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Passeio

Passeio

Esfrego os pés no tapete velho para tirar a terra, antes de entrar com o pé direito, como ensinou minha mãe. Com os olhos apertados, ajusto a visão para enxergar o cômodo escuro, sem sucesso. Então caminho, me guiando pela luz da porta, até encontrar o rumo das cortinas. Abro a janela para que o ar de fora se junte a mim, renovando o ambiente, e depois espirro.

A janela da sala é enorme e me mostra o quintal coberto por um mato alto. Nenhuma casa se apresenta na paisagem. É de manhã e o sol brilha forte, iluminando a trilha de formigas que desce pelo batente descascado da janela. Observo o caminho que elas percorrem pela parede, até encontrar uma fotografia escondida no rodapé.

A imagem desbotada repete a mesma vista da janela. Meu tio-avô aparece jovem, na parte externa da chácara. Deve ter mais ou menos a minha idade e está com a grama na altura dos tornozelos. As pontas queimadas das plantas me avisam que o mato cresce livre, no presente e no passado.

Tiro uma foto com o celular e coloco, lado a lado, as versões analógica e digital, imaginando quantas décadas cabem entre elas. De volta ao interior da sala, observo como os móveis estão bem cuidados. No meu pequeno apartamento alugado, esses móveis enormes não passarão pela porta. Mesmo assim, quero carregar tudo comigo. Meu tio-avô teve seis irmãos e três filhos; entre doenças, acidentes e acasos, todos desapareceram. A realidade se instala: a chácara é minha e, dentro dela, são meus também a casa, os móveis e o mato que preenche o terreno. Sento no sofá como uma rainha.

Ele faz um barulho engraçado enquanto a estampa em alto-relevo acaricia as minhas pernas. Passo as mãos pelo tecido, até que os dedos encontram uma fotografia camuflada entre o encosto e o assento. Meu tio-avô surge sentado no sofá, olhando diretamente para a câmera. Sua aparência é um pouco mais velha, com cabelos grisalhos.

O celular, equilibrado na mesinha de centro, me ajuda a replicar a imagem. Ao olhar a foto, encontro semelhanças com o tio. Nós dois temos olhos fundos e marcados, com a carne ao redor meio mole. Meu estômago ronca e lembro que só tomei um café preto quando acordei.

A primeira porta do corredor é a da cozinha; os eletrodomésticos continuam ligados na tomada, mesmo sem energia elétrica na casa. Uma luz tímida entra pela janela basculante. O ambiente é grande e abafado, do tamanho da casa em que morei quando criança. A saudade dos meus pais vem para me lembrar de que tudo passa.

Trombo em uma prateleira e a sujeira cai sobre a minha cabeça. Quando limpo, o dedo médio enrosca nos fios. Puxo com força e o cabelo vem branco, o primeiro fio que acho dessa cor. Se você arranca um, nascem mais quantos? Na geladeira, até as forminhas de gelo estão vazias. Sigo em direção ao armário e encontro um pacote de bolacha água e sal, ainda na validade. Mastigo com calma, enquanto examino a cozinha.

Tenho certeza de que o celular marca entre nove e dez da manhã, mas, ao conferir, vejo que já passa do meio-dia. O relógio de parede discorda e avisa que, na verdade, são quatro horas da tarde. Ao lado dele, um calendário de bichinhos continua preso ao mês passado, com um círculo feito no dia em que o tio morreu. Tiro da bolsa uma caneta e marco a data de hoje.

Quando tento beber água da torneira, o líquido não desce pelo ralo. Percebo que algo interrompe a passagem da água. Enfio o dedo no ralo e retiro de lá um papel amassado. É uma fotografia do meu tio; nela, ele surge ajoelhado e aponta para a parte de baixo da pia, que está fechada com uma pequena cortina xadrez.

Afasto o tecido para dar uma olhada, depois me ajoelho e retiro, um a um, todos os produtos de limpeza. Com a lanterna do celular, consigo analisar melhor e encontro um pequeno rolo de papel, escondido na volta do cano. Vou forçando sua saída, e ele desliza pegajoso.

Será mais uma lembrança do tio? Pelo que sei, ninguém visitava a chácara. O vizinho jurou ter passado a chave na porta, pelo lado de fora, após topar com o tio caído no quintal. Se conheciam há muitos anos, porém nunca tiveram uma relação próxima. E por aqui ninguém entra sem pedir licença.

O rolo de papel me mostra mais fotografias — dez no total —, todas do meu tio-avô na cozinha, em épocas diferentes. Ele veste um casaco vermelho, elegante e antigo. Do bolso da calça, retiro as outras duas fotografias e constato que ele está vestindo as mesmas roupas. Em uma das fotografias, ele faz uma pose de cócoras sobre a mesa de jantar; já na outra, se equilibra em uma perna sobre a cadeira. Em todas as imagens, o tio mantém os olhos fixos na câmera.

Decido reproduzir a última foto, com o tio sentado no chão, ao lado da pia, mas a bateria do celular acaba. Organizo as imagens na sequência que julgo cronológica, e o resultado revela uma espécie de dança. Ao longo dos anos, o tio criou sua própria coreografia. Eu poderia descrever mais detalhes, porém minha visão está embaçada. Fecho os olhos e me imagino dançando.

