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O andarilho cego

O andarilho cego

Já havia milhares de anos que Édipo perambulava no escuro. Seu castigo era vagar pelas Trevas sem que a morte jamais viesse em seu encalço.

Poderia ser pior. Édipo poderia ter o fígado devorado diariamente por uma águia. Poderia ser forçado a empurrar uma pedra morro acima, só para vê-la rolar morro abaixo. E de novo. E de novo.

Como parte do castigo, Édipo via lampejos da última forma em que pousara os olhos: Jocasta, sua esposa, sua mãe. Morta, nua, pendurada na forca. Queimando os olhos de Édipo com uma luz irreal.

Foi com os broches que prendiam o vestido dela que ele perfurou os próprios olhos. A visão foi inevitável: naquele intervalo ínfimo, o vestido deslizou até o chão.

Inevitável? Édipo poderia ter arrancado os broches de olhos fechados… Em vez disso, manteve os olhos abertos. Mesmo esmagado pela culpa após cometer o mais infame dos crimes, fecundar as entranhas de onde viera, ele não renunciou àquelas últimas gotas de luz.

Ao longo dos séculos, novos impérios, religiões e inventos estranhos mudaram a face do mundo. Desse mosaico, Édipo recolhia ecos esparsos. Em seu exílio nas Trevas, aprendeu à distância línguas que sequer existiam quando ele era jovem, rei e a vida brilhava sob o Sol. Ao cruzar com peregrinos, abria a concha do ouvido como o sedento que colhe a água com a concha das mãos. Foi adquirindo assim seu conhecimento fragmentado dos últimos milênios.

Andava sempre só, abrindo caminho com o bastão. Não sentia fome nem sede. Solidão, sim, mas nunca o bastante para deixar de evitar a Humanidade.

Certa noite, Édipo dormiu e sonhou. No sonho ele rejuvenescia e se dividia em dois, um mais jovem do que o outro, e cada um sugava um dos seios de Jocasta, que oferecia, plácida, o seio esquerdo ao filho e o direito ao esposo.

No dia seguinte, ao recordar o sonho, Édipo chorou. Estava sentado em uma pedra, descansando os pés (a dor nos pés persegue Édipo desde sempre; no idioma dos helenos, seu nome significa O de pés inchados). Sentia frio. O terreno tornara-se íngreme; o ar, rarefeito. Pressentia a presença de montanhas.

O senhor precisa de ajuda?

Ele se assustou. A voz estava perto. Uma voz de mulher.

Ela insistiu: O senhor está bem?

Édipo enxugou as lágrimas. Já conhecia tantas línguas que nem distinguia mais uma da outra, mas sempre compreendia o que ouvia. Resmungou de volta: Estou bem, obrigado.

Parecia que a mulher se sentara em outra pedra, talvez para contemplar a paisagem. E como ela continuava ali, ele perguntou: Onde estou?

O senhor está na Suíça, respondeu a mulher.

Permaneceram em silêncio, cada um em sua pedra. E a vergonha foi se apoderando de Édipo. Não aquela de sempre, decorrente de sua mácula. Era uma vergonha do corpo.

Édipo vestia trapos que mal cobriam seu corpo esquelético, a pele repleta de escoriações. Mas os velhos e os cegos não deveriam ter direito à vaidade, e ninguém era mais velho e mais cego do que Édipo. Por que então aquele pudor?

Perdoe-me, senhora, se a visão do meu corpo a ofende, ele disse. Sou apenas um andarilho cego, banido da terra onde vivi. Logo prosseguirei viagem.

Não há nada de ofensivo a respeito do senhor, ela respondeu.

Engano seu, senhora, pensou Édipo: a minha própria existência é ofensiva. Mas se sentia repulsa à visão do corpo dele, a mulher dissimulava bem.

Ela também era estrangeira. Tossiu, contou que vinha de uma terra a um oceano de distância, na direção do poente. Uma terra chamada Brasil.

Brasil…, murmurou Édipo, buscando alguma lembrança daquela terra. Nada.

Meu nome é Édipo, ele disse. E o seu?

Meu nome é Capitolina, ela disse. Mas me conhecem por Capitu.

Capitu…, murmurou Édipo, a brisa levando as sílabas embora.

Perguntou: Por que você deixou o Brasil, Capitu?

Ela fez uma pausa. Quando respondeu, havia uma ponta de amargura na superfície de sua voz: Porque o meu esposo foi consumido pelo ciúme.

Édipo conhecia o ciúme de nome, mas jamais sentira as suas garras. Na juventude, ele era dominado pela confiança cega dos que se creem predestinados à grandeza. A consciência daquela cegueira antiga agora feria-o feito um punhal.

Perdido em pensamentos, Édipo mal ouvia Capitu narrar sua vida na Suíça, a solidão interrompida pelas visitas do filho. Coitado, o pai o despreza. Mesmo assim, ela tomava o cuidado de elogiar o esposo diante do rapaz. Para não contaminá-lo com sua mágoa.

Filho?, Édipo perguntou.

Capitu tossiu várias vezes. Carregava alguma doença nos pulmões?

Sim, ela respondeu, o nome dele é Ezequiel. É bonito, mas não tem noiva, só quer saber de estudo; estuda arqueologia aqui na Suíça. Seu sonho é viajar à Grécia, ao Egito, à Palestina, e escavar as ruínas de antigas civilizações.

Édipo guardava na cabeça, no topo de seu corpo arruinado, a memória de sua antiga civilização. Pensou em sua prole. Etéocles e Polinices, dois perversos, guerrearam entre si, irmão contra irmão, em uma disputa pelo trono de Tebas. O consolo de Édipo foram Antígona e Ismene. Caridosas, suas filhas-irmãs permaneceram ao seu lado, guiando-lhe os passos e provendo-lhe o alimento, pois naquela época o corpo de Édipo ainda reclamava água e comida.

