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Outras de mim

Outras de mim

Às vezes sinto que cheguei tarde demais à minha própria vida. Como se tivesse uma história passando ao fundo, uma melodia de volume baixo que não sei cantar. Não é tristeza; é uma espécie de desencaixe, como vestir uma roupa que serve, mas não é sua.

O que antes era invisível começou a chamar minha atenção. Passei a reparar em certos olhares demorados de desconhecidos, em sorrisos que pareciam me esperar, em uma sensação estranha de ser lembrada por lugares que, juro, nunca pisei. Era como se deixasse rastros antes de chegar.

A primeira vez que encontrei outra de mim foi entre as páginas mofadas de um livro de receitas chamado Doce Presença, escondido em uma prateleira empoeirada de um sebo lá no centro. Comprei por vinte reais — mais pela ironia do título que por uma ambição culinária.

Entre uma torta de limão e um pudim de claras, estava a foto.

Era uma festa de aniversário. Uma criança soprava velinhas, adultos com empenho de retrato sorriam em volta e, no canto direito da mesa, eu, de vestido azul-marinho, segurando um copo de refrigerante, rindo de alguma piada que, claramente, não era minha.

Nunca usei aquele vestido azul-marinho. Nem conhecia aquelas pessoas. Mas era eu.

A mesma cicatriz no joelho direito. A mesma forma de inclinar a cabeça ao rir. O mesmo sorriso de quem não entrega tudo.

No verso da foto, em caligrafia desconhecida, estava escrito: “Ana, 10 anos. Aniversário da amiga. Setembro de 1993”.

Guardei a foto na carteira, certa de que era apenas uma semelhança curiosa. Afinal, todas as crianças se parecem de alguma forma. Não é?

Duas semanas depois, outra foto.

Numa loja de antiguidades, abafada por santos descascados e discos de vinil, havia um porta-retratos que ainda guardava imagem. Casamento: noivos ao centro, parentes sorridentes cercando o casal e eu, no fundo, de vestido verde, abraçada por uma senhora de cabelos brancos.

Nunca usei aquele vestido verde, tampouco conhecia aquelas pessoas.

Escrito no verso da foto, em tinta desbotada: “Casamento Pedro e Dora. 2008. Sítio Esperança, km 18, Estrada Velha”.

Paguei os dezessete reais anunciados, sorri para a moça do balcão, com o mesmo sorriso do retrato, e me carreguei para casa.

Na mesa da cozinha, coloquei, lado a lado, as duas fotos. Em uma, dez anos. Na outra, vinte e cinco. As datas coincidiam com a linha da minha vida, porém não havia lembrança — nem da festa, nem das pessoas, nem daquela mulher que me abraçava, nem dos vestidos verde e azul-marinho.

Olhei minhas fotos antigas. O rosto era o mesmo, mas os vestidos, não. Eram vermelhos, pretos, brancos, cinzas. Tinha uma cor de abóbora. Achei um azul clarinho. Nenhum verde. Nenhum azul-marinho.

Lembrei da palavra esquisita que a psicologia deu para quem enxerga rostos familiares por aí: pareidolia. Pensei que fosse isso.

Ou coincidência.

Ou algum tipo de nostalgia emprestada.

Tentei esquecer, olhar para frente, mas as fotos continuaram a aparecer. Não era exatamente uma busca, era um reconhecimento. Meus olhos já sabiam o que procurar em antiquários, sebos, feiras de antiguidade. Lugares que sempre frequentei, mas que agora pareciam casas que desocupei e deixei vestígios.

Me vi em uma formatura de escola, sem o dente da frente, com beca e tudo. Num Natal, ao lado de uma árvore dourada cheia de bonequinhos de neve. Num jardim, segurando um bebê com cara de choro, e uma anotação à mão, atrás da foto: “Batizado da Luísa. Rua Basílio Queiroz, 32”.

Em cada foto, uma versão de mim. Mais falante. Mais introspectiva. De cabelos longos, cacheados, curtos. Rindo largo ou com o olhar de quem escuta mais do que fala.

Havia uma com cara de intelectual, segurando um livro que nunca li. Em todas elas, sem exceção, eu parecia feliz.

Nem sempre estou feliz em minhas próprias fotos.

A primeira a me reconhecer foi a mulher dos bolos, numa padaria que entrei apressada para comprar uns sonhos que prometi levar para um daqueles insuportáveis aniversários de colegas de trabalho.

“Minha filha, que saudade! Faz tempo que não aparece…” — e me abraçou com a intimidade de quem conhece o aroma do outro. Ela cheirava a canela e fermento fresco.

“Desculpe, acho que me confundiu com alguém.”

Ela recuou, franziu a testa e estranhou.

