“Como é que eu vou saber, se eu não sou como ele?”
Alguma coisa, na altura dos olhos, incomodava bastante.
Não era mariposa, nem mosquito, nem areia. Era algo que só incomodava a ele.
É claro que perturbava.
Mas podia ser mesmo coisa da imaginação. Mesmo assim, coçando os olhos de dentro pra fora, deixava aflito quem o via mexer assim, esfregando a retina e todo o globo ocular, como se não os tivesse, apertando a pálpebra como se realmente não tivesse olho.
— Eu não sei.
Só podia ser isso.
Alguém que andava de saco cheio da vida, ou pelo menos do que achava que era a vida.
— Intragável — como dizia a servente da manhã, que ia às quintas-feiras comprar verduras na quitanda da esquina.
— Um tipo que dá uma certa náusea de olhar. Sempre desviando os olhos.
Mas, ainda assim, magnético, dizia a troco de nada.
Parecia que eu tinha matado ele.
Ou me matado no lugar dele.
E os olhos, muito vermelhos de tanto esfregar. Já eram seis horas da tarde, e já havia passado muito tempo desde o começo da conversa.
A sirene berrava dentro dos muros, e os outros meninos esticavam mais uns chutes e as gritarias antes do servente gritar:
— São surdos? Filhos de uma puta, vão se lavar!
Já era hora do jantar.
A última bola quicava sem um contrachute.
Hoje estava chovendo.
Não tinha bola, nem o servente gritando na hora do jantar, e a gritaria não era pela bola na trave.
Era a chuva, o ventão, e era também o filme que ia ficar pra depois, porque a luz tinha acabado.
Finalmente, uma vela.
— Responde, menino!
Aqui ninguém tem nome.
Nem a minha tia Dalva, que só vinha de três em três meses porque mora no interior e também porque prefere assim.
De qualquer jeito, hoje eu tô sozinho.
E era mais fácil dizer qualquer coisa e deixar pra lá.
Tem uma palavra que quer dizer mais do que sozinho.
É essa a palavra que existe aqui, mesmo sem saber o nome dela.
Porque estar sozinho é estar sozinho mesmo.
Mas não.
Tinha três: um grande e dois médios.
Os dedos eram grossos, mesmo os da mulher, que era média.
Mas o grande não falava nada, só olhava pra mim.
Era só responder de novo, do mesmo jeito, à mesma pergunta:
— Como posso saber, se não sou ele?
— Estamos todos cansados, mas…
Sempre tinha um mas.
A conversa continuava sem fim, outros mas, e isso já era um tipo de ameaça.
— Mas se não sou ele…
Os olhos estavam desbotando de tanto esfregar neles.
Já não era a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira.
O inquérito era sempre demorado, calmo, silencioso.
Faltava fazerem carinhos. Tudo por uma resposta. Tudo pela resposta que era esperada.
— Fale sobre ele.
Tudo o que já sabiam.
Que era alegre, mas que ficava triste de vez em quando.
E que, quando ficava triste, batia nos outros.
Tinha as bolas e o queixo bem mais desenvolvidos do que os outros e, ainda assim, era generoso de vez em quando.
Só não era quando estava triste.
E tristeza não era bem a palavra.
Era mais do que isso.
Na verdade, era menos que tristeza.
Era uma palavra que significava mais e menos que isso.
E é essa a palavra para aquilo que ele sentia, só que não tinha outro jeito de falar.
Tudo ali era ou uma coisa ou outra.
Ou tudo estava bem, ou não estava.
A psicóloga entrou na sala, coçando o olho.
Eram quatro agora.
Mais silêncio.
— O que você estava fazendo ali?
Todos esperavam que o menino dissesse algo que eles já sabiam, menos ele.
Nada diferente do que disse:
tinha ido lá pra olhar pra ele.
Tinha ido porque sabia que ia chover, que não ia ter jogo naquele dia.
Sem jogo, os meninos ficavam eufóricos demais.
Filme era chato, não tinha filme bom, a televisão era chata.
Preferia os calções de futebol.
As pernas por dentro dos calções eram mais que o jogo.
O futebol a gente via pela TV e esquecia das pernas.
Mas ali, ao vivo, era diferente.
Quando chovia, o jogo perdia a graça.
Então tinha ido ali pra ver ele.
O olho estava vermelho, assado, de tanto coçar.
Porque ele gostava de ver os meninos jogando, mas não tinha jogo.
Então era melhor ficar olhando pra ele.
A hora do banho era boa também.
E a hora da janta, melhor ainda.
— Mas o que ele estava fazendo sozinho?
Ele não estava sozinho.
Algumas coisas são tão óbvias que é difícil falar sobre elas.
Quando olhamos para alguma coisa, é a coisa que aparece ou é a gente que faz ela aparecer?
Ele não estava sozinho.
E se o médico tivesse tido a brilhante ideia de enviar o menino para a psicóloga antes que ele tivesse se arremessado da janela, ele não ia estar sozinho.
E se a psicóloga tivesse trazido aqueles papéis desenhados, como as borboletas das aulas de arte, coisas diferentes pra cada um, como nos filmes dos dias de chuva, talvez ficasse distraído daquela situação toda.
O ar talvez mais leve.
O ambiente seria engraçado.
Todo mundo ia rir.
Talvez até o cara grande, que ficava em silêncio, achasse graça.
