O pai aumenta o volume da televisão. A granja já está cercada por várias camadas de tela; o arame resistente se entrecruza em flores que só permitem a passagem do ar. Os pregos, segurando as pontas da malha prateada, também são brutos e apropriados para rasgar a pele de cachorros atrevidos. Antes do fim da reportagem, o homem já está roncando.
“Os cientistas ainda não encontraram uma explicação para a origem dos lobos invasores. Espécimes coletados para amostra não apresentaram nenhum sinal de doença ou malformação. No entanto, o mistério permanece sobre a causa de seu movimento e capacidade de reprodução.”
As imagens feitas por um drone acompanham o ritmo compassado dos bichos. Do céu, parecem uma massa cinza e poderiam ser gado ou elefantes. Quando a câmera se aproxima, as cores variam e as pontas firmes das orelhas e o flocado das caudas não deixam dúvida de que são lobos.
Uma bióloga jovem fala pausadamente e, com a boca, tenta modular a calma científica que seus olhos já perderam:
— Podemos dizer com segurança que se trata de animais da espécie Canis lupus. A hipótese de se tratar de Aenocyon dirus já foi descartada.
— E o que desejam? — pergunta o repórter imediatamente.
— O que desejam os lobos?
— Sim, por que estão viajando do Alasca até aqui? São uma ameaça para o Brasil?
— Infelizmente, ainda não temos estudos seguros para garantir qualquer informação.
— O que a ciência sabe, então?
— Sabemos que são lobos. Milhares de lobos que viajaram da América do Norte e já chegaram em Pernambuco. Além disso, os lobos-guarás, apesar de não serem exatamente lobos, também já estão se movimentando. Tudo indica que se encontrarão no sertão mineiro. Os lobos do Alasca iniciaram o processo, mas todos os canídeos os acompanham. Já foi confirmado que não resta nenhum canídeo no sul dos Estados Unidos e no México. Aqueles, especialmente pets, que se tentou manter em cativeiro morreram tentando fugir.
A mãe desliga a televisão. Já era hora de dormir. O menino implora, quer saber a hora em que os lobos vão passar, mas deve esquecer aqueles cachorros infelizes.
— Era só o que faltava…
O irmão mais velho diz que é preciso colocar Belinha e Tilda na coleira. É verdade que os cachorros de rua e de casa estão todos indo embora junto com a multidão de lobos. A mãe pensa que Elvis vai voltar, mas o irmão garante aos berros: aquele cachorro não vale nada e já fugiu para encontrar os outros.
A mãe prometeu que não ia mover mais um músculo; as mãos já estavam rasgadas de trabalhar na tela para proteger as galinhas. Se aquelas duas malagradecidas quisessem, que fossem embora. E, se alguém pedisse mais alguma coisa — qualquer coisa —, quem ia acompanhar os cachorros até o inferno era ela.
O menino espera os irmãos dormirem e finge estar jogando no celular embaixo das cobertas. A irmã pergunta quantas partidas ele já perdeu. A mãe dá o último grito de “vai dormir, pelo amor de Deus”.
Se o site de rastreamento dos animais estiver correto, os lobos passarão pela estrada antes do sol nascer. A mochila com os pães e uma garrafa de água já está pronta. O tênis, ao lado da cama. Quando tiver certeza de que toda a família dorme profundamente, vai sair pela porta da cozinha e esperar do lado de fora da cancela. Não vai fechar os olhos porque sabe que dorme pesado. Quer encontrar o exército de frente, tratar diretamente com os líderes. No caminho, não vai esquecer de soltar Belinha e Tilda das cordas que o irmão prendeu. Encostou a cabeça no travesseiro apenas para ensaiar tudo o que diria aos lobos.
