Faltava apenas meia hora para fecharem a padaria. Tínhamos esquecido de comprar pão. Isso nunca acontecia, mas por bobagens que nos distraíram durante a tarde só lembramos na hora em que pretendíamos comer, à noite. Fábio estava sentado na poltrona com o gato dormindo no colo quando nos demos conta do descuido, e tão logo decidi corrigir nossa falha ele me alvejou com um de seus olhares que geralmente querem me alertar para algo inconveniente ou, no caso, perigoso. Mas, assim mesmo, calcei um tênis às pressas e já estava na porta quando o ouvi dizer que ia também.
Perguntei se achava realmente necessário.
— Sinto dizer — ele disse —, mas é por mim, não por você.
Depois de tudo que passamos, ainda restam consequências traumáticas, eu compreendo, e Fábio também.
Descemos pelas escadas.
— Talvez tenhamos sorte e não nos registrem — Fábio cochichou enquanto apertava os botões de segurança da portaria remota.
Era uma terça-feira e vimos poucas pessoas na rua. A padaria fica a três quadras do nosso prédio. Tomei Fábio pela cintura e o puxei contra mim para que nos apressássemos.
— Ei — ouvi a entonação de sua voz e imediatamente entendi que seria menos chamativo se ele tomasse essa mesma iniciativa.
— É o hábito — falei em seu ouvido.
— Já faz um bom tempo — ele disse.
— Sim, eu sei disso.
E não dissemos mais nada até chegar ao balcão e pedir os pães, sempre os moreninhos, nunca os branquelos, sempre aqueles dos quais perdemos quase a metade ao cortá-los porque a casca estala no fio da faca e se despedaça sobre a mesa para nos dar a chance de juntar os pedacinhos com as mãos antes de levá-los à boca e triturá-los ruidosamente.
— Você ouviu algum ruído? — ele perguntou enquanto esperávamos.
— Os drones? Duas ou três vezes.
Fábio olhou para a porta, eu sabia que estava assustado e tenso, é sempre assim fora de casa, não importa o horário, o lugar, o que vamos fazer.
Peguei com cuidado a sacola com os pães, nunca queremos ouvi-los se despedaçando antes da hora. Fábio pagou, ele faz questão de agir assim.
— O homem deve pagar — ele sempre costuma dizer com um sorriso que fica nos cantos da boca.
Suponho certo desencanto, talvez uma ironia reparadora, mas também podem ser simplesmente as aparências: até os mínimos detalhes são importantes para não levantarmos qualquer suspeita.
Abrimos a porta de vidro e um bafo quente soprou em nossas caras.
— Tenho saudade dos nossos passeios na praia sempre que as noites ficam assim — eu disse.
— Assim como?
— Quentes — tentei fazer uma voz sensual, mas saiu fina, tipo um falsete, o que nos fez rir.
Tínhamos caminhado uma quadra quando percebi — ou supus — que alguém nos seguia.
Era um rapaz alto e magro. Tão logo suspeitei, reduzi as passadas, segurando o braço de Fábio com cautela para que ele não estranhasse nada e não se assustasse. Nisso o sujeito fez o mesmo, então tive certeza da perseguição. Sem perder tempo, bati a mão no bolso da blusa e disse em voz alta que havia esquecido o celular na padaria. Fiz o que Fábio odeia: puxei-o pelo braço e demos meia-volta, passamos pelo rapaz alto e magro e nos apressamos; isto é, eu quase o arrastei pela calçada.
— Entendi — ele disse de repente. — Também desconfiei.
Em vez de entrar na padaria, viramos a esquina e corremos. Quantas vezes agimos assim todos aqueles anos! Lembrei que, se dobrássemos a próxima rua à direita, chegaríamos em frente a um conjunto de prédios em cuja calçada fizeram alguns pequenos recuos para a vegetação. Ficam bastante escuros durante a noite. Poucos metros antes, consegui ver que o rapaz alto e magro não tinha mordido a isca e agora corria em nossa direção.
Para reduzir os riscos, saltamos a pequena mureta e nos escondemos logo no primeiro vão, e me pareceu ter sido a melhor opção. Dois arbustos plantados ali encobriam completamente nossos corpos. A luz de um poste do outro lado da rua penetrava vagamente; pude ver que Fábio tentava inutilmente conter algumas lágrimas. Eu segurava a sacola e, para meu desgosto, alguns pães estavam despedaçados entre o plástico e meus dedos retesados.
Não demorou para que nosso perseguidor se aproximasse. Suspendemos a respiração. Fábio me agarrou por trás. Viramos um só corpo imóvel. Vimos que um vigia do conjunto de prédios circulava pela calçada. O rapaz alto e magro parou, e eles conversaram rapidamente, algo que não pudemos ouvir. Ficamos um bom tempo sem mexer um só músculo.
