O tempo do abraço As velas estiveram acesas no aniversário da mãe. O que faltou foram os convivas. O tronco espesso da família que começa com os avós, que se alarga com os tios e os primos, que se infiltra nos filhos e netos… Isto faltou. A mãe não guarda expectativas. Eu vejo fantasmas por todos os lados. A mãe é dura e pragmática. Cala consigo o que não pode o controle e condução. Eu planto sementes sob solo árido. Guardamos, eu e a mãe, este desequilíbrio de modos e tocamos a frente a nau que nos abarca. Construir o cenário — isso foi o que me coube quase que sob encomenda. Despertei com esta missão. Era o aniversário da mãe. Dois, três, quatro os presentes — para ser exato, e dentre estes, apenas a contingência de plantões de cuidados?! Melhor que não se chegue ao preciosismo desta notação. Diria apenas que a mim, coube a função de filho. Ajeitar as coisas para que se consubstanciasse a cena. Telefonar à confeitaria. A mesma de anos. Ocupar-se de que houvesse as velas que demarcam idades e perfuram a superfície dos protocolos. Vergar-me para a foto. Preparar-me para a destinação ao primeiro pedaço de torta que me viria como alvo e distinção. Quanto o tempo e os motes até que fosse eu o objeto desta escolha.
Àquelas manhãs febris de outrora. Daqui a pouco vai ser a aula. Eu me levantava de susto, a mãe recobrada sobre o irmão a lhe bendizer o dia em palavras de um latim opaco. Já não lembro do verso um terço, mas a imagem despenca nos balanços da razão. Eu saltava de um susto despregando do sono, mas em pés de moça a ver se não rompia o cristal daquela encomenda. A mãe vergada sobre o irmão. Ela costumava contar as corredeiras todas nas que os filhos foram se lhe escapando desde o ventre em poças de um sangue escuro a escorrer pelas pernas. Uns atrás os outros, ela não tinha pregas no útero — ouvi do pai este acinte, este diagnóstico, esta palavra afiada a varar a consciência daquela que perdia os varões que ele lhe depositara. A mãe dobrava o corpo em grita. Era um novo anjo o que lhe afrontava o moral de mulher incompleta. O pai tinha palavras certeiras para juízos de encomendas. Ela devia chorar doses em dobro, eu era capaz de acessar fatias, fiapos, faíscas naquelas horas em que, em pés de pluma, não ousava quebrar o encanto do elo costurado. A mãe contou e recontou e conta ainda as horas por sobre a cama da espera. Todos sabiam que pelos rumos da palavra lhe sairia um filho dos meses ao repouso, a mãe estivera sobre uma cama durante sete meses. Mas como que isso? Cansei-me de afrontar sua gesta de narradora. Gostava que a estória lhe fizesse girar as vezes da emoção, o calo da oração, as sete espadas, as sete cores, todos os santos convertidos em velas maceradas, e o bucho a lhe crescer em definitivo. A mãe não poderia perder aquele. Ela que tropeçara em taco mal posto. Ela que escorregara de escada ladeira abaixo. Ela que tossira o tanto de expurgos nos baixios — agora é que não seria, a mãe esperava, ela esperaria, suspenderia agenda, travaria processos, desmarcaria afazeres, deixaria vago o assento às viagens, encerraria conta no parlatório de amigas, ela seria a ausência encarnada, mas não permitiria outra evasão de dívidas, não admitiria o saldo zero no lugar da prebenda, a mãe teria aquele filho. Ela teve.
Era de encanto ver seus olhos pularem a contar da façanha. O pai num sorriso de nunca. Como quando o gato na fábula de Alice, o pai era a boca escancarada, eu perguntava a mãe como era possível que o pai inventasse aquele rasgo na boca cerzida às sete chaves, ela ria de fazer gosto, a mãe tinha consigo a chave da porta, chave mestra, destas que engatam feitiços, a chave passara pelo buraco da perna, trincara o escárnio das perdas, moldara peças para os dias vindouros, a mãe trazia no corpo o filho que vingaria todos os anjos deixados pelo caminho. Eu gostava de ouvir aquela estória. Eu evitava fazer barulho. A mãe despertava o irmão para o dia que ia vindo.
Encomendar a torta de chocolate com baba de moça. Me coubera a tarefa de reavivar os velhos carnavais. Carnavais de há quanto que na casa sequer que havia blocos e confetes. Lembro, não esqueço, lembro. Parece que os anos vão se me defrontando na exigência do contar. Espécie de confissão em moto-contínuo. Eu conto sem que se me precise tanger a ferro e foice, conto a faceta das horas vividas. Nelas misturo um quitute de farsa, salgo as carnes a fim de que as imagens não resfriem, e rearranjo causos pelas avessas ao conforme. Modo meu de dizer que minto. Juro que isto, eu minto, eu juro que minto quando conto isto. Mas seguirei contando.
Era da mãe, o seu aniversário. Fora ontem. Éramos uns poucos a façanha dos anos somados. A mãe atravessa décadas. Tem as marcas pelo corpo. Mas é nos braços que o farol dos casos emite os sinais mais graves. Parecem escaras. Não são. Parecem hematomas de maus-tratos, não são. O sangue se lhe tornara ralo pela medicação, as veias são como filetes sob a pele finíssima e alva. Ela não se equilibra de pé, mas me prometeu um abraço. Me preparo. Preciso escapar de ali. Preciso fazer a gira das horas pelas costas do tempo, tramar segredos às coxias de calendários secos e protocolares. Estou entre vivos e mortos como quem desliza pelas páginas de um diário íntimo. A quem chamar para que o aniversário da mãe se pavoneie de cores vivas?
