Se consideras intrigante o caso da biston betulária, então talvez valha a pena aproveitar tua visita à França e conhecer a maison du papillon tapissier, nos arredores de Nîmes.
Da biston betulária, pequena mariposa inglesa, basta lembrar-te daquela velha história que nos contava o professor de biologia na escola: as mariposas brancas encontradas nas aldeias da Inglaterra e que, com a revolução industrial, tornaram-se totalmente pretas. Os operários das minas de carvão e das fábricas de Manchester acreditavam que as mariposas ficaram, como eles, sujas de fuligem. Respiravam, voavam, defumavam-se, viviam e morriam — como eles — na onipresente fumaça das chaminés. Eram mariposas operárias.
Foi preciso que um darwinista explicasse o real fenômeno. Nada de mariposas operárias, nada de asas sujas de fuligem. A variação branca, antes majoritária, deu lugar à negra, resultante de uma mutação recessiva que, com a mudança do ambiente, tornou-se a mais vantajosa para a sobrevivência da espécie. Assim, a biston betulária transformou-se, para o deleite dos professores de biologia, num exemplo célebre da seleção natural.
Talvez te intrigue conhecer outros exemplos mais antigos do mesmo fenômeno. Se é o caso, tira um ou dois dias de tuas férias, vai a Nîmes e visita a maison du papillon tapissier.
Claro, a velha cidade tem outros atrativos mais conhecidos. Poderias ir à arena, à torre, aos jardins, ou escapulir para a costa e aproveitar o mar do sul francês; todos esses lugares são belíssimos e estão muito bem indicados nos folhetos das agências turísticas. A maison, infelizmente, não goza do mesmo privilégio. Não deves encontrá-la em nenhuma propaganda da cidade, não é parte de nenhum tour agendado, e nenhum guia registrado saberá te indicar onde ela está, qual sua história, por que visitá-la. Quando a visitei, fi-lo por puro acaso. Portanto, lê com carinho minhas dicas, segue-as cuidadosamente, porque são raras e difíceis de conseguir. Estou certo de que agradarão a teu coração aventureiro, sempre tão afeito a fugir das trilhas convencionais e conhecer os mistérios do mundo.
Ao nordeste de Nîmes, há a pequena comuna de Poulx e, acima dela, corre o rio Gardon. Em Poulx, pega a Rute de la Baume para o norte, na direção do grande parque, e encontrarás, não muito depois da comuna, um conjunto de casinhas assobradadas cuja cor, amarelo-ocre, é inconfundível. Deixa o carro por ali mesmo e sobe, a pé, pelo amplo descampado atrás das casinhas. Saindo das casas, tome sempre uma linha reta e ascendente. É importante que não te desvies nem te permitas ziguezaguear — traça uma linha reta no rumo das partes altas e segue. Atenta-te para a aproximação inesperada de um homem. Ele virá sabe-se lá de onde, mas virá. É o velho turco chamado Asil, o único guia, em toda França, oficialmente habilitado para acompanhar turistas a esse passeio. Por três euros, ele te levará até a maison. Por quatro, fará o tour detalhado. Paga cinco euros para que possas trazer contigo um souvenir.
A maison é uma pequena casa de campo nas franjas dum bosque. Perceberás muito rapidamente o quanto é antiga. A parte interessante, porém, não se encontra à vista, mas abaixo do chão, numa espécie de sótão ou ateliê subterrâneo. O velho Asil te conduzirá por uma escadinha até o ateliê escuro, abafado, coberto por todos os lados de tapetes, cortinas, canapés, divãs, almofadas, sofás, cadeiras acolchoadas. Belíssimas obras de arte de outros tempos, em especial os tapetes — centenas deles, incontáveis, estendidos uns sobre os outros, afixados ao teto aos moldes de cortinas, alguns enrolados, outros colados às paredes. Ele explicará que ali trabalharam mestres tapeceiros e estofadores desde a época dos romanos, num fio ininterrupto de gerações dedicadas ao mesmo ofício.
Os primeiros foram, ao que tudo indica, estrangeiros do oriente que se instalaram na região e serviram aos governantes latinos de Nîmes, então conhecida como Nemausis. Durante parte da Idade Média, a casa funcionou como uma guilda produtora de cadeiras estofadas e tapetes luxuosos para o clero, tão famosa quanto as casas de Gobelins, Aubusson, Beauvais e Savonnerie. Mas então algo aconteceu; um escândalo, um crime desonroso, uma queda em desgraça, jamais saberemos. A casa foi abandonada, todas aquelas peças, amontoadas no pequeno sótão, trancadas e esquecidas. Séculos se passaram. Muitos séculos. O ateliê permaneceu impenetrável, apodrecendo como o interior de uma fruta, fermentando a vida que ali sobrevivera nos vãos e nos cantos escuros. Um pequeno e obscuro habitat se constituiu, formado exclusivamente de insetos: traças, aranhas, formigas, percevejos, ácaros, mariposas, borboletas.