— Não imaginava que um dia passaríamos por isso de novo — Fábio disse baixinho em meu ouvido.
Não disse a ele, mas senti um arrepio percorrer todo o corpo com a ínfima vibração de sua voz. Desde que as coisas tomaram o rumo que tomaram, nunca tinha me acontecido nada parecido. De repente, ali, em meio à ameaça, minhas barreiras se romperam.
— Fale mais — supliquei.
Fábio não mexeu os lábios por um minuto ou mais, embora eu sentisse todo o resto de seu corpo mover-se às minhas costas. Parecia tomado por uma febre. Parecíamos tomados por uma febre. Deixei a sacola com os pães escorregar entre minhas pernas, levei as duas mãos para trás do meu corpo e pude senti-lo latejar como nunca imaginei.
— Aqui? — a voz de Fábio saiu quebrada, rouca.
O perseguidor havia voltado e passado diante de nós; parecia não ter desistido. O vigia andava pela calçada de uma esquina à outra.
— Lembra o que você fazia comigo nas horas mais arriscadas? — ele falou em meu ouvido, mas me deu a impressão de estar dentro de mim, a voz de Fábio dentro de mim, o próprio Fábio; tudo dele tinha entrado em mim sem que eu soubesse como.
Sem querer, pisei a sacola; os pães se despedaçavam mais ainda. Por sorte, não houve ruído significativo. Mudei a posição dos pés; Fábio era mais baixo e isso dificultava nossos movimentos. De uma janela às nossas costas vinha o som de uma música de décadas antes: “o exército tá matador, o exército tá matador”.
— Você tá matador — eu disse a Fábio, afogando-me, arrancando as palavras de um lugar que eu ainda não conhecia em mim.
— Estou sim, o Fábio tá matador — Fábio ganiu feito um cão selvagem.
Um drone zanzou sobre nossas cabeças. De novo nos tornamos estátuas por segundos intermináveis. Estávamos tão juntos; não éramos dois, só um. Depois ouvimos o zunido do aparelho se afastar aos poucos, e então o sangue frio se enfureceu tão rápido como havia esfriado. Fábio estava de novo matador; éramos de novo carne e osso, de um modo que nem mais sabíamos ser possível.
— Lúcia — ele gemeu um extenso “u” de dor e prazer.
Um silêncio violento doeu nos meus tímpanos, como se tudo dentro da minha cabeça tivesse sido moído por uma implosão. Um vento morno varou a vegetação. Passei a mão na testa suada, tentando reter a lembrança de algo que me fugiu completamente. De repente, me lembrei do novo psicólogo da organização. Tinha ligado de manhã; à noite viria nos conhecer e checar como estávamos nos saindo. Talvez o rapaz alto e magro fosse apenas ele, o psicólogo. Disse isso a Fábio. Ele pensou um pouco.
— Pode ser — disse. — E, pensando bem…
Fiz um movimento para não me arranhar nos galhos. Virei-me de frente para ele; seu olhar tinha aquele quê de angústia que eu conheço desde antes, antes de tudo.
— Pensando bem — Fábio continuou —, será que a gente tem alguma importância depois de dez anos? Alguém ainda se lembra da nossa existência? Daquele dia? Do que fizemos?
Dez anos. Pois é, fazia uma década desde o confronto; fazia uma década que tínhamos acabado com aquilo, o ataque ao coração das trevas, como dizíamos. Só não sabíamos ainda que um coração, das trevas ou da paz, não se destrói sem que deixe atrás de si um rastro de sangue que se prolifera. Uma década distante da operação, tempo suficiente para assistirmos à renovação do abismo. Esperamos o vigia se afastar e conseguimos deixar o esconderijo sem levantar suspeitas. Talvez o psicólogo tivesse decidido nos esperar.
— Dez anos — repeti para mim mesmo, para mim mesma, aliás.
Como fomos levados a fazer o que fizemos depois da ação? Que opções nos deram para que pudéssemos continuar vivendo, afinal? É estranho pensar que há dez anos ainda não tínhamos ideia de que um dia fôssemos mudar nossos nomes, tampouco nossos sexos.
— Em que está pensando? — Fábio me olhou com sua angústia.
Ia dizer que pensava nas coisas estranhas que nos aconteceram.
— A sacola ficou debaixo dos arbustos — mas, no lugar da frase abstrata, me saíram essas palavras práticas.
O psicólogo nos esperava na recepção.
— Não temos pão — eu disse a ele; depois estendi o braço para cumprimentá-lo.
Percebi seu olhar pregado nas minhas mãos enormes.

