Refém da objetividade jornalística? Tchê, olha, isso é patético. Tu não perde uma oportunidade de manifestar erudição enciclopédica. Esses dias nosso bróder lá do grupo 50+ do zap disse que estava lendo a biografia do Trotski escrita pelo Leminski. O cara salivava de orgulho por ter achado num sebo um exemplar de Vida, edição da Sulina, páginas já carcomidas, e citava uma passagem: “se você quiser entender a Rússia, comece lendo Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski”. Porque o velho Fiódor tinha quatro filhos. O primeiro era um bêbado impulsivo, regido pelas urgências da carne. O segundo foi estudar na Europa Ocidental e voltou questionando a viabilidade da ideia de Deus, apavorado com um mundo onde tudo fosse permitido. O terceiro era um monge cagalhão, que não aguentava o cheiro de um cadáver santo apodrecendo. E o último, um bastardo parcialmente renegado, mantido em condição servil. Quando o cara ainda digitava, para arrematar que a família era uma metonímia da Rússia, tu atropelou, para mostrar intimidade com Dmitri, Ivan, Aliócha e Smerdiakov. Não enxerguei disposição tua para ajudar na charla. Tu só queria mesmo era mostrar que já tinha lido a porra daquele calhamaço de mais mil páginas. Gasta uma enormidade de energia para parecer mais interessante do que realmente é e agora mete essa? “Não fabulo porque sou refém da objetividade jornalística”. Ah, não fode!
João “Carpinteiro” Silva não nasceu lutador; nasceu consertando o que o mundo deixava torto. Na oficina do pai, aprendeu que cada fibra tem um nervo secreto e que respeito se mede em milímetros. Ainda menino, ouvia o ranger da mesa onde a mãe empilhava boletos, enquanto o pai, mãos calejadas e sorriso de serragem, repetia: a dignidade de uma casa se ouve primeiro no chão firme. A lição ficou. Aos vinte e três anos, quando o aluguel ameaçou escorrer por baixo da porta, João percebeu que precisava sustentar algo mais que tábuas.
O chamado veio numa esquina, ao apagar, com um cruzado instintivo, o agiota que cobrava o vizinho. Um promotor de lutas, sentado no balcão, viu o soco e ofereceu-lhe vaga no ringue municipal. João hesitou — o pai sempre advertira que “pregos não nascem em punhos” —, mas o assoalho mole de casa falou mais alto. No ginásio conheceu Zé Ferrolho, treinador de voz rouca e mãos de fabricar breu. “Boxe é carpintaria às avessas”, repetia. “Aqui a gente tira lasca do outro para revelar a peça que somos.” João aceitou.
Fazia frio numa quarta-feira dessas. Mas eu vi: tu saiu de casa, precariamente agasalhado de propósito, só para externar gauchice, e foi se enfurnar num clube de leitura. A Veronica Stigger ia papear sobre Anna Kariênina, tu saiu levando a edição de dois quilos da Companhia das Letras, teu braço parecia formigar com aquele trambolho a tiracolo. Sorte que ela se atrapalha com o relógio e teve de atropelar a leitura de algumas passagens ao finalzinho, porque senão tu teria te pavoneado mais ainda. Pero deu tempo de, pressionando o queixo com o polegar e o indicador, soltar, todo pimpão: “Anna passou a demandar emocionalmente de Vrónski”. Que ego assombroso, meu Deus! Tchê, se eu soltasse “demandar emocionalmente” em público, sem ter culhão para escrever um parágrafo inventado sequer, seria o próximo a saltar debaixo de um trem.
Vieram madrugadas de treino. Ele serrava o ar, pregava jabs, lixava esquivas, até que o corpo virasse bancada. Os nós dos dedos abriam-se e fechavam-se como veios tormentosos. Entre uma série e outra, Zé contava histórias de campeões esquecidos — ruínas onde sobrava humildade e faltava teto. João entendeu o aviso: vencer não bastava; era preciso permanecer de pé depois.
Quando anunciaram a disputa pelo cinturão regional, Zé confirmou: “Chegou tua hora”. O adversário seria Tonhão “Trator”, doze nocautes e nenhuma dúvida. A cidade tratou João como madeira verde: bonita, porém frágil. Ele então rabiscou atrás de uma passagem de ônibus: “Madeira boa não canta; sustenta.” Guardou o papel no bolso, como prece.
Cara, eu sei, teus amigos de infância fizeram uma baita cagada em 2018. Aquele entardecer de 28 de outubro foi um dos mais tenebrosos de nossas vidas. Não dá conforto saber que tinha gente na rua, tomando uma birita, na maior chalaça, enquanto o Alexandre Frota rezava e cantava o hino com a camisa da CBF. Teu amigo é um cuzão mesmo, um baita bosta. Mas olha só: o cara sempre achou que fazer faculdade dava muito trampo, hoje se vira com Uber. Aí tu fica anos sem ver o sujeito e, no churrasco de reencontro, todo afetado sob o fedor de fumaça, elogia a “brilhante alternância de vozes em Vargas Llosa”. Ok, o Llosa envergou para a direita, morreu reaça e citar o Gabo soaria mais ultrajante. Mas teu amigo jamais ia capturar essas sutilezas ideológicas, talvez se interessasse mais pela fofoca de um ter comido a mina do outro. Por isso não aguentou teu pedantismo, tchê. Dias depois, quando ele encontrou tua ex-namorada da escola em Porto Alegre, falou que tu está insuportável, fala difícil sobre coisas fáceis. Tu merece muito que ele maldiga tua ilustração capenga! Sobretudo porque agora fica com essa frescura de que nunca teve a “alma hidratada para a ficção”. Não sei como tu foi pai, índio velho. Essa conversinha resseca úteros, isso sim.