Abriu os olhos com o primeiro canto do galo. Que imbecil que era. A sorte é que Tetéu era um galo desorientado; certamente ainda faltava muito para amanhecer. Quase não fez esforço para soltar as cordas de Belinha e Tilda, pois já estavam muito roídas. Correu com elas. Infelizmente, apesar de ser muito rápido, quando pulou a porteira e chegou à estrada, muitos do grupo já tinham passado. Resolveu entrar no meio da multidão mesmo sem pedir autorização aos líderes. Os bichos reconheceram sua chegada, mas não lhe mostraram os dentes. Estavam todos compenetrados no caminho à frente.
O menino escolheu um lugar bem no meio do bando, como se tentasse se esconder entre um lobo cinza maior que ele e dois vira-latas de rabo fino. O ritmo das patas era pesado; foi preciso apertar o passo. Em alguns momentos, sentia que precisava correr.
Para um menino, o caminho era penoso. Os bichos se acumulavam no centro da estrada e gostavam do calor produzido pelo encontro dos pelos. O calor que subia do asfalto era agarrado pelas patas e, em sua maior parte, acalentado entre as barrigas. Eram muitos, mas se aproximavam e se equilibravam nas ancas uns dos outros, de modo a se movimentarem como se fossem apenas um grande bicho pelo caminho — uma única massa de pelos que o vento agitava.
O que fluía sem esforço do corpo dos bichos exigia muito empenho para o corpo do menino. Só tinha dois pés; não sabia o que fazer com os braços. A pele queimava, e tinha a impressão de que seu banho de suor podia incomodar os animais.
A hora de dormir era mais tranquila. Muitos lombos se ofereciam em travesseiro. As caudas cobriam suas pernas. Frio, nunca mais. Depois de lhe ignorarem o dia inteiro, Belinha e Tilda se chegavam com um osso ou um pedaço de pão sujo de terra. Depois de uns dias, arrancou as roupas, jogou fora os sapatos; a mochila ele tinha perdido no primeiro dia. Finalmente, nasceu a pele de que precisava. Os bichos já gostavam do seu cheiro; seu suor não era mais estranho. Quando os olhos e as pernas se acostumaram com o ritmo da caminhada, as unhas já estavam pretas como deveriam.
A criança achava que tinha crescido e chegado em seu mundo quando, uma noite, um grupo de lobos líderes se aproximou. Vieram da Bahia, da frente do exército. A ordem era clara e estava escrita nos focinhos:
— Vá embora. Esse caminho é da família dos lobos.
O menino quis gritar que era um lobo, mas lembrou que isso não ajudaria em sua defesa. Gritou um grito puxado das tripas. Quis gritar:
— Eu sou um lobo!
Mas seu choro disse:
— Eu sou um lobo, por favor, tenham pena de mim!
Os lobos riram.
Mostrou os pés cortados. As mãos.
Uma loba, a última ainda coberta com uma longa capa de pelo preto invernal, veio e lambeu suas mãos; depois, lambeu seu rosto.
Ele era um lobo e tinha mãe.
No entanto, um dos lobos, o mais jovem, ficou muito irritado e disse em voz alta e clara, com um profundo sotaque do sertão de Pernambuco:
— É um menino. Eu conheço a família dele toda. Podem mandá-lo de volta.
O menino chorou como se nunca tivesse tido família:
— Eu sou um lobo, eu nasci um lobo. Que culpa eu tenho se ninguém consegue ver?
Em sua angústia — que não era de menino apenas, mas de qualquer animal —, mostrou as patas. Saiu apresentando as patas para todos os bichos, de um em um: os lobos, os lobos-guarás, os cães de rua, os cães-vinagre e até os gatos que já tinham se juntado ao bando.
Patas queimadas.
Todos concordaram. Até o lobo jovem e arrogante sabia que não podia desrespeitar patas queimadas. Pediu desculpas.
Quando voltaram a correr, o menino puxou bem o ar pelo focinho e se sentiu mais forte. Apertou o passo.
Força para subir a Serra do Mar.
Em poucos dias, se encontrarão com o Minuano.

