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Inventário de um homem morto

Inventário de um homem morto

O inventário começou numa terça-feira, às nove horas e dezessete minutos da manhã. Anoto a precisão porque meu pai teria apreciado: era um homem de detalhes, de gavetas etiquetadas e recibos arquivados por data, valor e categoria de despesa. Morreu como viveu — metodicamente, entre as três e as quatro da madrugada, deixando até mesmo seus últimos suspiros organizados em intervalos regulares, segundo a enfermeira. Dividi a casa em quadrantes, como ele me ensinou a fazer com problemas complexos. Comecei pelo escritório, planilha em mãos: “Inventário de Bens de Joaquim Ferreira Santos, falecido em 07/10/2024, para fins de partilha entre herdeiros.”

Os primeiros itens fluíram com facilidade burocrática. Caneta Mont Blanc, modelo Meisterstück 149, ano 1992, estado de conservação: excelente. Coleção completa da Revista Veja, 1968-2024, organizada cronologicamente. Máquina de escrever Olivetti Lettera 32, tecla R emperrada. Cada objeto recebia seu número, sua descrição, sua estimativa de valor. Meu pai teria orgulho da metodologia.

Foi no quadrante B-2, segunda gaveta, que o inventário revelou sua primeira impossibilidade.

Entre a calculadora HP-12C (1987, presente de formatura) e o peso de papel de ágata (origem desconhecida, valor sentimental), encontrei um envelope pardo lacrado. Dentro, uma única fotografia: eu mesmo, aos sete anos, no velório de alguém que não reconheço. Mas o que me fez pausar a catalogação não foi a foto em si — foi a data revelada no verso, na caligrafia inconfundível de meu pai: “Velório de Miguel, 15/03/2021”. Miguel é meu nome. Em 15/03/2021, eu estava vivo, organizando a mudança para o apartamento onde agora faço este inventário. Ainda assim, ali estava eu, inequivocamente eu, dentro de um caixão aberto, usando meu terno azul-marinho, o mesmo que visto agora.

Cataloguei a foto como item 73. Anomalia fotográfica, talvez. Erro de data. Meu pai, nos últimos anos, confundia datas. Continuei.

Item 74: álbum com recortes de jornal. Abro ao acaso: meu obituário, publicado no Estadão de 16/03/2021. “Falece aos 41 anos o arquivista Miguel Ferreira Santos, deixando pai e irmã.” A irmã que nunca tive. O jornal está amarelado como jornais de três anos ficam. Toco o papel. Real. Áspero. Com cheiro de papel velho guardado.

Item 75: molho de chaves. Reconheço todas menos uma — bronze, antiga, com a inscrição “M.F.S. — Perpétuo”.

Item 76 ao 97: livros diversos, principalmente sobre tanatologia e estados liminares de consciência. Marginália em todos, na minha letra, com observações que não me lembro de ter escrito: “o morto não sabe que morreu”, “a persistência acontece através da rotina”, “inventariar é existir”.

O escritório estava completo. Mudei para o quarto principal, meu antigo quarto de infância, preservado como museu doméstico. Na cômoda, entre medalhas escolares e porta-retratos, um frasco de remédios com meu nome. Rivotril, 2mg. Data de validade: 04/2021. Prescrição do Dr. Eduardo Vasconcelos para “transtorno dissociativo grave com episódios de despersonalização.”

Não tomo Rivotril. Nunca tomei.

A certidão estava na gaveta dos documentos importantes, entre o título de eleitor e a carteira de vacinação: “Certidão de Óbito — Miguel Ferreira Santos, filho de Joaquim Ferreira Santos”. Causa mortis: parada cardiorrespiratória. Data: 15/03/2021, às 03h47min. Local: este endereço. Médico responsável: Dr. Eduardo Vasconcelos, CRM 45.789 — o mesmo que assinou a certidão de meu pai, três anos depois. Minhas mãos não tremeram; isso me surpreendeu mais que o documento. Continuei o inventário, agora compreendendo sua verdadeira natureza. Não estava catalogando os bens de meu pai morto. Meu pai estava catalogando os meus. A planilha em minha mesa tinha outra caligrafia. Era a dele. O morto inventariando o vivo. Ou seria o contrário?

Retornei ao escritório. A planilha estava diferente. Minha caligrafia meticulosa havia sido substituída pela de meu pai: “Inventário de Bens de Miguel Ferreira Santos, falecido em 15/03/2021, para fins de compreensão póstuma.” Os itens que cataloguei estavam lá, mas com descrições alteradas. A caneta Mont Blanc: “nunca usada após a morte do filho.” O peso de papel: “única herança que Miguel me deixou.”

Encontrei meu pai na cozinha, preparando café. Morto há seis dias, preparando café.

“Está quase pronto”, ele disse, sem se virar. “O inventário.”

“De quem?”, perguntei.

“Sempre foi difícil aceitar”, ele respondeu, servindo duas xícaras. “Você continua organizando, catalogando, existindo através dos objetos. Três anos, Miguel. Três anos fazendo inventário.”

Olhei a xícara. Estava vazia, mas senti o calor em minhas mãos.

“Quantas vezes já fizemos isso?”

“Você pergunta sempre. E eu sempre respondo: até você conseguir catalogar o item final.”

“Que item?”

Ele apontou para o espelho da sala. Não havia reflexo algum. Ou havia dois.

O inventário continua, preciso e metódico. Item 247: um espelho que não reflete. Item 248: um relógio que marca sempre 03h47min. Item 249: uma xícara de café perpetuamente quente sobre a mesa, intocada há três anos. Item 250: um homem que insiste em existir. Anoto tudo na planilha, com a caligrafia que não reconheço mais como minha. Pela janela, vejo meu pai regar as plantas do jardim — mortas desde março de 2021, mas ele não parece notar. Ou talvez seja eu quem não nota. O inventário está quase completo. Falta apenas um item, mas ainda não sei como me catalogar.

Na planilha, com letra trêmula, escrevo: “Item 251: Miguel Ferreira Santos. Estado: indefinido. Valor: ”

A caneta para. Sempre para aqui.

Amanhã, terça-feira, o inventário recomeçará às nove horas e dezessete minutos da manhã. Como sempre. Meu pai terá morrido há seis dias ou três anos, dependendo de qual de nós segura a caneta. E eu continuarei procurando a palavra que complete o último item, a palavra que me permita, finalmente, ser arquivado.

Até lá, inventario. Logo, existo.

Ou seria o contrário?

1º Bula Prêmio de Conto
Rafael Luiz Reinehr

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