“Como assim, Ana? Você é amiga de infância da minha filha!”

“Meu nome é Carolina.”

Ela me olhou como quem vê uma lembrança se esfarelando na frente dos olhos, mas sorriu depois, com uma tristeza contida.

“Claro. Perdão, menina. É que você é muito parecida.”

Paguei e saí apressada, quase deixando os sonhos caírem.

No dia seguinte, voltei. Ela parecia me esperar. Me levou para o fundo da padaria, apontando uma parede decorada com várias fotos. E lá estava eu, em uma delas, usando o mesmo vestido azul-marinho da foto que trazia na carteira.

“Essa é a Ana. Ela é diferente de você”, disse a mulher dos bolos. “Mais barulhenta, acho que mais corajosa também. Vivia se metendo em confusão. Você parece que vive com medo. Desculpe, isso é coisa que só velha pode falar para jovens. Mas o rosto… esse é o mesmo.”

O rosto é o mesmo. Não parei de pensar nessas palavras.

Resolvi ser corajosa também, como essa Ana, e passei a seguir os rastros que as fotos deixavam.

Em uma delas, que achei em uma feira de antiguidades na praça da igreja, havia uma casa vermelha e um endereço anotado à mão, no verso. Quando cheguei, o vermelho tinha sido trocado por um branco encardido. Bati na porta querendo que não atendessem, sinal de que ainda não era como Ana. Mas a porta foi aberta.

Fui recebida por uma mulher usando avental de filme antigo, que me deu um abraço apertado de saudade. Corajosa, retribuí o abraço.

“Isabel!”

Vieram outras pessoas. O adolescente de camiseta preta hesitou.

“Não… ela tá diferente.”

“É o cabelo”, disse alguém. “Ela cortou.”

Fiz sinal de tesourinha com os dedos. Todos riram.

Fiquei. Comi. Sorri. Tirei uma foto.

Ouvi histórias sobre mim que não eram minhas. Medo de trovão, talento com sanduíches, campeã de truco.

“Você tá mesmo diferente”, disse o homem da churrasqueira. “Parou de comer só salada, bom demais!”

Saí da casa branca encardida tarde da noite, como se a tivesse conhecido vermelha.

O sítio Esperança foi até fácil de encontrar. Reconheci de imediato a paisagem que estampava a foto do casamento. Assim como na casa vermelha, as pessoas da casa de madeira me receberam com uma alegria desconhecida.

“Vó, olha quem voltou! Marcela, que saudade!”

Foi na varanda da casa de madeira que as coisas se desorganizaram. Ou reorganizaram-se.

Eu, ou Marcela, pendurada na parede, fazendo pose em frente a uma janela, olhando o horizonte. No reflexo atrás, figuras conhecidas. Pessoas das outras famílias. Todos reunidos num espaço que, oficialmente, não era comum a ninguém.

“Quem são essas pessoas?”, perguntei.

A avó ajeitou os óculos.

“Uai, nunca reparei. Parece gente refletida na janela… mas ninguém estava ali.”

Estava. Eu sabia. Sabia exatamente quem estava.

Espalhei todas as fotos na mesa da cozinha. Dezenas delas. Vidas condensadas em sorrisos congelados. Peguei uma lupa e pude ver: reflexos em vidros, em óculos, em colheres. Fragmentos de outras vidas sempre ali, como se todas essas versões existissem ao mesmo tempo, ocupando o mesmo lugar, só que em camadas diferentes.

Peguei um espelho e, por um instante, meu rosto oscilou. Não em forma, mas em expressão, como se o reflexo respirasse outras versões de mim. Como se o vidro reconhecesse todas elas antes de mim.

Peguei minhas próprias fotos. Procurei. Nada na maioria. As outras de mim só apareceram nas fotos em que eu estava feliz de verdade. Poucas.

Mantive as fotos por um tempo, dentro de uma caixa de sapatos, até que um dia, enquanto caminhava por uma feira de artesanato, uma menina me apontou e disse:

“Mãe, é ela! A que faz as panquecas redondas!”

A mulher virou devagar, me sorriu com os olhos e disse:

“Achei que você tinha se mudado.”

Não respondi. Ela continuou andando, puxando a filha pela mão, como se nada na vida fosse extraordinário.

Parei de colecionar depois disso.

Às vezes, ainda me vejo, por acaso, em vitrines empoeiradas, em cartões antigos, em sonhos que não sei de quem são. Não sei quantas famílias me tiveram, mas todas me olham como se eu ainda fosse voltar.

E quando alguém me cumprimenta na rua com intimidade demais, eu devolvo o sorriso.

Porque talvez eu conheça.

Talvez seja alguém que uma de mim já amou.

1º Bula Prêmio de Conto
Soraya Ferreira de Castro

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