas um belo dia se deteriora. Um sabiá, com o laranja no peito, chumbado à bala de três-oitão, também apodrece: aquele mesmo revólver que matou o Mexicano — um tiro antes, dado pro alto, virou bala perdida que derrubou a bichinha. O sabiá, ou melhor, o corpo dele, também apodrece.

Mas a Pedra Branca não. A nossa Pedra Branca, que paira esplêndida por trás de toda a correria da cidade, testemunha infalível de todos os fazeres, ela que paira nos ares toda imponente, ela não. A Pedra Branca não apodrece.

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Um ovo apodrece. Mas seria esse o seu destino? Apodrecer ali na cova que fizeram no Além Brejo, em Domingo de Ramos cálido e úmido…?

Um ovo apodrece na cova — enterraram o Mexicano e, a pedido dele, puseram um ovo dentro do caixão. Apodrecem o ovo e o defunto agora ao meio-dia. Cova rasa. Mexicano louco… Sabendo que ia morrer, entrou na igreja logo de manhã, missa das sete, cheio de vigor e cachaça nas ideias. Ele que sempre aparecia aos domingos, chegou ao altar e disse:

— Jesus, soy Juan y cá estou — libre para morir…

E mataram ele logo de manhã: Domingo de Ramos, no meio da praça. Pêi! Um tiro pro alto antes, e adeus sabiá. Pêi! Um tiro no peito dele — ele de braços abertos — e adeus Mexicano. Terra sem lei. Faroeste duro do calango estrelado. Só a Pedra Branca pra assimilar aquele impulso de vida todo…

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— Ai, eu quero morrer! Mataram o meu amor! Terra sem lei! Milicianos filhos da puta!

E Mirela? A mulher do Mexicano…? Naquele desgosto absurdo, naquele desespero fulminante de recém-viúva de marido vítima de crime, assassinado por arrumar briga com a máfia. Ela ali na beira da cova, já toda de preto, logo no Domingo de Ramos, clamando aos berros por justiça, assustando até os calangos de ronda pelo cemitério; enquanto os amigos iam preparando uma bebedeira pra desafogar todo aquele horror, todo aquele ódio, toda aquela mágoa que não cabia no peito.

Mirela ficou que não queria nem olhar pro corpo, muito menos fazer o último afago. Ficou naquele abatimento sem tamanho. Aí deram um calmante pra ela, dose alta, receitada pelo médico de plantão do posto de saúde, que foi pessoalmente ao enterro. Passado um quarto de hora, Mirela se pôs em profundo silêncio. Não chorava mais, também não respondia a ninguém. Foi ficando distante… uma distância turva… Depois foi levada à casa de Firmino, onde todos fizeram bebedeira, com roda de samba em homenagem ao finado, que agora estava morto e enterrado numa cova rasa no cemitériozinho do Além Brejo.

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— Juan Ramírez de Sant’Ana, nosso Juanito!

— Chegou na cidade ainda moleque, era menor que eu!

— Vai fazer muita falta!

— Ô, se vai…

— Desce mais uma, Firmino!

— Ao nosso Juanito!

Brindavam lá pela décima quinta vez os amigos, os velhos camaradas, as amigas, alguns amores antigos… Mirela, mais reservada, não era muito de gorós; bebia um pouco agora só pela alma do marido. Ao som do samba, cantado e dançado pra espantar todo aquele horror, chegavam também as lembranças todas, as histórias da turma com quem desde garoto o Mexicano viveu.

E foi naquele torpor persistente que Mirela pôde ver surgir uma ideia antiga na cabeça. A homenagem ao marido ali no quintal da casa de Firmino, ela quieta, corpo inerte, um gole aqui, outro ali, e seus planos de menina voltando repentinamente — a ideia de se entregar por completo à comunhão com o divino, de entrar para o convento; a ideia de se tornar freira.

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Noite alta, levaram então a viúva até sua casa, a poucas quadras dali. Mirela dando até logo às amigas, entrando pelo portão de madeira… a névoa baixa já tapando as luzes dos postes ali no bairro de Dois Rios, com o presídio abandonado mais adiante. Chegou e acendeu uma vela — pôs ao lado da imagem de Santa Maria Aparecida, a virgem-mãe da pele preta. Na mesma hora, os episódios misteriosos de quando era meninota vieram à cabeça. Quem sabe não seria esse o futuro que lhe fora reservado? Seria uma irmã devotada, com certeza. Amanhã iria ter com o padre Ezequiel encontro particular para confissão e orientações ao período de luto…

Vestiu a camisola, chorosa, depois do banho; e pôs-se a rezar, já deitada na cama, com o terço na mão:

— Ó Senhor… que teus anjos protejam o nosso Juan! E que a justiça dos céus seja feita aqui na terra! Se é esse o destino que guardaste pra ele e pra mim, meu amado, digo então que penso em me entregar a ti por completo… Eu, ainda menina, pude ver um dos teus anjos, e tantas outras coisas que ninguém explica… Rogo agora a ti que me indiques o melhor caminho! Tu que és o glorioso! Tu que estás em todo lugar! Sei que tu habitas o meu coração, ó Senhor…

Mirela chorava em fervor: sentia o corpo inflando-se e vibrando num imenso arrepio sem fim. Chorava pedindo perdão pelos erros que cometeu ao longo desta vida; pedia que a justiça fosse feita naquela terra sem lei; dizia em oração que o povo não merecia viver amedrontado pelos bandidos que tomaram o poder… Pedia, enfim, que a dor que sentia agora pudesse ser transformada por seu amor ao divino.

Mirela sente então o peito se abrir — uma flecha ardente parece perfurar-lhe o coração… Dor e alívio em igual intensidade.

