A primeira vez que vi uma agulha de tricô eu tinha uns 9 anos. Fiquei impressionada ao perceber que um objeto tão sem graça era capaz de construir roupas, capas para almofadas, para botijões de gás e até para liquidificadores. É! A estética da época era, no mínimo, estranha. Mas a criação vinha do uso dessa ferramenta — as mãos ágeis da bisa faziam tudo isso com aquelas agulhas, deixavam no chinelo aquela protagonista do conto da Marina Colasanti.
Vó Jacira vivia, quando tomei consciência de sua existência, com uma de suas filhas — tia Alice — uma solteirona morena, dos olhos verdes, com os dentes sempre à mostra, e um deles era dourado… detalhe que marcava aquela boca de uma senhora de sessenta e poucos anos.
A casa que essas duas mulheres habitavam me dava um pouco de medo. Era de madeira, marrom-escura, tinha um muro baixo e um portão de metal. Mas, ao chegar à casa, havia um pequeno canteiro com flores, outras plantas e pequenos espantalhos. Eram paus com cabeças de bonecas velhas, três ou quatro em cada lado que cercava o carreiro até a porta. As cabeças de bonecas eram horrendas, sem cabelo e caolhas.
A TV ficava na cozinha, junto a uma cristaleira. A casa possuía dois quartos; eu só me lembro bem de um, com duas camas de solteiro. Ali, quando tinha uns 12 anos, deitei, levantei a camiseta do colégio de freiras e Dona Jacira apertou minhas costelas que doíam, examinou. Depois, pegou uma agulha com fio e a passava próximo ao meu corpo, como se me costurasse, os olhos quase fechados, mãos e boca trabalhando. Falava, cochichava uma reza.
A casa tinha um cheiro específico, de plantas. Quem entrava imaginava que um chá estava sendo preparado, mas esse cheiro da casa estava em Dona Jacira também. Quando retirada desse contexto, na casa de outra pessoa, era possível sentir o cheiro de ervas nela, em seus vestidos, que eu sempre achava ser o mesmo, um só. Sei lá, né? A gente guarda uma imagem da pessoa, com determinada roupa, e isso é o que fica.
Além do cheiro, a casa nunca estava vazia. Sempre havia visitas para Vó Jacira, e elas sempre traziam algum problema para ser resolvido. Precisavam de uma costura de um machucado, de uma planta para um banho ou chá; traziam um bebê com o peito aberto ou uma criança assustada. Aí ela pegava seu copo com água e sua tesoura.
Muitas benzedeiras usam o famoso ramo de arruda e, às vezes, ela até usava. Mas era diferente o seu método. Ela enchia o copo, para crianças e adultos, com água da torneira da pia e já iniciava a reza. Pegava sua tesourinha e começava a cortar a água. Chegava com o copo bem perto da cabeça, na frente do rosto ou em cima — na moleira — e cochichava a oração. Até hoje não sei quais eram as palavras, só sei que a tesoura cortava o mal.
O mal quase sempre era o medo, por isso poucas vezes a vi benzer adultos. Não, o medo não desaparece quando crescemos. O que acontece é que perdemos o costume de abraçar a mãe e falar o que nos amedronta. O medo sempre está conosco.
Eu sempre fui medrosa. Fui atormentada pelo lobisomem, pelo boneco assassino e pelo escuro; até hoje tenho receio de um quarto escuro. Mas o que mais me dá medo são segredos. Eles são como a ressaca: me atraem e me empurram. Quero saber o que há por trás de um olhar, de um cochicho; porém tenho receio do fato que pula na cara da gente quando a cortina do segredo é aberta.
A maioria das conversas e trabalhos era feita na frente de todos. Eu ficava encantada e, ao mesmo tempo, assustada quando Vó Jacira pegava um bebê de uns 3 meses, passava um pano branco por baixo de suas costas e media seu peito. Em minutos, às vezes ao som de choro, ela fechava aquele peito.
Contudo, algumas conversas e procedimentos eram feitos no quarto da bisa. Quando ela apertava o braço da visita e anunciava para quem estivesse na sala:
— Já voltamos! Alice, sirva um café pras visitas!
Nesse momento, tia Alice sabia que não podia deixar ninguém atrapalhar Dona Jacira, muito menos uma criança enxerida como eu.
A sessão da tarde foi interrompida por um choro. Olhei, virando-me na cadeira, e vi uma senhora amparando uma moça que chorava, tremia e soluçava. Abaixei o volume da TV e pude ouvir frases incompletas:
— Tem jeito?
— Não tem outro! É esse!
— Não queria, mãe!
— Tranquila… Dona Jacira dá jeito…
Não entendia o porquê daquele choro. Entretanto, a senhora tinha razão — Dona Jacira dava jeito em tudo. Seja qual fosse o mal, ela cortaria. As duas foram chamadas para o quarto. A moça, por um breve momento, negou com a cabeça e se recusou a levantar, a boca torcida pelo não e pelo choro desesperado.
Cheguei à porta e pude ver as pernas abertas da moça, já deitada na cama — cena cortada pela mão de Alice, atrás de mim, que fechava a porta e me mandava ver TV. O filme terminou, ouvi a porta da frente se abrir e lá estavam a senhora, a moça — que caminhava com dificuldade — e a bisa, dando as bênçãos de despedida.