Tento me levantar e o joelho estala; em seguida, a coluna risca uma dor que passa pela bunda e escorrega na perna, até encontrar o calcanhar. Urro ao cair sentada, sem amparo. O desespero aumenta quando vejo o tio de pé, parado no meio da cozinha, vigiando meus movimentos. Tenho a impressão de que ele sorri. É só um palpite; as lágrimas não permitem que eu enxergue seu rosto. Viro de costas para fugir da cena. Ele me oferece água, mas eu já perdi a sede.

Agarro a pia e, no trabalho conjunto dos braços e das pernas, me levanto com muito esforço. Estou tremendo, não sei se pelo cansaço, pela dor ou pelo susto. O tio desapareceu. Será esse o meu futuro? Viver sozinha na companhia de fantasmas? Coisa de gringo achar que os espíritos vivem no porão; no sul do mundo, eles ficam na cozinha, onde tudo acontece. O suor frio escorre pelas minhas costas, e aproveito a adrenalina para correr.

Ou, pelo menos, é o que tento fazer, uma vez que os passos saem estreitos e em câmera lenta. Abro a segunda porta do corredor e dou de cara com o banheiro, o cômodo mais iluminado da casa. Jogo muita água no rosto e, sem aviso, me vem uma vontade de mijar. Um pouco no chão, um pouco na calcinha e um pouco na privada. Enquanto estou sentada, um pensamento anda apressado pelo corredor: preciso conhecer o resto da casa antes do pôr do sol. Nesse momento, descubro que acabou o papel higiênico.

Fico novamente em pé, com a ajuda do apoio de metal fixado na parede. O tio era um velho precavido. Vou até o espelho na ânsia de me ver, mas está oxidado. A ferrugem começa do lado esquerdo e desce em uma grande abertura diagonal, um jato de xixi que cobre quase toda a superfície. Os pequenos espaços livres refletem somente as laterais da cabeça; me espanto ao ver como minhas orelhas estão grandes.

Descolo o espelho da parede e encontro um buraco. Nele, mais uma fotografia. O tio pisca para mim, porque é preciso ser esperto nessa família. A imagem, em perfeito estado, destaca os cabelos do tio, agora brancos e ralos. Subitamente, fico muito cansada e me inclino para aguentar o peso dos ombros. Escoro meu caminho até o quarto e sou envolvida pelo breu, enquanto torço para achar um lugar para descansar. Me jogo com brutalidade sobre a escuridão e pouso em um colchão fino.

Meus pés acordam antes do resto do corpo; balançam perdidos e infantis para fora da cama de solteiro. Os tornozelos se incomodam, querem mais minutos, porém os joelhos e coxas protestam, sacudindo a bunda. O resto do corpo — cintura acima — aguarda o espasmo que vem a seguir. É um despertar violento, e sinto, imediatamente, os papéis grudados em mim.

Estou deitada em fotografias e adivinho o que acontece. O tio aparece em todos os cantos do quarto, vestindo o casaco vermelho, acompanhado de várias cores e texturas de cabelo. Sempre me encarando, às vezes sorrindo pela minha falta de cuidado. Eu pressinto cada respiração, antes mesmo que ela saia. Tento me concentrar no barulho que o mato faz ao redor da casa e choro.

Queria ter o conhecimento das horas. Só que primeiro preciso abrir a janela e encontrar o sol novamente. Era isso que o tio estava fazendo lá fora. Fico em silêncio para acostumar meus olhos à escuridão, até que as formas do quarto ganhem contornos cinzas. Me vem uma ânsia de ser criança, contar novamente as voltas do relógio. A vida dividida em duas etapas: a infância e a velhice. O meio é espera ou saudade.

Quando caio da cama, o chão gelado rouba o calor do meu corpo. A boca seca me faz lembrar da última vez em que bebi água. Eu tinha quatro anos e aguardava os adultos, parada na porta da cozinha dessa casa. O tio me servia água em um copo de requeijão, enquanto conversava com meus pais sobre herança. Eu, menina, matei a sede e saí andando entediada. Inventei uma caça ao tesouro para explorar os cômodos. As sandálias curiosas pararam ao lado da cama. Agachei para espiar.

Estico meu braço para ter a certeza de que ainda está lá. A caixa de sapatos sai com dificuldade, mais pesada do que antes. São muitas pessoas; eu não conheço quase ninguém. O tio, sentado na cama, disse que as fotografias eram da família e da nossa história. Respiro fundo para sentir o cheiro de guardado. O olfato é a última coisa que vai embora da memória. O tio me prometeu que, em cem anos, tudo isso seria meu. Eu não sabia contar e imaginei um caminho sem fim.

Não entendo como consigo me levantar; o corpo age pelas minhas costas. Largo a caixa de sapatos e vou até a janela. O tio está morto lá fora; o tio também está sentado na cama, sorrindo, porque cem anos pode demorar o tempo de um passeio pela casa. Abro a janela e, em vez do sol, me deparo com a lua.

Escondida no fundo do guarda-roupa, encontro a câmera instantânea do tio. Também quero fazer parte da caixa de sapatos. Estico o braço, as juntas estalam, e a foto sai perfeita. Meus cabelos prateados e a pele riscada de décadas. Sinto uma pontada de alegria no peito. Se alguém me encontrar aqui, saberá que a casa também é minha. E que eu pertenço ao instante dela.

1º Bula Prêmio de Conto
Bianca de Angelo Banzato

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