E ele não estaria sozinho.
Tinha certeza agora: ia perder a hora do jantar.
E por que ninguém perguntou se estava com fome?
Depois que serviam o jantar, tinha gelatina.
Depois disso, a cozinha ficava fechada até a manhã seguinte.
Onde estava a manhã seguinte muito antes de eu vir parar aqui?
Onde estava o fim de semana das pipas e das chineladas?
E dos fins de noite com cheiro de gente que eu sei quem é, no quarto ao lado, respirando mais fundo que o ronco de um ônibus?
— Onde você estava exatamente?
Eu não estava sozinho.
Era pra responder que bem longe, perto da porta.
Ou então fazendo alguma coisa de útil, tarefas como são chamadas aqui dentro.
Mas eu não estava fazendo nada disso.
Mas devia ter dito que estava atarefado, olhando pra parede e pro chão, concentrado, feliz, fazendo tarefa responsável como sempre.
As nuvens faziam um desenho engraçado e se mexiam bem rápido.
Rápido demais.
A janela deixava o cotovelo da gente marcado com a marca da esteira de correr, e sujo de poeira também.
Mas tudo ficava distraído porque as nuvens se mexiam rápido,
e era diferente ficar olhando para elas assim, livres.
O telefone tocou.
Mas das três mãos só uma conseguiu atender,
e mais três pessoas iam se juntar a nós, mas só duas chegaram juntas.
Era engraçado falar giroflex.
Lembrava coisa de circo, porque o som dessa palavra me fazia pensar em pirulito, algodão-doce, montanha-russa
e essas coisas que a gente assistia na TV quando não tinha futebol.
— E essas tatuagens?
Era uma faca fincada em nada, na pele da coxa.
E tinha também um coração que tinham me tatuado no braço, perto do ombro,
porque às vezes eu era como uma mãe ali dentro.
Era assim antes de sábado.
Uma correria nas casas, um pouco de nuvem bem branca e rala,
o dia ensolarado com vento refrescante.
Nem tinha nuvem de chuva, nem se pensava nela.
Era churrasco, era música alta na vizinhança.
E era também assim que o domingo guardava preguiça,
o silêncio do bairro e só uns to-to-tó das motos quebrando o tédio do dia.
Mas, no canto da sala, a psicóloga tirava uns papéis desenhados de uma pasta.
E, pela primeira vez, eles olhavam uns para os outros.
Não mais pro menino, nem pra parede, esperando a vez de perguntar.
— Como posso saber, se não sou como ele?
— Não, senhora.
— Sim, senhora.
— Não, senhor.
— Sim, senhora.
— Sim, senhor.
— Não.
— Não vi, senhor.
— Sim, senhora.
— Sim.
— Não.
— Eu não vi, senhor.
— Sim, senhora.
— Eu não.
— Sim.
— É engraçado do jeito que diz.
— Vi sim.
— Sim.
— Estava sim, senhora.
— Não, senhor.
— Sim, senhora.
Como posso saber?
O segundo sinal quer dizer que acabou a hora do jantar.
Os meninos que vão lavar a louça passam xingando e falando coisas engraçadas.
Um dos homens altos abre a porta e faz xiu.
O outro encontra um papel no bolso e fica lendo.
Enquanto a psicóloga guarda os papéis, o olho começa a lacrimejar,
porque está ardendo de tanto esfregar nele.
— O que você viu exatamente?
É que tinha uma coisa que eu queria dizer.
Faltaria dizer que imaginava a vida deles muito chata.
Como se quase não fosse vida.
Que eles não tinham as pernas por dentro do calção pra olhar.
Que não tinham a hora do banho.
E, em dia de chuva, como hoje, não tinham olhado pro céu,
vendo as nuvens e todo aquele coloridão,
o elefante na nuvem rosa esticando a perna igualzinho ele fazia antes de pular,
quando estava feliz e jogava bola normalmente.
E que de vez em quando ficava triste.
E hoje devia estar muito triste.
Ou aquela palavra que quer dizer exatamente o que ele estava sentindo.
Porque tinha pulado de uma altura muito larga.
E tinha até dado um sorriso antes de pular,
porque tinha um sorriso gostoso de olhar.
Pulou sorrindo, como um segredo travesso.
Olhou pra cima enquanto caía.
Caiu muito rápido.
Fez até barulho no vento.
E foi tão rápido que nem barulho fez.
Pulou.
E fez um tremendo barulho no chão.
É que devia ter alguma coisa que ele queria dizer, acho.
A porta fica aberta um tempão.
Todos olhando pra um ponto fixo.
Alguma coisa é esperada.
Ali, todos estão esperando alguma coisa.
Um deles pega uma chave e me olha que nem pai.
— Quer dizer alguma coisa? É melhor dizer agora.
No fim do corredor tem uma sala onde os funcionários fazem festa de vez em quando.
E algumas vezes é onde os meninos apanham.
Ou recebem amor.
Ou então onde os meninos maiores fazem festa com os funcionários.
Eu sei de quem já foi lá.
Não é bom.
E mesmo que hoje não tivesse chuva,
que o céu fosse bom pra ver as pernas dentro dos calções,
ainda assim acho que não vejo mais graça no futebol.
Porque todos queriam uma resposta.
— Mas como é que eu vou saber, se eu não sou como ele?