No mesmo instante, minha visão periférica flagrou tia Alice passar com uma caixa de sapato. Rumou para o quintal, puxou uma enxada, que repousava no muro, e enterrou a caixa. Da janela da cozinha, vi que rezou e me assustei ao ouvir palmas ao portão. Alice entrou, batendo as mãos como quando se termina um serviço, e foi até a porta. Passei pela cozinha correndo, não avistei a bisa e fui até o quintal, ainda sem saber se teria coragem de desenterrar a caixa.
O coração estava na goela, mal podia respirar. As unhas estavam impregnadas de terra. Usei um pouco a enxada, mas cavei muito como um cachorro. Abri a caixa sem tirá-la do buraco. Um pouco de terra caiu em cima daquela coisa. Não tive coragem de colocar minha mão nela. Não tinha cheiro de bicho, não tinha cheiro nenhum. Tinha braços, pernas, olhos, uma cabeça estranha, grande, uma pele vermelha. Não podia ser humano. Era algum parasita, sem dúvida. Estava matando aquela moça, comendo-a viva.
Senti nojo. Enterrei a caixa como pude. Ouvi passos e, sem pensar, me ajoelhei em frente aos dorme-dorme. Arranquei uma muda da planta — a coitada não teve nem tempo de se retrair, dormir — tamanha foi minha agressividade. Precisava justificar minha presença ali e, principalmente, minhas mãos sujas de terra.
— O que está fazendo aí, menina?! — tia Alice me perguntou, irritada.
Odiava que mexessem nas plantas. Era seu lugar; sabia tudo: nomes, serventia, quando plantar e como.
— Por que arrancou minha planta?
— Desculpe, tia. Quero uma dessas lá em casa.
— Você nem sabe plantar, menina! Não é assim com a dormideira, é melhor sementes. Está com dor de garganta, por acaso?
Eu estava muito nervosa e balancei a cabeça para dizer que sim.
— Então eu preparo um chá para você fazer um bochecho.
Tomou a muda de minhas mãos. Respondi que precisava ir para casa porque tinha tarefa da escola. Apressei o passo dizendo:
— Até logo, tia.
Ao passar pela cozinha, perto da porta do quarto da bisa, gritei:
— Bença, vó!
— Deus te abençoe, minha filha!
Em casa, fiquei alguns dias pensando naquele bicho e na sensação de nojo que tive ao tê-lo em minhas mãos. Não sabia o que era e só fui descobrir mais tarde quando, na escola, duas amigas me mostraram, rindo, um livro de Ciências em que apareciam imagens do corpo humano.
— Olha! Um pinto! — disse uma das meninas.
Em outra página, pude ver o parasita. Era um feto. Um ser humano, pensei na hora em que vi o desenho. A bisa tirou um humano de dentro daquela moça. Sabia o que significava, já tinha 13 anos. Os bebês não vinham da cegonha.
A descoberta de que havia pegado um projeto de bebê nas mãos e que ele estava apodrecendo — pelo tamanho, já deveria ter sido devorado por vermes — no quintal da Vó Jacira me intrigava. Como a bisa fez aquilo? Por que a moça precisou tirá-lo? Por que não foi ao hospital?
A partir dessa descoberta, pela janela da cozinha, todas as vezes que fui à casa da bisa, olhava para o lugar onde fora enterrado o bebê e sentia vontade de desenterrá-lo, ver se ainda estava lá. Não podia falar sobre isso com ninguém. Ninguém acreditaria naquilo e, ao contrário do feto podre, morto, a curiosidade sobre como Dona Jacira tinha feito aquilo crescia dentro de mim.
Foi preciso tempo e, trazido por ele, o esquecimento para que mais uma moça aparecesse com esse mal na casa de minha bisa novamente. Essa sensação de que as coisas que desejamos só acontecem quando as esquecemos segue comigo.
A moça não era uma desconhecida. Era bonita, morava em uma casa de madeira no fim da vila, perto do esgoto. Havia um boato de que namorava o dono do mercadinho, um homem mais velho, casado e pai de dois adolescentes. Mas, ao contrário da primeira moça, essa parecia mais forte, talvez menos abalada — se é que a gente pode se abalar nessa vida. Chorava sem fazer barulho. Lágrimas corriam no lado direito de seu rosto enquanto, no olho esquerdo, uma lágrima se recusava a descer, mantinha-se imóvel, esperando não se sabe o quê.
— Veio sozinha, Eliza? — perguntou Dona Jacira, abraçando a moça e a levando para o quarto.
Nesse momento, A Ilha Perdida já não era um livro superinteressante, e eu o deixava só na mesa.
Tia Alice apareceu, vindo do quintal para a cozinha, e levava em seus braços uma garrafada — mistura de ervas e aguardente —, um frasco de álcool, gazes, um copo d’água e uma caixa de remédio. Havia um kit para aquele desconhecido ritual, e a minha curiosidade criava olhos dentro de mim.
— Não saia daí, menina. Não quero você na porta do quarto. A mãe está atendendo.
A tia deixou o firme recado e seguiu para ajudar a bisa. Mas o que tia Alice não esperava era que, como suas mãos estavam ocupadas, seu chute na porta fizesse com que ela batesse seco no caixão e ficasse entreaberta — poucos centímetros e por poucos segundos —, que me bastaram para saber que uma agulha pode fazer muito mais que tricô.

