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Legenda para um mapa que não existe

Legenda para um mapa que não existe

1.Escala
1:1 — cada centímetro é um dia desde que a cidade afundou em sílica e silêncio. Júlia aprendeu com o pai, topógrafo de botas encharcadas, que a escala é um pacto: quanto mais se diminui a terra, mais a gente precisa aumentar a delicadeza. Depois que ele não voltou do trabalho na barragem, Júlia começou a medir as manhãs com uma régua de escola. O traço tremia, mas ficava.

2.Projeção
Lambert da Saudade, cônica conforme do que se perdeu. Toda projeção distorce algo. Nesta, os corpos se alargam nos aniversários e encolhem nos noticiários. Júlia redesenha a antiga praça onde havia três bancos e um coreto, mas agora o coreto é um negativo, um halo branco. O software recusava; ela imprimiu assim mesmo.

3.Norte
O norte gira. A agulha, imantada de lembrança, insiste em apontar para a casa da avó que não existe. No mapa oficial, o norte é um triângulo preto. No de Júlia, é um pássaro de papel preso por um alfinete, sempre quase saindo do papel. Os colegas no departamento dizem que isso não é padrão. Júlia responde que padrões não procuram gente desaparecida.

4.Toponímia
Os nomes voltam antes das coisas. Uma senhora bate à porta do setor de Restituições — nome recente, criado para aplacar culpas — e pede que escrevam “Rua do Pau-d’arco” onde agora só há uma estrada provisória. “É que eu ainda chamo”, ela diz. Júlia inclui, em tinta azul, entre parênteses: (nome em uso, ausência em campo). Mais tarde, outra mulher pergunta se é possível registrar o “Beco do Padeiro que cantava”. Júlia não sabe como anotar o canto; decide desenhar uma clave de sol minúscula junto da palavra Beco. O chefe, ao revisar, passa marca-texto amarelo sobre a chave. O canto continua lá, invisível a olho burocrático.

5.Curvas de nível
As curvas, outrora linhas do relevo, agora repetem batimentos. Júlia traça curvas como quem ausculta: 80, 100, 120 — e para no topo de um morro que, dizem, rangia de madrugada. As linhas se aproximam, apertadas como dentes. “Estão muito emotivas”, diz um técnico velho, com pena sincera. Júlia pensa que existem montanhas que só quem subiu a pé entende. Deixa as linhas mais suaves, mas não dóceis.

6.Hidrografia
Rios, em azul. Há o rio que existe e o que devia existir. Júlia desenha o segundo com linhas tracejadas, como se fosse uma estrada d’água, um caminho para a sede. À noite, sonha com peixes de pó nadando para trás, contra a corrente de um tempo desalinhado. Na manhã seguinte, chega uma caixa anônima ao departamento: dentro, peixes de papel dobrados, todos com o mesmo carimbo: Rio do que virá.

7.Sombreamento
Sombra sempre foi técnica: ajuda a dar volume. Agora é necessária como luto. Júlia escurece o lado oeste da igreja levada, a fachada que dava para os enterros. Alguém protesta: “Não sombreie demais, pesa”. Ela não diz, mas pensa: o peso é uma forma de verdade. A luz também pesa, quando vem de jornal.

8.Margem
Num canto do papel, as margens guardam ITENS: legenda, data, carimbo. Júlia acrescenta O que se ouve, como se fosse um item técnico. Ali anota sons registrados em campo: o trovão tardio que veio semanas depois; o ruído metálico que não era rio; a risada de uma criança que ninguém viu de onde; o silêncio — especialmente o silêncio, com as coordenadas exatas de onde ele doía mais.

9.Povoamento
Pontos pretos: casas. Pequenos quadrados: escolas. Estrelas: capelas. Júlia introduz um símbolo novo, sem avisar: um pequeno coração cinza, quase invisível, para marcar lugares onde alguém espera. Espalha-os como migalhas pelo papel: em pontes improvisadas, debaixo de um pé de manga sobrevivente, no ponto de ônibus que resistiu com um banco só. Os corações formam constelações discretas, que só se enxergam se inclinar o rosto.