Chegou o sábado, agosto espesso e ginásio lotado. Antes de entrar, João apertou o amuleto costurado no roupão: um prego enferrujado do pai, lembrança de que toda estrutura precisa de um ponto firme. Soou o gongo e o Trator avançou, embreagem solta, martelando o ar. João recuou, sentiu as cordas cederem e flexionou os joelhos na altura exata em que costumava curvar-se sobre o torno. Sobreviveu ao primeiro assalto segurando a “obra” com mãos trêmulas, mas inteiras.
No segundo round apareceu a fissura. Tonhão repetia combinações, convencido de que força bruta resolve tudo. João, já menos tenso, cortou o espaço com dois cruzados no fígado, ouvindo o som oco de madeira. O campeão riu, testa sangrando, certo de que a marreta vence o cinzel. A cada troca, o corpo de João tremia como ponte estreita, mas ele encarou. Nas arquibancadas, alguém gritou que ele estava morto; ele sorriu por dentro, lembrando da mãe contando moedas na soleira.
No intervalo, Zé limpou o corte no supercílio: “Pressão certa, hora certa. Termina o serviço”, sussurrou. João fechou os olhos e viu o pai entalhando letra por letra no letreiro da oficina. Não era pressa; era precisão. Respirou fundo, cheirou o pano saturado de gelo e sangue e voltou ao ringue com a determinação de quem levanta viga em tempestade.
Falando em preguiça para estudar, bueno, a história que tu conta sobre a tua faculdade vagabunda de Letras EaD é o mais perto de ficção que eu já ouvi de ti. Tu veio dizer que fez isso por amor aos livros, para “organizar o diálogo das tuas leituras”. Caralho, isso é de uma desfaçatez! Seria mais verossímil dizer que estava espantando o tédio do envelhecimento, algo assim. Porque a rigor tu estava era borrado de medo de figurar no próximo passaralho de redação. O jornalismo, esse que te fez refém da objetividade, está morrendo. Tu passou a fase mais produtiva da tua vida massageando peito de jornal moribundo, temendo demissão. Quis ser professor porque se sente muito velho para construir um plano B que não seja procurar outro emprego com salário hediondo. Foi por um movimento meramente defensivo que tu passou 120 sábados vendo aula gravada de teoria literária, de literatura africana, de poética, mentiu em videoconferência que estava relendo Clarice quando na verdade estava lendo. Para quê? Para quê?!
Terceiro round. Tonhão investiu como demolidora, sem freio, mas João já lia a cadência: direto, cruzado, gancho — sempre igual. Esperou a terceira marretada, fincou os pés e, num só gesto, soltou o uppercut que atravessou o queixo do adversário. O estalo foi seco, tábuas quebrando. O Trator desligou, caindo de costas, braços abertos como portas soltas em vendaval. O árbitro contou enquanto torcedores prendiam o fôlego; quando declarou “dez”, o ginásio mergulhou num silêncio de oficina fechada.
João ergueu as luvas, mas não vibrou. O coração latejava entre lembranças: a mesa rangente, o prego-amuleto, o pai sorrindo com lascas no cabelo. Sabia que, em casa, a mãe ouvia a transmissão no rádio antigo. No vestiário perguntaram o que mudara. Ele respondeu: “Agora o chão lá de casa parou de gritar.”
Na segunda-feira, abriu a oficina e pendurou o cinturão ao lado das ferramentas. Cada cliente comentou o brilho; ele ria. João entendeu que toda vitória é matéria-prima de algo maior. O ringue deu-lhe madeira nova, mas o lar continuará sendo seu projeto mais ambicioso. Enquanto existir tábua torta, haverá punho disposto. Porque às vezes um único golpe bem dado — golpe de luz — é suficiente para reconstruir tudo.
Tu és também um bicho chato afu. Quando um cupincha teu, metido a leitor, vem com aquela do Cortázar — “o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto ganha por nocaute” —, tu vira os olho, te emputece. Tu repugna a autoestima de quem manifesta sagacidade com lugar-comum e um sorriso amarelo. Mas eu te conheço, tchê. Isso não é só idiossincrasia. Tu és um frouxo, um bundão! Tuas antipatias literárias só camuflam a tua retumbante covardia. Aí tu lança mão do teu lugar-comum de estimação, também de um argentino, o Borges, aquele da quarta capa da História Universal da Infâmia: “Ler, entretanto, é uma atividade posterior à de escrever: mais resignada, mais civil, mais intelectual”. Ah, não atocha. Isso de ficar só lendo, inchando, sem jogar nadinha para fora, está te corroendo. Se nenhuma providência algorítmica descer dos céus do Silício, vais à lona sem ter dado um puto soco.

