O cheiro de alfazema ainda pairava no ar, misturado ao calor leve da roupa de cama recém-trocada, empilhada no cesto ao lado da porta. Lá fora, um beija-flor flutuava diante da janela. Parecia me procurar. Talvez estivesse mesmo atrás de mim.
Eu já estava pronta para as visitas da tarde. Vestia meu traje estampado mais elegante — ou pelo menos o mais aceitável entre os que me restaram. Não era o que eu queria usar. Queria o vestido preto, aquele clássico, que me fazia sentir como a Audrey Hepburn atravessando um corredor cheio de olhos atentos. Mas sei que ele já não está mais aqui. Ou talvez esteja. Talvez tenha sido um sonho.
Alguém prendeu meu cabelo com um elástico no alto da cabeça. As mãos eram firmes e rápidas. Não vi quem era. Agradeci em silêncio por não haver espelhos por perto. No escuro das lembranças, prefiro me ver do meu jeito — elegante, altiva, viva.
Senti a lágrima se formar, escorregando quente em direção ao pescoço. Quis contê-la, mas as mãos não me obedeciam. Em vez disso, fechei os olhos e empurrei a portinhola que dá para meu jardim das maravilhas.
Carlota entrou, como sempre, com seu relógio pendurado no pescoço. Trouxe um copo d’água e os comprimidos que ela jura serem importantes. Já não discuto. Ela caminha como quem já esqueceu para onde vai, mas, mesmo assim, chega. Sempre chega.
Quando olhei para ela, vi o Coelho Branco. Gentil, solícito, oferecendo os copinhos. A cada gole, o gosto mudava: cereja, caramelo, torrada com manteiga… Um fio escorreu pela minha boca trêmula. As luvas do coelho apararam com delicadeza.
Tudo pronto. Fui levada até o salão. Balões vermelhos flutuavam no teto. As cadeiras, alinhadas contra as paredes. Vieram chegando, um a um. Silenciosos, pálidos, olhos vazios. Sentei na minha poltrona, a de honra, dizem. Procurei entre eles algum rosto conhecido. Nada. Só sombras, borrões de gente.
O chá começou a ser servido. Cada um com sua xícara, cada um no seu mundo. Um rapaz de cabelo cacheado preso num boné me trouxe a minha. Seus dentes manchados me lembraram um piano desafinado. O olhar impaciente me queimava mais do que o chá fervente.
“Vamos, dona Áurea”, ele parecia dizer sem dizer. O tempo urge, dizia seu olhar.
E foi aí que vi: o Chapeleiro Maluco. O relógio pendurado na lapela. “O tempo não gosta de ser marcado”, ele repetia, como se soubesse dos meus atrasos.
Então olhei os balões vermelhos. Oscilavam ao sabor do ar-condicionado, como se dançassem para mim. Fiquei hipnotizada. E, num piscar, comecei a rodopiar de novo pelos salões da memória. Vi a mim mesma: adolescente, de vestido rodado; depois, segurando a mão da minha filha vestida de noiva; mais tarde, brincando com os netos no jardim. Eu no colo dos meus pais. Eu cheia de mim.
Mas o tempo é um tirano. Num estalar seco de ponteiros, ouvi a ordem da Rainha: “Cortem-lhe a cabeça!” E então tudo parou. Só restaram meus olhos — escuros, imóveis, mirando algo que ninguém mais vê.
Esse é o meu túnel. A entrada do meu jardim. Lá onde tudo brilha. Onde tudo cheira a infância. Onde tudo tem gosto.
De volta ao quarto, me colocaram na cadeira, de frente para a janela. O entardecer tingia o chão com seus últimos raios de sol. E eu comecei a diminuir. Diminuir. Como Alice. Tão pequena que saí de mim.
E então vi: o beija-flor ainda me esperava. Bati minhas asas invisíveis e o segui, leve. Invisível. Em paz.

