Quem me dera, ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente
Índios – Legião Urbana
I – A casa
Na rua do Bar da Gorda havia uma casa.
Pequenota. Erguida sobre cepos grossos. Um azul descascado, como pele morta, cobria-lhe as tábuas tortas. Beirais podres abrigavam morcegos. Os vidros das janelas, estilhaçados. No jardim, matagal rebelde. Uma araucária fingia ser árvore. Rangia como osso quebrado. Suas raízes brotavam da terra como dedos nodosos e trincavam as lajotas do caminho.
Suja, violada. À noite, passos apressados cruzando a rua. De dia, olhos que evitavam a fachada. Os bêbados gostavam, lugar para mijar, beber, foder. A vizinhança espiava. Uns sonhavam em atear fogo, outros corriam à boca miúda: “Morreu gente aí.” E cabeças confirmavam com um aceno lento.
Certo dia, cedo, o cheiro de terra úmida se misturou com fumaça. A lâmina da roçadeira zuniu, tosando o capim alto. Janelas se abriram. Os olhos curiosos viram homens entrando com martelos, vassouras, raiva. Raspavam, arrancavam, batiam. A casa gemia.
Jogaram na caçamba da C10, fedendo a esterco fresco, toda a história: mato, trapo, rato, camisinha, fezes, garrafa quebrada. Empapuçada, partiu queimando óleo. Ficou quase limpa. Quase. Antes de sair, um homem de tez queimada de sol, cabelo crespo e branco como uma nuvem, deixou um punhado de sal grosso e arruda atrás da porta, junto das cicatrizes, poças e lascas. Mesmo assim, as sombras ainda se arrastavam pelo assoalho.
II — O casal
Chegaram num Gol velho.
Sacolas, malas. Entraram testando as tábuas carcomidas da escada. O cheiro do ralo no ar.
De longe, pareciam bonitos.
Ele: ossos largos, mãos calejadas cravadas nos bolsos. Olhos injetados. Um dedo a menos — perdido para a marcenaria e o álcool. Falava pouco. Às vezes chorava, com um caderno amarrotado aberto no colo.
Ela: ruiva, anca larga, ombros cansados. Comprimidos no bolso como amuletos; olheiras fundas, arroxeadas. “Bonita demais”, disse a sogra. “Muito olhar de cobiça por aí”, repetiu ele. Ela apertava o braço com força, olhando para o chão. Os livros da escola empoeirados, a carteira de trabalho jogada na gaveta. “Pra quê?” — dizia ele. Lágrima suspensa no canto do olho azul. Varre, limpa, abre as pernas, some. Mas, quando sozinha, o celular gemia baixinho.
Na igreja, o pastor pousou a mão no ventre dela. O anelão de ouro gelado encostou na carne quente e ela deu um pulinho. “Filhos… são recompensa divina” — a língua no beiço, o olho perdido no céu da ruiva. O lenço encardido enxugou o suor da testa. Ela baixou os olhos, bochechas afogueadas. O marido cerrou os punhos nos bolsos e uma veia do pescoço saltou azulada. Rabiscou, depois: “Somos todos iguais perto do pecado.”
À noite, puxou-a pelo braço. No chão mesmo. Ela nem piscava, contava as manchas no teto enquanto ele derretia por cima como gelo na chapa quente. Dois, três solavancos. Fim. Rolou para o lado em silêncio. Não olhou para o rosto dela. A voz do pastor ecoou. A veia latejou no pescoço. O olhar fixo na barriga lisa. Levantou.
Sentado no vaso, escrevia com a ponta da língua para fora, como uma criança. Gotas brilhantes caíram de seu queixo e borraram a tinta. Amassou a página.
III — Rotina
Ele sumia cedo, tragado pela névoa. Voltava tarde da noite cheirando a cachaça e serragem.
Ela ficava. Sorvia mate diante do reflexo. Por instantes, estranhava a mulher do outro lado. Encarava. Mas logo lembrava dos afazeres e largava a outra face. O pano torcido pingando no balde carregado de Pinho Sol. O cheiro de lustra-móveis colado nos móveis. A máquina de lavar batendo sem parar.
Ao estender roupa, sentia os guris espinhentos da rua roendo seu corpo. Rondavam — cães magros farejando carne. Entre um jogo e outro de taco, os olhos no shortinho, no sutiã vermelho traído pela camiseta, nas coxas brancas. Cada grampo caído atraía os olhos famintos para ela. Erguia a gola e mordia, escondendo o que desejavam.
À noite, o banho dos garotos era mais demorado.
IV — O dia
Domingo.
Sem brisa. Calor grudando na pele. Ele saiu de chuteira. Ela, na varanda, passava o dedo na tela do celular — sem som, só a carne contra carne. Risinho. Lábio inferior preso no canino branco. Deu um nó na camiseta; pintas à mostra. Na rua, o jogo corria; olhos vidrados na bola, e no umbiguinho.
O rebatedor pegou na veia.
Poc! Um tiro alto.
Os garotos correram, gritando. Tacos batendo. O corredor largou os chinelos, pés queimando no asfalto, pulmões ardendo. A bolinha morreu no fim da quadra. Quando voltou, a rua vazia. Olhares desviados. Risadas secas e palavrões ainda no ar.
Jogados no canteiro. Lagartos ao sol.