Penso nas tias que tive. Havia uma que tocava as bachianas numa velocidade de dedos que sempre a achei meio fantasista, meio diabólica — é que não me era comum que de um piscar de têmpora pudesse surgir um feixe de sonoridades tão díspares e intensas. Aquela tia! Dizia-se que ela tinha coisa com o demônio. Que recebia santos e que não eram santos comezinhos. Eram personagens da história. Aquela tia! Ela dizia nomes, misturava línguas, falava bretão, entoava cânticos em galego. Estou em meio a seu concerto quando se me chega pelas costas a voz grave do tio Augusto. Vou convidá-lo até o abraço de minha mãe, mas me é evasivo o tio.
Lembro das botinadas da infância. E ele, será lembra? Eu vestia botas ortopédicas para consertar a curva dos pés. Tinha os pés chatos, se me diziam isso. Nunca compreendi bem o que fossem pés chatos. Parecia uma afronta, um xingamento, uma desavença. Dizia-se que os de pé chato não conseguem correr. Eu corria. Venci maratonas. Cheguei em quinto lugar entre mais de mil candidatos. O irmão chegara depois. Sem que tenha usado das botas que me doíam e empanturravam de tarefas o pé desforme, chato, azarado, tolo. Pé de merda que aprendi a esconder vida afora. Pé de valsa a tropeçar nas tamancas. Pé de aço na sombra dos caminhos com pegadas de denúncia. Eu usara por anos aquelas botas. Sei de cor o nome da loja de fabricantes, mas guardarei sepulcral silêncio de propaganda. Eu usara as botas como armas que só eu as tinha. É que havia uma chapa de ferro às pontas da biqueira e quando as roçava no chão lhe saiam fagulhas, faíscas, parecia um fogo de ventas, parecia que eu era um touro fabuloso, desses que viram o mundo quando arrastam as patas e soltam fumaça pelas narinas como ao anúncio do fim — eu corria atrás do tio Augusto, seus tornozelos eram a destinação das botas, daquele aleijão, e eis que eu mirava e lhe acertava os nódulos da alma-azeite, ele ria e chorava, o tio Augusto nunca que me voltou uma palavra chula, ele poderia ser este conviva que procuro para o aniversário da mãe. Tio Augusto já não está.
Não se fazem tortas de chocolate como antigamente. Antes a baba da moça era vivaz e benfazeja. Agora anda misturada ao moinho de fármacos. Levantar a mãe. Ela me prometeu um abraço. Vai custar quanto tempo até que se lhe aprume o corpo? Até que a coluna fique erétil e não arrisque uma queda que lhe ponha à prova o útero uma outra vez. Eu contava. Entre uma verdade e uma mentira, eu contei do irmão. Não disse ainda que fora ele quem arrombara os caminhos da mãe. Ele era grande. Nascera desproporcional. Era o maior do berçário. Pesava arrobas de causar inveja a estancieiros que se prezem. O irmão chegara primeiro. Não às touradas que as botas me conferiam. Não às maratonas que os pés tontos me desautorizavam. O irmão chegara primeiro àquele córrego de almas pela metade em que a mãe se tornara. Aquele escorrega de equilíbrio reverso aos impropérios do pai. Ele fincara estacas. Escrevera palavra definitiva na que a mãe escorria vernácula. Eu descia da cama para não incomodar o ajuste, o pas de deux, aquele encaixe de cristais, as mãos da tia deslizando sobre as notas de Villa-Lobos, aquele ponto zero em que a bota ortopédica medieval cruzava o ar e alçava a rótula do tio.
A mãe está de pé. Se trata de uma farsa, cansei de dizer. Conto da estória metade sincera, outra metade simulação. A mãe está de pé. Nesta frase eu digo verdades para acertos de reconciliação. Ela está de pé. Me disse que chegou a hora. Que tem um abraço cego para a costura do tempo. Sem que eu perceba fiz uma gira em meio século de esperas e não encontrei quem se nos prestasse de testemunhas. Os tios saíram pelo ralo. Foi-se o tempo. Os avós? Por que será não pensei antes? A mãe me vem. Tenho de me inventar um corpo que nunca lhe tive. Se me lançassem uma folha solta eu moldaria uma pipa que voasse. Com rabiola e tudo. Lembro que o irmão me ensinou a passar o cerol. Servia para cortar as linhas de outros papagaios meio gaiatos. O irmão ensinou. Ensinava pela metade as coisas. Não disse que não era para coçar o olho com a mão enlameada de cerol, eu cocei. Enfurnei cacos de vidro nos olhos, o pai ficou fulo, me soltou desavenças, me lançou de abismos que eu meio cego não sabia como amparar a queda. Caio ainda agora. Como quando naquele caminho de farpas e descomposturas que levava até o hospital da Ilha do Governador. O mesmo em que morrera o avô. Eu ficaria cego? O pai dizia que sim. Que eu estava cego, que não haveria alternativas cirúrgicas. Eu tinha os olhos vidrados, a pipa encalacrada naquela vista chata, tonta, aleijada.
As mãos da mãe me tocam o ombro. Me amparo nela.