10.Limite
O mapa tem moldura. A cidade tinha cercas. Júlia desenha a linha do município e percebe que ela não contém mais. A lama transbordou, o medo também. No relatório, pedem que recalcule os limites administrativos. Júlia obedece e, junto da nova linha, escreve em letra menor: Limite do que se admite.

11.Dobradiça
Mapas grandes exigem dobras. Em cada dobra se perdem milímetros — as ruas se encontram onde não deveriam, e os rios atravessam pontes inexistentes. Júlia dobra e desdobra como quem reza. Descobre que na dobra central, que passa exatamente por cima do antigo campo de futebol, se forma um vinco espesso, como cicatriz de papel. Passa o dedo ali e sente a cidade levantando uma pele.

12.Rosa-dos-ventos
Em lugar do usual florão geométrico, Júlia desenha uma rosa mesmo, com quatro pétalas e espinhos mínimos apontando N, S, L, O. Na pétala do sul, escreve: para onde iam os caminhões. Na do leste: de onde voltavam vazios. Um estagiário olha e sorri, tímido: “Ficou bonito”. Júlia não responde; pensa no pai dizendo que beleza também é dado, só que precisa de outra régua.

13.Notas do cartógrafo
(1) A senhorinha do lenço verde canta baixinho antes de falar o nome. (2) O rapaz que perdeu o cachorro aponta para “nada” com precisão de quem decorou todas as árvores. (3) O ribeirão antigo ainda tem nome nos lábios das crianças, embora nunca o tenham visto. (4) Uma mulher pede para incluir o banco da praça. Explico que bancos não costumam entrar. Ela responde: “Mas foi ali que meu marido se despediu do cigarro”. Incluo. Banco é toponímia de amor; nunca vi em manual, mas faz sentido.
No fim, Júlia acrescenta: (5) Se eu colocar o nome do meu pai em uma rua, isso será erro?

14.Campo
Saem em equipe para verificar pontos. A cidade não é mais cidade: é uma coleção de objetos teimosos. O pé de manga virou referência, um santo do nada. Um menino guia o grupo por um atalho e mostra, orgulhoso, um desenho no chão: “Aqui era a escola. Eu sei porque o chão ainda sabe fazer o barulho do recreio”. Todos se calam. O técnico velho liga o gravador. O chão, claro, não fala. Mas é impossível não ouvi-lo.

15.Revisão
De volta ao departamento, o chefe ajeita os óculos: “Muita interferência poética”, diz. Risca a rosa com espinhos, elimina os corações cinza, afina as sombras. Júlia acompanha, muda. O mapa fica profissional, cabível, protocolar. Na hora de imprimir, o sistema trava. A impressora recusa papéis onde o mundo não cabe. Júlia salva o arquivo com outro nome: cidade_versao_respiravel_final_final2.

16.Impressão
Na madrugada, sozinha, acende a luz do setor. Imprime uma prova em papel comum, outra em vegetal, e sobrepõe como acetato sobre fotografia antiga. As linhas se procuram. Em alguns pontos, coincidem como se tivessem saudade. Em outros, brigam. O vegetal franze, quebradiço, como se também tivesse memória.

17.Entrega
No auditório da prefeitura provisória, Júlia apresenta o mapa. As cadeiras rangem, o microfone falha, uma criança chora. O coordenador fala antes dela, palavras certas, verbos no futuro, metas. Júlia coloca o mapa sobre um cavalete. Em vez de explicar técnicas, faz o que não devia: convida quem está ali a vir colar seus próprios nomes na legenda, com canetas adesivas. Uma senhora escreve Canto do Padeiro. O menino do atalho desenha um gol de trave imaginária. Um homem escreve Rua do Pai da Júlia e olha para ela com respeito de desconhecido. Júlia respira. O chefe torce os lábios. A cidade acrescenta seus próprios símbolos.

