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Pantera indefinida, desgraçada e bela

Pantera indefinida, desgraçada e bela

Quando o médico disse que o menino estava quebrado, sem conserto, Dina, a mãe, mergulhou dentro de um poço. O pai olhou a profundidade, mediu, deu dois passos para trás e conseguiu nunca cair nem escorregar até o dia de ir embora.

Estatelada lá embaixo, achando o ar muito fino, com frio nos pés, Dina voltava rapidamente quando ouvia o choro da criança. Apesar de nunca ter escalado nada, acostumou-se a entrar e sair daquele poço e o fazia com uma agilidade surpreendente para uma mulher de sua compleição e idade. Porque subia perdendo as unhas, pensando mais na firmeza de uma raiz para segurar e no que um choro específico do menino queria dizer, não percebeu uma criatura seguindo-a. Além da bagunça e dos gritos produzindo redemoinhos na cabeça da mãe, a criatura era elegante e extremamente silenciosa. No escuro, só se viam dois pontos amarelos cortados ao meio. A sutileza do corpo se misturava com o escuro das paredes e, quando a cauda apareceu na sala, parecia ter chegado por encanto. Mesmo que houvesse alguém para prestar atenção, jamais teria percebido o bicho seguindo a mulher pelo caminho, parado atrás de um arbusto, tão grande quanto sorrateiro.

Não era a ingratidão, era outra pantera.

Sempre ocupada, a mulher demorou a perceber a visita. Às vezes, sentia um vento de gato passando em suas pernas; chegou a achar que era a sombra de seus pensamentos lhe observando de longe. Só quando os móveis começaram a aparecer arranhados teve certeza de uma presença felina. Antes de dormir, passou a deixar um pires de leite, que acordava vazio. Em resposta, a fera riscou o piso de madeira e o plástico cobrindo a mesa: “Obrigada, Leopoldina”.

Um dia, enquanto aproveitava o sono da criança para chorar no sofá, a pantera se aproximou. Parecia uma moça. Esguia. Charmosa. Sentou-se ao lado de Dina e encostou a cabeça no seu ombro. Dois dos bigodes furavam o vestido de algodão na altura da axila, mas a mulher não se incomodou. Outra pessoa teria fugido, mas Dina já esperava. O animal rondando seu apartamento havia muitas noites lhe dava uma sensação nova de “quem vem lá?”. O tamanho descomunal era apenas um detalhe para explicar os arranhões profundos e a perfeição do entalhe de seu nome. Ao contrário do medo, gostou de sentir um morno de vida próximo, encostado ao longo do corpo, do ombro aos pés.

Era uma pantera amiga. Nunca tirava os lindos olhos de Dina. Seguia cada um de seus trabalhos pela casa; do alto do guarda-roupa, acompanhava os exercícios respiratórios e miava alguns segundos antes do início de cada crise. Não dormiam juntas nas noites de febre, comiam qualquer coisa quando o cansaço era muito grande. A campainha e o telefone nunca tocavam e, por isso, podiam viver uma para a outra. Leopoldina quis chamá-la de Amália, mas a pantera não gostou. Todos os dias recusou um nome até ouvir Leonora.

— Leo, querida, você ainda está aí?

A pantera nunca saiu nem para sentir o ar da noite. Não pensava em mais nada: cuidava da criança e se entediava com a insegurança de Dina. Era muito evidente que, enquanto não houvesse mais ninguém, estaria sempre ali com os dois. Também amava o pequeno. Leonora era pura fidelidade.

Por sua vez, Dina não estava acostumada com criaturas que ficam. Queria saber o dia e a hora em que Leo ia se cansar e dizer adeus. Não conseguia entender por que Leo não fazia como todo mundo e ia embora. Não acreditava nas palavras de certeza e buscava coisas no profundo dos olhos do bicho. Começou a achar que a pantera estava perdendo a cor. Um dia achou que ela estava albina. No outro, sentiu dor ao perceber que a criatura estava perdendo o preto e ficando avermelhada. Até duvidou se não seria uma onça. E as perguntas não cessavam:

Será que a vontade de ir embora estava estragando seu pelo?
Existe pantera branca?
Pantera azul?
E pantera que não come criança?

Dina não sabia o que sentir. Algumas vezes, achava que tudo era um plano para devorar seu filho. Noutras, sentia estar matando a essência da pantera; aquele homem lá dizia essas coisas e, se estivesse certo, seu passo destruía sentimentos… Ah, pobre criatura, completamente indefinida, presa num apartamento minúsculo, desgraçada e bela. Será que sentia saudade de uma cria que perdeu?

Dina não conseguia entender por que Leo não fazia como todo mundo e ia embora. Passou a confrontá-la, dizer loucuras, gritar coisas que acelerassem o abandono. Também passou a duvidar se realmente queria sua companhia. Sentiu medo de suas garras. Leonora ficava deitada no sofá, o corpo todo enrolado, os olhos fechando calmamente, como se não ouvisse nada. Com o tempo, acostumou-se com o barulho da mãe cansada. Tinha certeza de que a vida seria sempre daquele jeito: Dina cuidava, temia, gritava. Passou a dormir profundamente a maior parte do dia; suas garras também não lhe deixavam ajudar muito. Não fosse esse sono pesado para fugir das lamentações, teria pulado no meio e impedido a mulher de matar o filhote.

Quando abriu os olhos, já era tarde. Apenas lambeu o menininho. Com raiva e com pena, não podia fazer mais nada. Também duvidou de suas cores, se ainda podia ser pantera. Pensou em fugir, mas o vazio e o vento seco nos olhos de Dina eram sua coleira. Foram juntas até a polícia.

1º Bula Prêmio de Conto
Simone Magalhães Brito

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