I
Não se pode chamar de música o som do arco raspando a corda de forma imperfeita, tampouco o timbre rascante que escapava do violino como se relutasse em ser domado. Para ouvidos não iniciados, podia soar como um encantador ensaio matinal. Mas não era. Era o que restava de uma esperança antiga, destilada em tentativas diárias, quase sempre pela manhã, antes que a escola tomasse o tempo; antes que seus alunos chegassem, com os corpos arrastados pela obrigação, mochilas de couro falso e olhos fundos de tédio hereditário.
Heitor Costa, professor de música e quase-violinista, acordava todos os dias às cinco e meia com um ritual meticuloso. Escovava os dentes como se ensaiasse uma escala. Tomava café preto e seco, como pausa de compasso. Depois, afinava o violino enquanto escutava em transe, na vitrola antiga, a Cello Suite n.º 1 de Bach, ouvindo-a como um eco de algo que um dia ele mesmo pudesse ter composto — em outra vida, certamente.
— “Não é difícil”, dizia baixinho a si mesmo. — “Só exige entrega.”
E ele se entregava. Ainda enfiado em seu pijama de listras, mas com a pose de um solista em Viena, seguia com olhos semicerrados, queixo apoiado, vibrato mais sentimental do que era preciso. Mas o som sempre voltava falhado. O arco hesitava. A afinação se perdia. O compasso escorregava como se seus dedos se movessem em outra tonalidade. E ele repetia… repetia… até sentir o suor escorrendo pela espinha, sob a flanela de sua roupa de dormir.
Então, como um deboche dos deuses, vinha o canto.
Calmo. Seguro. Impecável.
— “Pi-pi-piiiii… pi-pi-piii… do-sol-fa-dó…”
Era Chopin, o Nocturne em mi bemol. A calopsita cantava a música de memória, desde a primeira nota até a última, com um fraseado de fazer inveja a qualquer soprano. Em sua gaiola dourada, colocada estrategicamente perto da janela, Melodia — sim, ele dera esse nome ao pássaro — parecia sempre saber quando intervir. Nunca antes da terceira tentativa fracassada de seu dono; nunca tarde demais.
Heitor odiava e amava aquilo. Levantava a vista do violino; enxergava, no fundo dos olhos vermelhos da ave, uma perfeição que não podia alcançar. A calopsita cantava, sem partitura, sem hesitação, como se a música estivesse gravada nas penas. E ele? Ele estudara com mestres; tocara em auditórios; fizera intercâmbio. Mas ali, na presença daquele animal, era um infeliz aprendiz.
— “Tu tá me provocando… tu sabe disso, né?”, dizia ele. A ave apenas olhava. Piscava com lentidão. E recomeçava.
Nos primeiros dias, Heitor achou graça com a cantoria da calopsita. Depois, achou coincidência. Mais tarde, passou a desconfiar de uma ironia cósmica. Até que, em uma manhã de domingo, perto do meio-dia, quando tentava pela enésima vez tocar um trecho de Ravel, errando a passagem rápida com dedos engessados de dúvida, ouviu Melodia reproduzi-la — nota por nota, tempo por tempo, com um lirismo tão imaculado que o violino se calou por vergonha.
Então desejou… mas não um desejo qualquer.
Quis ser o pássaro, sentindo o peito apertar com uma inveja tão bela que parecia dor física; quis ter asas e cantar sem medo; quis ter um corpo leve, livre de vaidades, livre da expectativa e da pressão de vencer; quis não saber que havia falhado; quis a plenitude de quem canta porque simplesmente é.
Mais que tudo… quis que o mundo ouvisse sua música, mesmo sem saber seu nome.
Pela primeira vez, pensou: “E se eu nunca tiver sido músico? E se tudo que vivi foi só um preâmbulo para perceber que o talento é um acidente, uma loteria, cujos números me escaparam?”
Ele tinha formação. Tinha técnica. Lera partituras desde os oito anos, mas nunca escrevera nada que fosse lembrado. Seus concertos, quando jovem, foram tolerados, nunca aplaudidos. Seu maior sucesso foi um jingle para a loja de colchões de um amigo.
Por dentro, vivia como um Mahler sem sinfonia. Um Vivaldi sem as estações. Sentimentos não lhe faltavam, mas não conseguia organizá-los, expressá-los.
Na escola, os alunos o ignoravam. Achavam a música “difícil”, “sem sentido”. Ele falava de Debussy como se narrasse sonhos belíssimos; eles olhavam para o relógio. Ele falava de Villa-Lobos como quem clama por um milagre; eles bocejavam.
Houve uma aluna, Clara, que um dia chorou ao ouvir a Ave Maria de Gounod. Não disse por quê. Só baixou os olhos e saiu em silêncio. Heitor achou que ali, talvez, estivesse uma alma sensível. Porém, ela nunca mais voltou.
À noite, deitava-se ouvindo a ave cantar. Melodia gostava de Clair de Lune. Reproduzia com precisão assustadora. Às vezes, Heitor a acompanhava em um piano vertical desafinado, com as mãos trêmulas e os olhos cheios d’água. Era o único momento em que a música parecia acolhê-lo.
Começou, então, a escrever menos. Parou de tentar compor. Não se via mais como músico, era apenas um corpo velho e cansado, carregando partituras que nunca seriam tocadas. Um dia, escreveu em seu diário: “Sou uma nota fora do tempo. Um sol sustenido em um campo de fá maior.”