18.Interferência
No dia seguinte, aparecem no departamento. Um fiscal de outra cidade, com colete impecável, aponta: “Mapa é documento técnico, não confessionário”. Leva um exemplar sob o braço, como quem retira um quadro da parede. Júlia volta à mesa, tira do bolso os peixes de papel, espalha sobre o teclado. Um por um, anota os nomes que o fiscal não quis ler. Trabalha em silêncio, como o pai fazia quando a topografia era vento e formigueiro.

19.Relevo
À tardinha, sobe o morro onde as curvas de nível se abraçam. A cidade, lá de cima, é uma mancha de poeira que o sol recolhe com cuidado. Júlia abre o vegetal sobre os joelhos, alinhando o mapa à paisagem. Pela primeira vez desde o dia da barragem, chove fino, quase desculpa. As gotas fazem bolhas no impossível rio tracejado, e por um segundo ridiculamente humano, ela acredita que desenhar também é permissão.

20.Depósito
O setor exige arquivo-mestre, backup, cópia fora do site. Júlia grava três. O primeiro conforme a revisão, o segundo como saiu da sala com adesivos da comunidade, o terceiro com tudo o que a legislação não prevê: a chave do beco, a rosa com espinhos, os corações cinza, os nomes que ainda não existem, o banco de despedidas. Este último ela salva no disco com o nome Mapa do que não se deixa apagar e escreve a senha num papel que dobra em quatro.

21.Encosta
No sonho daquela noite, o pai volta com a fita métrica no ombro e uma bota molhada. Senta na cama, como antes, e diz: “A gente mede para aproximar, não para reduzir”. Depois, coloca na mão dela um objeto pequeno, sem forma: o peso específico do cuidado. Júlia acorda com o quarto ainda soando metal e passarinhos. Pega a régua da escola. Mede. O dia é maior por dentro.

22.Circulação
Sem autorização, o mapa com adesivos aparece nas paredes de dois mercados, na capela ainda em pé, num bar que vende fiado a céu aberto. Crianças apontam para símbolos que inventaram — uma estrela para o campo de futebol desenhado a giz, um peixe azul onde a água às vezes se reúne, um quadrado para a casa que vai voltar. O mapa vira rumor. Júlia ouve e não assina.

23.Restituição
Um mês depois, chegam homens com máquinas, não as que derrubam, as que nivelam. Um engenheiro de fala firme pede o mapa técnico e ignora o outro. Ainda assim, manda abrir um canal onde Júlia deixara o tracejado do rio. “Não custa tentar”, diz. A água, que sempre tenta, passa. Ali, fina e translúcida como desculpa que aprende a ser gesto.

24.Legenda
No canto inferior, onde antes ficava o carimbo, Júlia escreve, em letra miúda que não passa em scanner:

Símbolos

— ● casas que ficaram

— ☐ escolas que ainda cabem nas mochilas

— ✝ lugares onde se aprende o contrário da morte

— ♡ lugares onde alguém espera

— ♩ ruas que guardam um canto

— ~~~ rio traçado a lápis enquanto não chega

— ⊘ o que não aceita ser quantificado

— ☼ o que renasce sem pedir licença

25.Última revisão
A cidade, de algum modo, reaparece. Não a mesma — nunca é. Mas o vento volta com cheiro de manga, e no fim da tarde ouve-se um barulho de metal que, se a gente força o ouvido, se parece com riso. Júlia guarda o mapa desenhado em papel vegetal dentro de uma pasta comum. Coloca por cima a régua pequena da escola. Ela sabe que é um mau jeito de conservar um documento, mas é como se precisasse que o mapa tocasse algo que já a tocou. Fecha a gaveta. A luz do fim do expediente atravessa as persianas e rabisca linhas claras sobre as mãos. Curvas de nível de sol.

26.Impressão final
Não há. Mapas, quando dizem alguma coisa de verdade, não terminam. A legenda fica aberta, com um espaço em branco para quem ainda quiser escrever. Em baixo, Júlia deixa só uma instrução discreta:
Preencha com o que não coube, assine com o que você lembra.

E então dobra devagar, como quem guarda um lenço. O mundo, imperfeitamente, acompanha.

1º Bula Prêmio de Conto
Valdinei Aparecido de Avila e Silva

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