Do lado de fora da porta, dois pares de Havaianas gastas. Um deles, tamanho 37–38, branco com tiras amarelas, e o outro infantil, de um verde vivo.
Da porta para dentro, um pano de chão e outros dois pares de Havaianas: um adulto e um infantil, ambos cor-de-rosa.
Rente à porta, um vaso com uma comigo-ninguém-pode e uma espada-de-são-jorge.
No primeiro cômodo, uma mesa de fórmica azul (lascada nos cantos), duas cadeiras do mesmo material e uma banqueta desmontável de madeira.
Sobre a mesa, um caminho de crochê vermelho que faz cama a uma pata de louça, que aparenta ter sido verde.
Uma mesinha de madeira clara servindo de aparador a uma televisão, ligada em volume muito alto, e um cartão de ônibus.
Na pia, nenhuma louça suja. Sobre o escorredor, dois pratos Duralex, talheres com cabo branco, um escorredor de macarrão, um copo plástico que leva desenhos da Moranguinho.
No batente da janela, dois vasinhos de violeta.
Acomodadas na prateleira, sob a pia, uma panela de alumínio areada, uma frigideira de ferro, uma escumadeira, uma colher de pau e dois panos de prato com bicos de crochê de cores variadas.
Um fogão de quatro bocas e, sobre uma delas, uma panela de pressão ainda quente que, pelo aroma no ar, contém feijão recém-cozido.
Uma geladeira azul, com os pés que começam a enferrujar, abastecida de um litro de leite pela metade, dois ovos, uma tigela com arroz, alguns quiabos e miúdos de galinha.
Na porta da geladeira, a folhinha do ano, exibindo dezembro. Sobre a geladeira, uma toalhinha de pano branca que acomoda uma imagem de Santa Rita de Cássia.
No outro cômodo: uma cama de solteiro de madeira escura, arrumada com lençóis limpos, estampados com flores amarelas; um berço também arrumado com lençóis limpos, talvez nunca usados, e um cobertor de bebê, ainda na embalagem das Casas Pernambucanas; uma cama de casal, com cabeceira tubular bege, desarrumada, e duas grandes poças que parecem ser de sangue sobre o travesseiro.
Na mesinha de cabeceira branca, junto à cama, um rádio, uma caneta Bic e um caderno aberto numa página em que se lê, em letra cursiva mal desenhada: “Eu tenho fé”. No fundo da gaveta, uma Bíblia e diversas cartas, guardadas em seus envelopes.
Um guarda-roupa de duas portas, uma delas empenada. Dentro dele, prateleiras com roupas dobradas com capricho. A mais baixa servindo a roupas de menina: duas calças legging, um short, três camisetas, duas calcinhas de algodão, um moletom e um pijama; as prateleiras mais altas servem a roupas de mulher: uma calça jeans, uma saia branca, quatro camisetas e uma blusa de gola alta, uma cestinha de vime com roupas íntimas e uma camisola de algodão. Nos cabides, um vestido curto com estampas geométricas, um vestido longo preto e um casaco de lã acinzentado.
Uma cortina de chita, que serve a separar a cama de um pequeno banheiro, contendo um vaso sanitário, um chuveiro elétrico, uma pia branca e, sobre ela, um copo plástico com duas escovas e uma pasta de dentes, um frasco de Leite de Rosas e outro de água de colônia Toque de Amor, da Avon, quase vazio.
Uma janela quebrada e estilhaços de vidro esparramados pelo chão.
Um espelho pequeno, emoldurado em azul, que carrega escrito, em letras feitas com batom vermelho, a palavra “vadia”.
Um tapetinho de chão, que pode ter sido branco, bege ou rosado, manchado de um sangue que fez rastro a partir da cama de casal.
No vão, entre a cortina e a parede, uma menina de talvez quatro ou cinco anos, silente, com o rosto molhado de lágrimas e olhos grandes, cor de mel.
Tudo deixado em seu exato lugar, exceto pela menina, embrulhada em abraço junto à imagem de Santa Rita de Cássia, ambas carregadas para fora da casa, trancada com duas voltas pela chave, presa a um chaveiro de madeira com um entalhe em que se pode ler: “para quem tem fé, a vida nunca tem fim”.