“Lá vem ele…” — pescoços girando feito suricatos curiosos.
V — O autóctone
Chamavam de Bugre, Índio, Bicho. Ou só o Mudo.
A rua, seu palco. Bamboleava abanando para plateias imaginárias. Sorriso de quatro dentes, cabelo tigelinha negro, liso, a plumagem do anu-preto. O corpo sapudo, robusto, acobreado e sem pelos cheirava a sabonete barato. Corriam boatos de que tinha casa, uma madrinha. Aparecia sempre asseado. No mais, calção, chinelos e o torso nu. Sem cueca.
A mão curta e firme como alicate sempre pronta a cumprimentar. Varria a rua míope à procura de um aceno, de um olhar empático. Quando recebia, êxtase. Bêbado sorridente.
Às vezes, parava diante das vitrines, tentando adivinhar para que serviam as coisas. Inclinava a cabeça, olhos tentando decifrar bocas. Da sua, escapavam sons infantis. Homens cuspiam insultos. Mulheres fechavam a cara. Meninos jogavam pedras. Ele, cenho franzido. Coçava a cabeça. Ombros para o alto. Ria.
VI — Um ato de amor
O Bar da Gorda era seu destino.
Parou ao ver ela com olhos matreiros na tela. A bocarra se abriu. Ela percebeu o olhar. Sorriu.
Foi o bastante.
Entrou no jardim. Exibido.
A mão dela tremeu no ar, o dedo em riste.
Ele avançou. Mastigava palavras sem nexo, espuma nos cantos da boca.
O estômago dela revirou. Entrou e trancou a porta.
Ele não entendeu.
Ela espiou. Ele arreganhou o sorriso falho. Dedos transando no espaço. Sons sem sentido.
Uma mão febril na casca áspera da araucária, a outra afrouxou o cordão do calção — nu.
A rua morta. Bar às moscas. Sesta. Garotos em choque.
Cuspiu na destra livre e iniciou o vai e vem com tesão, gemendo.
Ela não se moveu, os olhos cravados nele. Deslizou a palma úmida entre as pernas. Dentes mordiscando o lábio inferior. Os dedos agitados, a tilintar o pequeno sino durante a reza. Queimava.
O manotaço seguia estalando no visco. Ofegante, sorriu ao ver os olhos atentos dela. As unhas cravadas no tronco. Um espasmo, urro, o branco do olho — e silêncio.
Na casca, um fio branco escorria.
VII — Flagrante
Um “Se fudeu!” cortou o ar. O garoto correu o dedão na jugular num gesto teatral, sorriso de hiena.
Na entrada, o marido cheirava a álcool e raiva. No gozo do Mudo, enxergou o pastor. O braço despencou bruto.
Zás — paft! Estalo de osso, o corpo vergou e caiu.
Ela saiu. Porta batendo.
— “Não!” — Tremia. O botão do shorts solto. Ele viu.
O homem rosnou: “Entra!”.
Ela obedeceu. A respiração presa, a boca entreaberta.
O Mudo levantou. Sangue escorrendo da boca. Músculos tensos, respiração curta. Olhar firme. Não ia recuar. Os garotos gritaram “Peleia!” e o Mudo só via bocas abrindo como peixes fora d’água.
Rapidamente a vizinhança se aglomerou como urubus. Os olhos brilhando de desejo. Os dedos inquisidores apontando para o espetáculo — “Que nojo!”.
Os dois homens se embolaram.
A plateia: risos, gritos, sinal da cruz.
Socos, socos, socos. Ossos partindo como galhos secos.
Rosnados. Sangue e suor empapando o gramado. Dois cães de rua brigando pela fêmea no cio. Ninguém vencia. A rua assistia.
Giroflex vermelho buzinando.
“Os pés-de-porco!”
O Uno Mille subiu na calçada derrapando.
VIII — Amansamento
Os milicos saltaram, cacetete à mão. Dentes trincados. O suor manchando as bordas do boné verde-oliva.
Não titubearam. Cacetadas nas costelas, cabeça e joelhos. Gritos de dor. Os dois gladiadores apartaram. Olhos surpresos.
O Mudo fez da araucária sua muralha. O marido correu quando a ruivinha abriu a porta.
Seguiram em direção à árvore.
— Bugre sujo! — a voz do milico ressoou no público.
Encolhido contra a árvore, soluçava. Mistura de sangue e lágrimas correndo como afluentes vermelhos pelo corpo nu.
Os cacetetes continuaram a avançar. Cercaram os lados. Impossível fugir.
Saiu do abrigo como se nascesse da árvore. O soluço o sacudia. O olhar duro, fixo.
Agachou. As duas mãos de encontro à terra. Atacou.
Ripada seca — Poc!
O golpe no maxilar foi preciso.
Tombou. Inerte.
Silêncio.
Arrastaram e enfiaram no porta-malas. O corpo caiu mole. Encaixou sem resistência no cubículo. Bateu com violência o tampo, depois limpou com o dedão a gota de sangue fresco no coturno. Olhou ao redor — “Voltem para suas casas!”.
Ranger de portas. Um vizinho arrancando inço. Televisores ligados.
A viatura arrancou.
No jardim, sombras rondavam um chinelo solitário. O vento folheava o caderno aberto. Em uma das páginas, letras borradas: “Sou uma falha de Deus.”