A cada semana, se via mais mudo. Começou a perder o ritmo. A esquecer andamentos. A ouvir a si mesmo desafinar, mesmo quando afinado.
Até que, num domingo de céu claro, Melodia executou um trecho que ele nunca havia ensinado ou sequer tocado pra ave. Era Pachelbel, Canon e Guigue. Doía de tão bonito.
Heitor chorou. Olhou a ave e, pela primeira vez em muito tempo, sorriu.
— Talvez eu tenha sido apenas a gaiola — murmurou. — E você… a música que eu quis ser.
Naquela noite, não dormiu. Ficou diante da gaiola, tocando violino em silêncio, ouvindo a calopsita cantar, desejando, do fundo da alma, ser aquele animal.
Ser música. E nada mais.
II
Minha primeira lembrança é um clarão. Talvez o dia; talvez uma lâmpada. Depois, uma mão grande. Dura. Mas não cruel.
Ele me chamava de Melodia.
Gostava de repetir esse nome. “Melodia, ouve isso aqui.” “Melodia, vamos ensaiar?” “Melodia, você é meu orgulho.”
Mas eu não sou dele. Eu nunca fui de ninguém.
Nasci com música. Ela mora em mim como a tristeza mora nos seres humanos. Não me ensinaram a cantar. Apenas me mostraram o mundo, e ele cantava para mim.
O primeiro som que imitei foi uma sequência curta de Beethoven. Um trecho de Für Elise. Ele ficou em êxtase. Me deu sementes novas. Limpou minha gaiola. Chorou.
Eu não entendi.
Cantar era natural. Como voar deve ser, embora eu nunca tenha voado de verdade. Tenho asas, mas pra quê?
Minha gaiola é dourada. Tem três poleiros e um espelho. Eu me olho naquele espelho e às vezes esqueço quem sou. Às vezes, penso que sou outro pássaro, que sabe o que fazer com sua vida; que tem uma vida.
Ele, o homem, me tocava notas erradas. Tentava. Se esforçava. Mas sua música parecia suada, forçada. Eu cantava melhor. Não por orgulho. Eu nem sabia o que era orgulho. Apenas cantava e, aos poucos, percebi a transformação: ele passou a ficar triste com isso.
Ele queria ser o que eu sou.
Mas eu só queria sair voando.
Certa vez, ele tentou tocar Paganini, o Caprice n.º 24. Um trecho impossível. Os dedos tropeçavam nas cordas. O arco patinava. A música soluçava. Eu o imitei. Cantei perfeito.
Ele parou de tocar. Olhou pra mim com uma mistura de raiva e deslumbramento.
A partir daquele dia, ele passou a me olhar menos.
E eu a cantar mais, porque cantar me libertava.
Eu não sabia se era o último. Nunca tinha visto outro pássaro de verdade. Apenas vultos. Vozes que vinham de longe. Às vezes, o som que parecia asas batendo do lado de fora. Um dia, vi. Uma calopsita livre pousou na varanda. Seus olhos eram vivos. Suas asas estavam abertas. Era de um amarelo brilhante, com um sol laranja no rosto.
Ela me olhou com pena. Eu a olhei com admiração. E então ela se foi. Deixou em mim uma ferida que virou silêncio.
Não cantei por dias.
Não queria ser ouvido. Queria ser esquecido. Percebi que a liberdade não era minha música. Era algo maior. Imenso. Inalcançável.
Na verdade, eu ainda não sabia o que era liberdade. Mas sabia o que não era: minha vida.
Comecei a pensar como seria ser como ele. Ter mãos. Abrir portas. Ir e vir. Não depender de ninguém para trocar a água, colocar sementinhas. Sonhava voar até o umbral da varanda e, depois, atravessar o mundo.
Ele sonhava cantar como eu; eu sonhava existir como ele. Ele vivia preso à falta de talento; eu, à falta de portas.
Uma noite, acordei com um som estranho. Era ele. Falava sozinho, perto da minha gaiola. Chorava. Dizia frases estranhas:
— “Talvez eu seja apenas um corpo oco. Um tambor sem pele.”
E então, olhou para mim. E disse:
— “Ou talvez… talvez você seja eu, só que com talento.”
Ele encostou a testa na grade da gaiola. E sussurrou:
— “Se eu pudesse cantar como você, eu não seria mais ninguém. Seria só música.”
Não quis responder. Mas o canto me traiu. Saiu de mim um trinado longo. Doloroso. Um lindo lamento, nunca escrito. Eu sequer queria cantar; queria gritar. Mas tudo que sei fazer é ser belo.
Pela primeira vez, pensei: “E se eu for um homem preso no corpo de um pássaro?”
Ou pior:
“E se ele for o pássaro e eu a parte dele que sonha em fugir?”
Desde esse dia, nossos olhos se cruzam diferente. Ele me vê como reflexo; eu o vejo como prisão.
Agora, ele passa as manhãs calado. O violino repousa sobre a mesa. Ele apenas ouve. Às vezes, toca uma nota. Mas sem tentar. Como se testasse o silêncio.
E eu canto menos. Não porque esqueci.
Mas porque cantar é lembrar. E lembrar… é ficar.
Um dia, espero, a janela vai se abrir. De alguma forma me libertarei. E quando isso acontecer, voarei sem cantar.
E se for ele a abrir minha porta… talvez seja ele quem voe.
João Pessoa, 28.05.25

