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Os salmos que os santos engoliram

Os salmos que os santos engoliram

Ao completar treze martirizados anos, Mariazinha Neta ainda esculpia Fátimas, Antônios e Jorges de madeira de lei junto à Célia Avó. As irmãs de preto viviam atrás das Marias, suas prediletas, umas negras, outras amarelas, e todas santas como Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós. Às quintas-feiras, se as freiras chegassem trinta minutos mais cedo, poderiam ver da calçada, através dos escancarados janelões da casa, a desgraçada semelhante a um compasso. Não rezava: ensaiava com os pés de grafite para a audição municipal do biênio. Quem fizesse com maior maestria o rond de jambe receberia cinco mil para estudar ballet no Belas Artes.

— É a absurda cuspida e escarrada! — benziam-se as beatas, saindo pela tangente.

Por causa da absurda, o divino apareceu a Célia Avó em esplendorosa visão dos sonhos, dando-lhe a alcunha de Célia, a Mártir. No centésimo santo de madeira, a avó quebraria o jugo de quando Maria Filha, pedindo em pacto de sangue para se tornar a nova Isadora Duncan, conjurou o demônio que a pôs louca e suicida. Então, há certos caprichos que não valem suas fogueiras.

Célia Avó, alquebrada, vivia de murmúrios:

— Por que Deus me castigara com a maldição de Matusalém? Este será o último — ameaçava, repreendendo de quebra a neta pelos erros da filha. — A absurda.

Célia Avó, fervorosa, passara sete madrugadas talhando seu libertador, São João Nepomuceno, o centésimo santo mudo e oco. No oitavo dia, com um vigor atávico, deu-lhe o derradeiro retoque e dormiu por três dias. Sonhou com Nepomuceno abençoando Maria Neta e a libertando do tétrico encosto de Maria Filha.

— Tá tão branquinha, igual à absurda! Tome essas arrudas e varra esse encosto já — lembrava dizer quando a assombração aparecia às costas da neta.

Enquanto a avó hibernava, Mariazinha, de estômago na garganta, amaldiçoava o novo pedaço de tora.

— Quero ser igual à mamãe. Dançar nos grandes centros!

Via a avó morta, e roncando. Via Nepomuceno envolvido em suas imaculadas toalhas. O santo permanecia inerte, como se tivesse engolido aquela prece e guardado para si no interior do seu nada.

Mariazinha repetia à exaustão o rond de jambe, apoiada à escultura, medindo-a dos pés à cabeça, julgando-lhe.

— Que as preces se realizem ao contrário, maldito! Se é mesmo um milagreiro, então abra a sua boca e me atinja com fogo.

Se as freiras estivessem por perto, diriam que maldizia com as mesmas palavras da mãe, a mesma fúria enlouquecida e sagaz.

No quarto dia, despertou dormindo Célia Avó, gritando por Mariazinha:

— Menina, entregue o Nepomuceno à Cristóvão, o marceneiro. Ele irá envernizá-lo. Pague pelo serviço com essa onça — ordenou, estendendo-lhe uma nota de cinquenta reais.

— Mas hoje é a audição do Belas Artes.

— Bel… o quê?

— Be-las Ar-tes! — gritou.

— Vai me desobedecer, igual à absurda? Vá antes que me esqueça por que está me encarando! E, se souber que passou por Velhas Pazes, dou-lhe uma cintada bem boa e nunca mais dançará na vida.

Mariazinha, com as pupilas salgadas, abraçou as duas pernas e se entocou num canto, observando a fotografia da mãe, repousada sobre a cômoda, vestindo um collant e sapatilhas rosáceas. Estava tão pura, a absurda, e não parecia maldita. Ou não sabia ser.

“Todos os santos são ocos, os de carne também”, pensou.

Limpando o catarro, a menina encaixou o dinheiro entre a pele e o cós da saia e disparou, peripatética, ao alpendre, carregando consigo seu carrasco de madeira.

