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Meu bebê

Meu bebê

— Mãe.

— Diga, meu bebê.

— Queria conversar com a senhora…

— Pode falar.

— É que… eu… a senhora pode parar um pouco?

— Filho, a mamãe tá ouvindo. A Neide deu o cano hoje, não posso atrasar o almoço. Você tem aula, eu tenho pilates… mas pode falar. Tô só picando cebola, eu ouço. Tenho que manter o controle ou tudo desanda.

— É sobre o Vagner.

— Sim? O que tem o papai?

— Meu pai não tá mais aqui. Vagner é seu namorado.

— Vai começar com essa história de novo? Se seu pai não tá, o Vagner tá! Mais um motivo pra chamá-lo de pai.

— Então…

— O quê?

— Queria falar… tem uma coisa… queria te contar. É que… não sei. Presta atenção, mãe, por favor!

— Tá bom, filho. Eu paro o que tô fazendo. Pronto, o que te aflige?

— É que ele, não sei… tem uma coisa errada.

— Você sempre implica com o Vagner. Ele me ajuda muito. Colabora com as contas da casa, sabia? Hoje em dia, não é barato manter um filho. Nem o pilates que você vai me fazer perder com essa bobagem.

— Mas eu não disse nada ainda. Como sabe que é bobagem?

— Olha aqui, meu bebê, nessa casa só tem amor e compreensão por você. Alguma vez nesses quinze anos lhe faltou algo? Nem quando fiquei viúva te privei dos luxos. Escola, natação, professor particular, seu quartinho sempre arrumado, meias e cuecas lavadas. Faltou algo?

— Não tô reclamando disso. É outra coisa.

— Filho, tudo muda. Esse ciúme seu do Vagner não pode continuar. Precisa aceitar que somos uma família agora, e que ele, goste você ou não, é seu pai.

— Não tenho mais ciúme. Já tive… eu sei. Mas não é isso, agora.

— Tá bom, filho. A mamãe tá aqui pra tudo. Quando quiser se abrir, pode falar. Agora, vou voltar, porque as cebolas não se cortam sozinhas, tá?

— O Vagner enfiou a mão dentro do meu shorts.

— Como?!

— O Vagner…

— EU ENTENDI! Quando foi isso?

— Não teve uma vez só. Foram várias. Às vezes, quando a gente tá sozinho, ele enfia a mão por dentro do meu shorts, atrás, sabe? Fica mexendo.

— Mexendo nas suas nádegas?

— No meio. Tipo… no cu. Ele aperta o dedo. Enfia. E tapa minha boca com a outra mão.

— E o que você fez? Que dia foi isso?

— Eu não lembro o dia certo. Não foi uma vez só, mãe. Ontem, por exemplo. E ele me beijou. De língua. Eu só queria que a senhora soubesse.

— Você é homossexual, não é?

— O que isso tem a ver? E eu nem sei se é assim que me defino… talvez eu seja gay, além de outras coisas. E daí?

— Então qual é o drama? Não é que ele tenha feito algo que você não faça com outros.

— Eu nunca fiz isso com ninguém…

— Talvez você tenha provocado, de certa forma.

— Sério isso, mãe?

— E por que não gritou? Por que não me chamou? Por que não disse pra ele parar?

— Não sei. Eu disse “para, por favor”, ontem, por exemplo. Mas ele continuou… eu não entendia o que fazer. Fiquei parado, torcendo pra acabar logo.

— Quantas vezes? Duas? Três?

— Mais…

— Quantas?

— Umas quinze, acho. Acontece quando a senhora sai. Quando vai tomar chá com a Laura ou pro Paulistano com a Letícia. Ele sabe quando vai demorar.

— Tá…

— Eu não queria te deixar chateada…

— Péra. Me deixa um pouco quieta.

— Vai falar com ele, mãe?

— Luiz, você não é mais nenhum bebê! Poderia ter falado quando aconteceu e se resolvido com ele. Me poupava dessa amolação infernal. Você é homem, ele é homem! Se não disse nada, é porque não quis.

— Não é isso…

— Escuta, Luiz Eduardo! O que vai acontecer quando você fizer dezoito anos?

— Não sei… fico maior de idade?

— Não quer fazer faculdade no Canadá?

— Sim… é uma vontade.

— Pois bem. Você vai, e vai cuidar de sua vida. Vai ter seus amores, amigos, seus prazeres e suas frustrações. E o que acontece comigo?

— A senhora pode me visitar, né?

— Eu fico aqui… sozinha. Você vai embora, e eu? Um apartamento enorme, cinco quartos, pra quem? Pra mim? Sem você, sem seu pai, sem o Vagner?

— Sei lá, mãe… Só achei que devia te contar.

— Devia? Tá contado. Logo faz dezesseis anos, já é praticamente um homem. Vai morar com sua avó, em Campinas.

— Como assim?

— Escutou bem. Vai morar com dona Clara, sua avó. E não teremos mais este tipo de problema em casa. Depois, você se manda pra porra do Canadá, e tá tudo certo.

— Mãe… eu não vou pra Campinas.

— Vai sim! Não vou ficar aqui sozinha enquanto você tá na vidona mansa no Canadá, enchendo o rabo de maconha e álcool.

— Mas mãe…

— É isso. Conversa encerrada. Agora me deixa cortar essas merdas de cebola porque aquela filha da puta da Neide resolveu ficar doente justo hoje, pra foder minha vida!
— Porra…

— Olha a boca, moleque. Ah, e o almoço estará na mesa à uma em ponto. Avisa seu pai!

1º Bula Prêmio de Conto
Alexandre Venancio

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