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Maria

Maria

Sei que odeia adjetivos; acho até que são tabu para você. Que melhor seria descrever o jeito de falar e agir de Maria, o modo de arrumar os cabelos, os olhos, os lábios, a maquiagem delicada, os braços, a curva sutil onde um anjo, de brincadeira, inventou um umbigo. (Veja, não sou boa em descrições; se eu tentasse, você teria uma ideia errada de Maria. Imagine, anjo e umbigo. Pior, um umbigo.)

Pense em seu próprio conceito de lindeza e pode confiar em mim: Maria era ainda mais que isso. Lindíssima, belíssima, enlouquecedora, eu dizia, lentamente, deslizando a língua nos dentes. O riso tinha um som extraordinário, líquido, lindo. Aceite os adjetivos, aproximação muito tímida do que era Maria, pode crer em mim.

Não adianta fotografia. Tão linda, quando a flagrava olhando pela janela. Parecia incapaz de ficar quieta na frente de uma objetiva. Eu olhava no visor: ela, belíssima. Ao disparar a foto, não era Maria quem se via na imagem.

Ou a mão ia ajeitar os cabelos e o braço bloqueava o campo de visão na fotografia, ou era o rosto que se virava porque alguém gritava sempre um nome parecido com o dela. Imagens embaçadas, tortas, posições estranhas; eram assim as fotos de Maria.

Em nosso primeiro encontro romântico, ela morava com os pais. Estavam em viagem. Na sala, nem lembro que música nos acompanhava; a escolha foi dela. Eu descobri a pele muito mais tenra do que parecia através do decote; ela fechava os olhos e parecia uma sereia num encantamento; a voz me entrava pelos ouvidos, a pequena língua rosada dela me dava calafrios, eu morria de calor.

Foi quando ouvi um assovio pela janela, e Maria me explicou, enquanto se vestia às pressas, que era assim que os pais dela avisavam que estavam chegando. Eu me levantei, assustada, para buscar minhas roupas e acertei com a testa o delicado narizinho dela.

Dois dias depois, quando quis apresentá-la a alguns amigos da ginástica, uma dessas exóticas coisas ortopédicas dividia a face dela em duas. Por sorte, o nariz não chegou a quebrar, apenas uma luxação. Eu perguntei a eles, discretamente, quando ela se despediu:

— Não é linda?

Eles disseram que sim. Mas, pela voz deles, não concordavam.

Nos fins de semana, Maria não gostava de frequentar a praia onde sempre encontrava minha turma; preferia um trecho isolado. Eu, às vezes, usava o copo de cerveja para jogar em suas costas — belíssimas — a água gelada do mar. Ela fingia brigar comigo. Houve o dia em que, para fazer as pazes em nossa guerra falsa, comprei uma porção de camarão para nós duas.

Por justiça, anoto que rejeitou o palitinho onde, espetada, uma fila de camarõezinhos tostados aguardava por ela. Mas comi com um gosto tão evidente que Maria, solidária, me roubou a última meia dúzia da fileira. Eu ainda ria da gulodice dela quando vi um casal na areia. Identifiquei os ombros impressionantes do Gustavo e, em um biquíni minúsculo, a provável namorada dele.

Gustavo era um querido. Colega de turma na faculdade; foi quem me salvou de um coma alcoólico no verão de 2008; esteve comigo no velório de meu pai e no churrasco de comemoração pelo nascimento de minha única sobrinha. Quando me viu na praia, fez algum comentário para a moça com quem andava. Apresentava-me, com certeza, e sorriu. Ao olhar para Maria, sentada sobre a esteira, poucos passos atrás de mim, pareceu fazer uma careta, mas retomou o sorriso, abriu os braços, me deu um beijo e me apresentou à amiga.

Alegre, virei-me para apresentar Maria. E vi.

Nem eu nem ela sabíamos da alergia a camarão. O rosto dela era uma lua rosada e disforme; o queixo se ligava à parte inferior do pescoço por um papo galináceo ligeiramente encaroçado. Maria, tão belíssima, estava um Quasímodo. Conversamos, e ela, horrenda, nem parecia notar a transformação. Animada, um doce.

— A gente pensava em almoçar por aqui pela praia, que tal? — convidei.

Gustavo, sentado com o corpo ligeiramente de lado, como se tentasse evitar a visão de Maria, recusou:

— Não vai dar. Combinamos de almoçar com a mãe dela.

A menção da mãe fez a garota virar o rosto, surpresa. Ele se levantou decidido, sacudiu a areia do calção e mandou, de longe, um beijo em direção a Maria:

— Adorei encontrar vocês! Afinal, a famosa Maria, hein?

Ela riu, o rosto com tons violáceos.

Lembro da paixão pelas minhas bonecas, pelas amiguinhas, na escola, na universidade; mas nenhuma me despertava o fetichismo que Maria acendeu em mim. Eu me sentia compelida a imitar a forma de vestir, de andar, de falar, de gesticular de Maria. Era elegante, tinha charme. Não era à toa que trabalhava em uma galeria de arte.

Ainda que fosse difícil comparar Maria às obras que eu encontrava ali. Arte contemporânea, imagine.