Subindo a alameda, com o Nepomuceno a reboque num carrinho de mão, sentiu o sol arrancar-lhe gotas de suor. Gemeu. Os pés, metidos num chinelinho, queimavam como gelo seco. À sua volta, pirâmides e mais pirâmides com janelas abertas, cheias de santos ocos nas soleiras, esvaziadas de gente. Só Célia Avó fazia santos tão feios.

Parou para descansar, sentando-se no meio do paralelepípedo. Cerrou os olhos por um momento. Acordou com um homem de mala remexendo em sua saia. Coçando os olhos, advertiu-o, assustando-o. O homem recuou e mostrou um sorriso. Tinha dentes rosas.

— O senhor é Cícero? Diga que sim, ou saia da minha vista!

— Quase! Sou o irmão maior e mais bonito. Não vou lhe importunar, fique tranquila — respondeu, tirando da maleta um par de sapatilhas rosáceas.

Mariazinha, absorta, tinha os olhos tomados por aquele rosa, o rosa da mãe.

— São do senhor?

— Não caberiam em mim. Além disso, seria um pecado serem usadas por alguém que não sabe dar um passo sem desequilibrar — gargalhou. — Elas eram de uma dançarina muito estimada.

— Ah, sim. Isadora Duncan?

— Uma bailarina absurdamente pródiga, que queria que eu entregasse pessoalmente à próxima estrela do Belas Artes. Seria você?

— Seria, se minha avó estivesse morta de verdade.

— Os sonhos, criança, têm que valer a pena. Imagine se tivéssemos tudo na mão. Daí a vida não teria graça, não é mesmo?

Mariazinha suspirou. Viu que o homem observava fixamente o dinheiro da avó em seu saiote.

— O senhor quer que eu as compre do senhor — adivinhou.

— Sim, mas por uma quantia justíssima — disse o homem. — Por apenas uma onça, são todas suas.

Mariazinha pensou na avó, nas penosas noites em que a viu se recolher, esculpindo e esculpindo, de mãos folhudas e farpadas. Rugosa e dolorida. Santa e oca. Olhou para Nepomuceno, o mártir da confissão, calado igual a qualquer santo de qualquer canto.

— Olha, moço, só tenho isso, e pertence a uma senhora muito odienta.

— Dona…

— Dona Célia, minha avó.

— Célia… isso! Quase que minha memória me prega uma peça — riu. — Como esquecer de uma mulher tão santa como a sua avó? Fique tranquila. Eu pedirei a ela que não te castigue.

— Não sei — sussurrou a menina, sem brilho.

— Vamos lá… — insistiu o homem, chacoalhando as sapatilhas. — São Nepomuceno e eu guardaremos este segredo a sete chaves. E mais: irei percorrer o bairro atrás de um salmista a quem essa lindíssima escultura sirva de consolo. A venderei pelo dobro e depois entregarei o pagamento direto à sua avó.

Mariazinha, hesitante, apalpou a saia. Já podia se ver sendo capturada pelo canhão de luz em trezentos e sessenta graus, sua visão intercalando entre o pano de fundo, a coxia e as cabeças que a canonizariam como A Absurda.

O homem, em posse da mercadoria e do dinheiro, desapareceu no declive da alameda. Quando pôs as mãozinhas nos sapatos, sentiu-os macios como algodão. Alisou a ponteira, áspera e educativa, e chorou. Seus pés não doíam mais, e algo dentro dela queimava.

Fez o caminho de volta até dar na varanda. Ao longe, pela janela, avistou a corcunda de Célia Avó. A Mártir estava ajoelhada ao altar, rezando ao amontoado de madeira alheia aos seus salmos. Mariazinha lembrou-se de que todos os santos são ocos, especialmente os de carne. É a gente que engorda de agitações as goelas, mesmo que amiúde também aconteça o oposto.

Os Antônios, Marias, Madalenas, Fátimas, Expeditos, virados de frente para a abertura do janelão, observavam cúmplices Maria-Filha-Maria-Mãe, unidas num corpo só de Maria, dando as costas com seus pés rosas. Seu segredo estava protegido, assim como os salmos que os santos engoliram.

1º Bula Prêmio de Conto
Bruno Aguiar Pereira Marin

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