Agora estavam todos mortos, há muitas gerações. Segundo a lenda, o próprio Édipo morrera em Colono, no tempo em que Teseu era o senhor de Atenas. O que ninguém sabia é que sua falsa morte havia sido um ardil das Erínias. Deusas pavorosas, virgens invencíveis. Onividentes.

Édipo tentou recordar o rosto de Antígona. Ela ainda era quase uma criança quando ele se exilou nas Trevas, mas sua beleza já resplandecia. O filho de Capitu, Ezequiel, o jovem arqueólogo, cairia de amores se, ao escavar o crânio de Édipo, encontrasse ali dentro a imagem imperecível de Antígona.

Imperecível? A memória é um emaranhado de túneis escuros, cobertos por um limo imemorial. Aquele invento recente e assombroso chamado “fotografia” de nada valeria nesse labirinto escorregadio que cada ser humano carrega na caverna de seu crânio.

Édipo não recordava o rosto de Antígona. Apenas Jocasta ardia atrás de seus olhos.

Pela segunda vez no dia ele chorou. E contou então sua história a Capitu. A profecia do oráculo e a infância em Corinto. A morte de Laio e a vitória sobre a esfinge, às portas de Tebas. O casamento com Jocasta e o nascimento de seus filhos. A peste terrível. As previsões de Tirésias. Édipo confessou até seu último crime, o de manter os olhos abertos enquanto desnudava a mãe morta. E contou como a nudez de Jocasta ainda queimava-lhe os olhos, milhares de anos depois.

Capitu conhecia a história de Édipo, todos conhecem a história de Édipo. Mesmo assim, ouviu em silêncio. E havia detalhes que ela desconhecia. A última visão. A maldição que impedia Édipo de morrer.

Ao ser desterrado, o rei cego sabia que nunca teria seu cadáver coberto pela terra de Tebas: a lei de sua cidade negava sepultura aos parricidas. Mas o que Édipo só entenderia mais tarde é que na verdade terra alguma jamais cobriria o seu corpo maldito.

Inúmeras vezes ele havia cavado covas e se coberto com a terra, invocando Tânatos, o deus do sono sem fim. Em vão. As Onividentes, filhas do solo e das sombras impenetráveis, sabotavam cada tentativa, soprando a terra de cima do ancião. Vergavam também o metal e apagavam o fogo com que ele feria a própria carne, na ânsia de aniquilar sua existência.

Capitu, compadecida, quis distrair o andarilho. Falou da adolescência com Bentinho, seu vizinho na rua de Matacavalos, no Rio de Janeiro. O primeiro beijo, no dia em que ele penteou os cabelos dela. A promessa de dona Glória e as intervenções de José Dias. Escobar, o colega de seminário, tão bonito e atlético. O casamento com Bentinho, o nascimento de Ezequiel. A morte de Escobar. Os ciúmes de Bentinho.

Édipo foi assaltado por uma dúvida: Mas você…? Hesitou. Adivinhando a pergunta, Capitu respondeu: O que eu fiz ou deixei de fazer não é da conta do senhor nem de ninguém. Nem sequer do meu esposo. Ninguém.

Era brava, essa Capitu. A amargura agora vinha à tona como uma rocha escarpada, açoitada pelas ondas. Os olhos dela: será que são azuis? Tingidos de um cinza-violáceo?

As cores haviam se esfumado da memória de Édipo, mas ele ainda via poesia em seus nomes. E intuía que os olhos de Capitu tinham algo de mar bravio. Olhos de ressaca…

O que o senhor disse?!

Na-nada, gaguejou Édipo.

Capitu ficou em silêncio; Édipo a imaginava lançando contra ele uns olhos inquietos. Sentiu-se em perigo, mas que perigo poderia ameaçar um homem amaldiçoado?

Édipo, olhe para mim, disse Capitu.

Não posso.

Olhe para mim, ela insistiu.

Não posso! Sou cego!

Não tenha medo, Édipo, disse Capitu. Abra os olhos e confie em mim.

A voz estava próxima; ele sentia sua respiração. E sentiu, com espanto, quando ela pousou as palmas cálidas em suas têmporas. Atônito, Édipo se espantou ainda mais ao perceber uma força estranha puxando seus olhos na direção de Capitu.

Que feitiçaria era aquela? Que fluido enérgico e misterioso? As mãos de Capitu seguravam, delicadas, a cabeça de Édipo. Desnorteado, o ancião resistia ao impulso de se agarrar à cabeça dela, como o náufrago que abraça a rocha para não ser tragado pelo mar…

Respingos borrifaram o seu rosto. Eram… ondas?! As ondas quebrando na praia, salgando seus lábios. Não mais o sal de suas lágrimas: era sal marinho, era a brisa marinha que Édipo sentia enquanto adentrava os olhos de Capitu.

Ali, entre as montanhas, o andarilho cego ouvia o rugido do mar. As lágrimas rolaram de novo; agora eram lágrimas de alegria, maravilhamento, ou aquelas que o vento arranca dos olhos, na praia… Avançando em direção às ondas, Édipo recordava uma manhã remota, o primeiro banho de mar das meninas, os gritinhos de Antígona e Ismene se embolando nas águas com um misto de medo e euforia… E de repente o rei viu suas adoradas filhas, agarradas às pernas do pai. E ao erguer os olhos ele viu sua rainha, e os olhos de Jocasta sorriram de volta, e toda ela refulgia e sorria sob o Sol.

E no último instante antes que a grande onda destruísse o seu corpo, Édipo deixou-se engolfar pela felicidade solar daquela manhã em família.

1º Bula Prêmio de Conto
Bruno Milanez Leuzinger

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