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O vestíbulo 

O vestíbulo 

A história começou quando eu estava sentado no vaso, lendo o “Órganon”, de Aristóteles. O vaso ficava em frente à pia e, num momento em que tirei os olhos do livro, vi pequenos traços pretos na cuba, junto ao limite com a bancada. Eram três ou quatro minhocas minúsculas e, apertando os olhos, vi que se moviam, dobrando o corpo sobre si mesmas e subindo.

— Que porra é essa?

Terminei a função e fui checar de perto. Mas quando me aproximei já não encontrei nada. Apliquei inseticida no local, esqueci o ocorrido e toquei a vida.

Três dias depois, no entanto, eu estava de novo no vaso, dessa vez lendo “L’art d’être heureux à travers 50 règles de vie”, do Schopenhauer, quando vi de novo as minhoquinhas.

— Bosta!

Peguei uma escova de dentes antiga e esfreguei no que eu imaginei ser o esconderijo dos bichos. Também raspei o lugar com um prego, apliquei inseticida, água sanitária e álcool.

Mas um dia depois eles voltaram a aparecer. Deviam estar num local inalcançável. Liguei para o meu mestre de obras:

— Seu Virgílio, tem uns vermes aqui na pia do banheiro.

Ele prometeu vir no dia seguinte.

Na mesma noite, eu assistia na TV a um documentário sobre Vlad, o Empalador, quando, com minha visão periférica, notei um vulto se movimentar rapidamente sobre os livros no lado esquerdo superior da estante. Imaginei que fosse um morcego ou um rato. Peguei vassoura, escada e subi até a prateleira onde ele supostamente estava. Tirei todos os livros, mas não achei nada.

Seu Virgílio apareceu no dia seguinte bem cedo. Ele era já um velho de uns 80 anos e não trabalhava mais regularmente, só para uns poucos clientes antigos, como eu. Vivia dizendo que queria voltar para a sua terra natal, no Norte, e morrer lá:

— A vida aqui é uma merda.

Saí para trabalhar e deixei a chave de casa com Seu Virgílio. Algum tempo depois ele me ligou, dizendo que havia desmontado toda a pia e não havia encontrado nada de estranho:

— Agora faço o quê? Monto tudo de volta?

— Troca a porra toda.

— Mas não precisa.

— Troca.

Liguei para a loja de material de construção de um amigo e pedi que entregassem urgentemente na minha casa uma nova bancada e uma nova cuba, seguindo as especificações passadas pelo Seu Virgílio.

O serviço foi feito. Perguntei o valor ao Seu Virgílio e ele deu a resposta costumeira:

— Paga o que o senhor quiser.

Ele tinha essa mania. Paguei o que parecia ser justo. Gostei da nova bancada e da nova cuba, que tinham cores mais claras que as anteriores. Toquei a vida.

Uma semana depois, no entanto, estava no vaso de novo, dessa vez lendo “La Hiena de la Puszta”, de Masoch, quando voltei a ver os vermes negros e retorcidos na sua movimentação sombria e debochada.

— Filhos da puta!

Mais uma vez, quando dei por encerrados os trabalhos, fui até a pia e não encontrei nada. Ainda assim borrifei álcool e inseticida no local. Chamei Seu Virgílio novamente. Como era fim de semana, ele veio no mesmo dia. Chegou de mau humor, depois de enfrentar um engarrafamento monstruoso causado por um show idiota que aconteceria na orla marítima:

— Que nojo morar aqui! Não vejo a hora de voltar pro Norte!

Ele desmontou tudo e me chamou:

— Veja o senhor mesmo. Não tem nada aqui.

— Não é possível.

— Mas é.

— Merda!

Ele montou tudo de novo e não quis aceitar pagamento pelo serviço:

— Dá só o dinheiro da passagem.

Paguei o suficiente para ele voltar para o Norte. Ele ficou puto, mas aceitou. Foi a última vez que nos vimos, porque ele acabou morrendo dias depois na cidade que tanto odiava.

Passou-se uma semana sem qualquer ocorrência, até que uma noite, enquanto eu assistia na TV a um documentário sobre o mundo animal, vi, com o canto direito do olho, uma pequena criatura peluda correr pelo assoalho do escritório e entrar no armário, que estava com uma das portas semiaberta.

Eu sabia bem que animal havia visto: era um musaranho. Não sou biólogo, mas tenho um vasto conhecimento livresco sobre mamíferos. Embora muita gente confunda o musaranho com o camundongo, ele não é um roedor. É outro bicho, pode ser venenoso, insetívoro ou onívoro. Talvez seja até um ancestral de todos os primatas do planeta. E teoricamente não existe no nosso continente.

Esvaziei todo o armário, que era embutido, mas nada encontrei. No fundo do móvel, no entanto, vi uma antiga tomada, sem o espelho, só com o buraco e alguns fios com fita isolante nas pontas. Eu nem sabia que existia aquilo. O musaranho certamente fugira para ali. Deveria estar vivendo numa toca num vão da parede.

No dia seguinte, antes de ir para o trabalho, passei numa loja esquisita perto da minha casa onde se vendia um monte de coisa que, acredito, não se usa mais, como penicos e disquetes.

— Quero uma ratoeira — pedi.

Armei a ratoeira com um cubinho de queijo bola.

Os dias passavam e o musaranho não dava as caras.