— É isso, meu amado?

— Queres que me torne tua serva?

— Me tornarei tua freira devotada se este for o teu desejo, ó Pai!

— Irmã Mirela, meu Pai… Irmã Mirela, meu Pai… Se assim quiseres…

Surge então uma súbita vontade de se levantar. Com o terço ainda na mão, Mirela vai até a sala, iluminada apenas pela vela. Olha profundamente para a Virgem Santa, que parece lhe emanar um amor colossal… Parece enxergar agora a Santa Preta, as pérolas em forma de lágrima caindo dos olhos de sua devota e molhando o chão frio da sala. Um pano pra secar os olhos, Mirela em êxtase, o corpo todo aquecido em fervor… O sino do portão tocando — estaria tocando sozinho? Ora, o que fazia o sino badalar a essa hora? Estaria sendo embalado por algum anjo ou anja…?

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Aos pés da Pedra Branca, ali no bairro de Dois Rios, com a névoa já cobrindo as ruas e vielas de terra batida, vem o uivo dos cães… Atravessando aquele fumacê, ali na Rua Jequitibá, surge um homem de chapéu. Ele traz uma galinha no colo e um sabiá em seu ombro esquerdo. Vem com o andar firme na direção da casa com portão de madeira.

É Juan: Juan Ramírez de Sant’Ana, o próprio, em carne e osso. O Mexicano voltou.

Chega ao portão daquela que fora a sua casa, o seu amado lar, construído na base do suor e do amor junto a Mirela, sua alma gêmea… Toca o sino com as mesmas batidas ritmadas de sempre; a galinha se sacode, ele aguarda um pouco. Já passa da meia-noite… Repete o toque com cuidado pra não fazer alarde.

Mirela lá de dentro, êxtasiada pela vivência mística intensa, enfim reconhece aquele som. Não pode ser… Deve ser algum infeliz pregador de peça. A recém-viúva vai até a janela, olha espantada pela fresta da cortina.

É ele. É ele. Meu amor voltou.

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Juan larga a galinha no quintal, o sabiá voa pro telhado coberto pela névoa. O casal se abraça mais uma vez.

— É tu?! É tu mesmo?! Como tu tá bonito, homem!

Mirela beija o seu homem e corre pra dentro da casa, vai acendendo a luz da sala — quer ver direito o marido. Pega no braço dele, aperta; pega nos cabelos, no bigode; dá um cheiro no cangote.

— Sou eu, mulher!

— É tu mesmo…

— Vim, mas é por pouco tempo.

— Salve Nossa Senhora Aparecida!

Mirela, emanando calor, o corpo formigando em arrepio contínuo, olha pra imagem da Santa Preta e faz o sinal da cruz. Juan tira então um ovo de dentro do paletó e põe em cima da mesa — o ovo miúdo para em pé.

— Quê isso, Juan?!

— É ovo de calango.

— E eu não sei?

— Tem mais… Aqui: são sete.

— Ôxe, homem…

— Sete ovos de calango. Tudo pra galinha chocar.

— Hum…

— Mas só um vai vingar.

— Que assim seja!

— Esse calango vai nascer pra cuidar da nossa terra…

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E foram à ceia, simples, e Juan avisou que iria de vez no dia seguinte, antes do sol nascer.

— De manhãzinha vou passar na casa de Firmino. Mais gente precisa saber que eu vim.

E foram deitar, e rezaram em gratidão, e puderam então ter mais uma noite de amor…

— Juan, meu amor, me diga: o que foi que você viu?

— Vi muita coisa…

— Do dia pra noite assim?

— É que lá o tempo é diferente.

— Viu alguma rapariga?

— Ôxe, eu vi foi Jesus, Mirela.

— E ele falou com você?!

— E não foi ele que me mandou de volta?

— Humm… Como ele é?

— Jesus tem a pele escura.

— Eu sabia…

Lá fora, no pio da coruja, a lua enfim voltava a aparecer. A brisa quente balançando as folhagens… O sabiá, companheirinho de Juan, aguardava sereno o momento da nova ascensão.

E no alto, sempre à espreita, ela: a nossa Pedra Branca — viva, esplêndida, testemunha da vida e da morte, ciente de todos os mistérios de nossa terra…

Na casa de Mirela e Juan, o horror de sua morte brutal pôde ser logo transmutado naquele amor total. Saíam agora pela janela aberta do quarto os ais e os uis do casal celebrando a vida, o amor e, por que não, a despedida.

Eis o último encontro dos dois amantes, consumado graças à aparição do Mexicano, em carne e osso, já passada a meia-noite, ali na Rua Jequitibá, naquele Domingo de Ramos fatídico. Ele que fora assassinado logo de manhã pela milícia… Mirela se entregando à ideia de se tornar freira…

E o futuro? Ora, futuro… Não é hora de pensar em futuro.

O casal celebra agora as alegrias e os mistérios da vida e do amor. Amanhã alguns amigos do casal poderão testemunhar o retorno de Juan: mais um dos milagres inexplicáveis da natureza.

Os ovos miúdos de calango, trazidos por ele, postos por enquanto na fruteira da mesa da sala, aguardam seu destino final — de sete potências de vida, apenas uma será de fato concebida. E daquele ovo nascerá o bichano que irá abençoar aquela terra, sendo ponte viva e eterna entre os céus e o chão.

Dentro de poucos meses irá nascer o animal poderoso que, vindo do além ainda em forma de ovo, irá habitar a mata da Pedra Branca e será chamado por aqueles que creem nos mistérios do alto de:

“O Grande Calango Estrelado”.

1º Bula Prêmio de Conto
Soraya de Araújo Pinho

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