Asil te mostrará principalmente estas, as famosas papillons de tapisserie. Séculos e séculos voando, pousando, comendo e amando, vivendo e morrendo sobre peças clássicas de tapeçaria, lindos e antigos tapetes decorados com arabescos complexos, cenas de caçadas, casamentos, coroações de reis das mais esquecidas dinastias, danças e castelos, banquetes para mil convidados, deuses e deusas nuas recostadas em canapés, antigos símbolos de mil formas, grandes barbas de reis e maravilhosos vestidos de rainhas; séculos ininterruptos de seleção natural moldando finamente as tristes borboletas, pacientemente tecendo seus genes, escolhendo e apurando, até que em suas asas aparecessem impressas as imagens de seu habitat. É um espetáculo admirá-las, obras de arte vivas!
Mariposas cujas asas são os olhos de Artemísia, ou os seios de Afrodite, ou os pés de Ceres, borboletas que voam estampando complicados motivos florais, como se um paciente tapeceiro houvesse tecido nelas os arabescos de um mural vivo. Nas asas de uma, um pedaço da cena em que cães de caça atacam o pescoço de uma corça. Nas de outra, o rosto alvo da noiva que mostra os seios ao amante. Retalhos das cenas dos tapetes repetidas dezenas, centenas de vezes, em diferentes tamanhos, como uma imagem num espelho estilhaçado.
E quando um grupo delas voa de um tapete a outro, é como se transportassem a imagem pelo ar, num movimento mágico; a caçada ao cervo dourado plaina no escuro e pousa sobre o banho da donzela, a boca de Príapo, enegrecida pelo tempo, mas ainda assanhada, abaixa-se para beijar os pés nus de Nossa Senhora. Todas as histórias contadas nas peças foram transmitidas para os corpos daquelas criaturas e agora se recontam, misturando-se, ofuscando-se, num caleidoscópio profundo e antigo.
Havia, ainda me recordo, uma gigantesca mariposa cujas asas abertas exibiam o rosto magnífico de Carlos Magno, com sua coroa dourada, as barbas grisalhas, os olhos cansados de orgias e guerras. Ela ficava imóvel, pousada sobre a imagem do rei dos francos, no exato lugar onde o artista teceu o rosto, sobrepondo-o. Ao redor dela, suas crias, menores e mais claras, exibiam dezenas de pequenas cópias do mesmo rosto. Quando crescessem, talvez formassem a imagem de uma hidra cujas cabeças fossem todas do nobre Carlos. Mas a seleção natural não podia acompanhar a velocidade do envelhecimento — e o Carlos das asas das mariposas era mais vivo, mais belo e colorido, que aquele no tapete. Certamente as próximas gerações corrigirão essa diferença, imprimindo ao pigmento o ocre duro, o amarelo morto, o azul adoentado, a palheta esfumaçada do passar do tempo.
Observa sobre as mesas do escritório dos mestres tapeceiros, os ácaros que, de tanto viverem entre pregos enferrujados e agulhas de marfim, agora têm a forma exata desses objetos e se deslocam de um lado para outro com perninhas articuladas. E os longos insetos que, como o bicho-pau das florestas, são cópias exatas de pinças, martelos, pés de cadeira, braços de sofá. Sobre os livros, vê as traças que por tantos séculos comeram incontáveis páginas e agora trazem letras estampadas em suas carapaças. Às vezes, andando ao acaso pelas superfícies, formam palavras, até frases inteiras; que, afirma convicto o velho Asil, são sempre em latim.
Mais deslumbrantes, e sombrias, são as grandes aranhas que, para enganar vítimas tão obcecadas pela arte, tecem em suas teias motivos geométricos inspirados nos tapetes. Algumas poucas, nos cantos mais escondidos, conseguem até tecer tapetes de verdade, suas teias evoluídas em lã, seus milhares de olhinhos compenetrados em imitar cada padrão que os antigos tapeceiros criaram e que o tempo fixou em seus genes aracnídeos. Tapetes verdadeiros, detalhados e grossos, integralmente constituídos pelas patas de aranhas irracionais. São, porém, obras de menor valor, porque são apenas cópias — as aranhas se mostraram incapazes de criar — com a única e medonha diferença de que os rostos das imagens possuem centenas de olhos: rainhas e reis, cães e deuses, todos têm suas cabeças deformadas e uma infinidade de olhinhos negros.
Ao final do passeio poderás, caso os cinco euros estejam no bolso do velho Asil, levar uma dessas maravilhosas criaturas contigo como souvenir, embora já aviso que não duram muito fora de seu habitat. Morrem rapidamente. Sei disso porque minha bela borboleta, cujas asas eram decoradas com uma dança de bruxas ao redor da fogueira, e que trouxe comigo da França, morreu em minhas mãos, triste e trêmula, saudosa da velha tapeçaria com quem compartilhava a alma.