Belo e Beleza, esse tipo de coisa estava fora de questão. Mas até nisso Maria era uma graça. Respondia com carícias aos meus comentários de ignorante, à minha perplexidade. Didática, tolerante, tentava me mostrar a diferença entre as obras que víamos e o que eu esperaria encontrar como “arte” na parede, no chão ou, vá lá, no teto.

E não só comigo ela tinha paciência. Um dia antes de nossa comemoração por dois anos juntas, levei dois amigos do escritório para satisfazer a curiosidade deles. Nosso trabalho, em uma agência de turismo, era preencher formulários e converter às fantasias dos outros em valores e roteiros, que o salário mixuruca mantinha à distância da nossa vida real.

Depois do encontro com Gustavo, eu tinha passado por outras duas ou três experiências frustrantes; fiquei supersticiosa, até com medo de expor Maria. Lindíssima, quando escapava dos acidentes ou das perturbações inexplicáveis da vida dela. Coisas bobas, como uma crise de coluna que a deixou curva como um bambu missô de barriguinha protuberante, no dia da festa de fim de ano na galeria de arte. Inexplicáveis como espinhas de tamanho surpreendente e cor exótica que brotavam raramente, em lugares bizarros do rosto lindo, em momentos inconvenientes.

Depois de uns três meses sem incidentes, achei que não havia risco. Ela nos recebeu em plena montagem da exposição. Seus cabelos estavam grudados por uma espécie de gosma amarelada, cor de catarro; o lindo narizinho estava riscado com algo que parecia graxa; e, entre os dentes, quando sorria, viam-se pontinhos verdes, talvez da salada do almoço.

Maria cuidava das últimas obras ainda em instalação: aglomerados de ímãs, líquidos de cor suspeita em potes de vidro emoldurados, objetos em suspensão. Dunga, acho, o nome do artista. Ela nos explicou detalhadamente as ideias que sustentavam cada obra. Estava magnífica, não fosse pelo cabelo grudento, o rosto sujo e a folhinha enxerida no incisivo direito superior.

Meus amigos adoraram, elogiaram a capacidade de chamar atenção para a beleza daquilo tudo, mesmo os líquidos suspeitos. Quando perguntei se não a achavam lindíssima, mudaram de assunto. Perguntaram, rindo, se eu não tinha ciúme do tal Dunga, por quem ela parecia apaixonada.

— É o trabalho dela, seus babacas.

Eu tinha, sim, ciúme de Maria.

Saímos para jantar, só eu e ela, belíssima, nem sinal da gosma no cabelo. Na presença de Maria, do brilho e da suavidade da pele de Maria, dos olhos cintilantes de Maria, dos dentes perfeitos dela, perto das cores de Maria, os amigos daquela tarde eram todos fumaça, quase nada, sombras fantasmagóricas. Fantasmas que, de surpresa, apareceram no restaurante.

Pelo menos iriam conhecer, sem distrações, o fascínio de Maria. Mas a iluminação do lugar passou a mostrar uma camuflagem sombria sobre o rosto antes belíssimo. As luzes já não abrasavam as feições perfeitas. Apontavam protuberâncias onde deviam existir curvas suaves; escureciam vales, esculpiam deformações. Ao se virar para cumprimentar meus amigos, Maria pareceu ter um pequeno bigode, os olhos fundos, a testa envelhecida.

Não sei se aquela noite quebrou algum inexplicável encantamento por minha Bela, mas, a partir dali, também as luzes do dia, das tardes, reflexos das janelas, estranhos gestos e poses flagrados por mim passaram a violar a beleza indescritível de Maria.

Eu a encontrava linda e, meia hora depois, via, de relance, uma careta desagradável onde ela queria mostrar um rosto amoroso. Às vezes, enxergava espinhas onde ela nem tinha. Os gestos, a voz, de vez em quando falhavam.

Embora me ofendesse, sem sentir, com palavras na hora errada e gestos com intenção de carícia que só me causavam aflição, Maria seguia amorosa, leve, delicada. Nem percebeu minha mudança de atitude. Quem sabe nunca reparou no meu comportamento apaixonado.

Ela nunca se interessou em ter fotografias minhas, nunca me mandou passar batom, alisar a blusa, ajeitar o cabelo, aprumar a coluna. Talvez não soubesse me descrever, nem dizer a cor de meus olhos.

Ah, os olhos de Maria, de cor indefinida, sempre maravilhosos, mesmo nas piores transfigurações. O olhar arredio dela.

— De que cor são meus olhos?

— Abre.

— Não, Maria, diz qual é a cor dos meus olhos.

— Ora, abre que eu te digo. Que boba.

Ela devia estar linda. Aqueles lábios que eu não podia ver de olhos fechados, as palavras suaves, tranquilas, carinhosas. Belíssima, eu adivinhava, cerrando ainda mais os olhos, reprimindo lágrimas minúsculas que brotaram nem sei por quê.

Eu poderia descrever por horas as nuances da voz de Maria e, ainda assim, você, por maior que fosse sua imaginação, não teria uma ideia longínqua de como era bonita.

Lindíssima.

1º Bula Prêmio de Conto
Sergio Leo de Almeida Pereira

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