Uma noite, no entanto, enquanto via TV, voltei a perceber, com minha visão periférica, pequenos vultos voando ou correndo sobre os livros nas prateleiras mais altas da estante. Esvaziei todas as prateleiras e nada achei. Decidi deixar meus livros espalhados pelo piso do apartamento.

As visões de vultos agora eram diárias. O musaranho também voltou a percorrer o assoalho do escritório a cada duas ou três noites. Na pia do banheiro, os vermes faziam a festa.

Toda essa atividade me esgotou e tive que pedir uma licença do trabalho.

Fiz as malas e reservei já para o dia seguinte uma casa num balneário a 300 quilômetros da minha casa. Passaria lá uma temporada. Por acaso, em seguida, uma amiga me mandou mensagem convidando para um chope. Respondi que precisava fazer as malas para a viagem, embora já tivesse feito isso, e informei onde ficaria.

Essa amiga era enfronhada nas coisas do oculto e muito sensível.

— Me conta o que tá acontecendo — pediu.

Fiz um resumo para não ser enfadonho.

— A gente se fala — ela respondeu.

Peguei a estrada e cheguei sem problemas à casa alugada. O imóvel tinha piscina e ficava de frente para o mar. Eu odiava piscina e mar, então não me serviriam para nada.

A primeira noite se passou sem qualquer incidente. No dia seguinte fui ao mercado comprar mantimentos e cheguei a andar na praia, embora eu odeie caminhar na areia. Pouco após o cair da tarde, vultos começaram a percorrer as prateleiras da estante da sala e, no quarto principal, vi dois musaranhos dispararem para debaixo da cama. No banheiro da suíte, os vermes se retorciam na cuba da pia enquanto eu, sentado no vaso, lia “In the Shadow of Man”, de Jane Goodall.

No dia seguinte acordei tarde, com o som da campainha da casa. Era a minha amiga, que decidira aparecer de surpresa.

— Sua cara tá péssima — ela disse.

— Tive problemas pra dormir.

Quando ela entrou em casa e pôs sua mochila no sofá da sala, me espantei com o quanto de vida ela irradiava. Era como uma luz.

— Você voltou a ter as visões, né?

— Voltei.

Fomos para a cozinha. Preparei um café e tomamos nossas canecas cheias sentados à mesa.

— Estudei seu caso… É como um anúncio.

— Entendi.

— Como se você estivesse entrando num vestíbulo… Sinto muito.

— Tudo bem.

— É o ciclo da vida.

— Tá bom.

— Vou ficar contigo. Até o fim.

No dia seguinte, porém, ela entrou no meu quarto bem cedo, mochila às costas, e disse que precisava ir.

— Recebi uma mensagem.

— Do além? — perguntei, sonolento e confuso.

Ela fechou a cara:

— Um SMS.

Mais uma vez, me impressionou o quanto de luz ela parecia irradiar ao deixar o quarto. Voltei a dormir e acordei no fim da tarde. O tempo estava horrível-belo, nuvens escuras e gigantescas percorriam o céu empurradas por fortes ventos. Fiz um café bem forte, peguei uma caneca e me deitei numa espreguiçadeira à beira da piscina para admirar a tempestade iminente.

Nisso, um clarão tomou todo o céu. Seguiu-se um grande estrondo e uma forte onda de choque que me jogou no chão, estilhaçou janelas e derrubou árvores em volta. Entrei em casa atordoado e me deixei ficar no sofá por algum tempo. Aí decidi ver as notícias no celular ou na TV, mas não havia eletricidade ou sinal de telefonia.

Fui para a praia e encontrei centenas de pessoas caminhando meio perdidas, fustigadas por um incêndio monumental que avançava pelo sul, engolfando árvores e casas. A fumaça negra começou a cobrir tudo até onde a vista alcançava.

Quis voltar para a casa alugada, mas o fogo avançava rapidamente e desisti. Então me juntei àquela massa de refugiados em sua marcha atônita. Havia pessoas com as roupas chamuscadas, os corpos cheios de fuligem. Muitas tinham queimaduras e gemiam de dor.

Aquele foi o começo de uma jornada de pesadelo.

Por dias caminhamos a esmo, sempre para o norte. Seguimos por florestas devastadas e estradas arrasadas. Abrimos caminho em meio a ferros retorcidos, escombros e construções calcinadas. Topamos com milhares de cadáveres em posição de agonia. Muita gente ficou pelo caminho.

Não sei como consegui sobreviver. A partir do terceiro ou quarto dia, não houve mais luz do dia; toda a terra era só escuridão, causada pela espessa fumaça que cobria o sol. Passamos sede, frio e fome. Me lembro vagamente de beber água de riachos poluídos e comer carne crua de cães encontrados mortos.

Quando a fumaça começou a se dissipar e a luz voltou, após umas três semanas, nosso grupo tinha uns poucos miseráveis andrajosos. Já estávamos na minha cidade e começamos a encontrar outros grupos de seres fantasmagóricos num cenário de destruição.

De repente, me vi de frente para o prédio onde meus pais moravam, uma das poucas construções intactas em toda a vizinhança. Abri a porta sem problemas e subi pelo elevador até o sétimo andar, onde toquei a campainha do antigo apartamento deles. Apesar de meus pais já estarem mortos há dez anos, não estranhei quando vieram me receber com o afeto de sempre. Tomei banho, pus roupas novas emprestadas pelo meu pai e almocei com eles na sala, vigiado com desconfiança pelo gato da casa, que nunca havia gostado de mim.

1º Bula Prêmio de Conto
Osvaldo Corrêa Soares

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