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Pela estrada de tijolos amarelos

Pela estrada de tijolos amarelos

NO PÉ, SE É QUE OUVIDO TEM PÉ — plaft! O tapa pegou em cheio e, lá dentro: cloaca! Não a coisa em si, só o som da palavra: “cloaca!”, de miolo chacoalhando e que, depois, se quebrasse — o barulho. E tum! Meu corpo caiu de banda, assim: …

De acordado, só dei por mim tarde, bem mais depois. Quando abri o olho, o mundo tinha virado, ó, de perna pro ar: … Era o mundo não, era eu — eu que eles penduraram, molhado, pelado. Senti um frio no corpo todo e um mais-frio no rabo — e não era friagem: era dentro. Besuntaram um trem lá, gelado, enquanto eu não tinha sentido e, pior: outro trem tinha lá dentro, de-enfiado — sem meu consentimento, entende como é? Vexamoso de dizer, que eu sou é de brios. Homem-homem. Garantido.

Apesar que mulher, cá à parte, eu até já consenti, certa feita — o dedo mais fininho — que, se era por gosto dela, se ela ficava, como se diz?, entusiasmada, e gozava, eu fazia gosto também. A gente se deitou em parceria combinada, pra tirar o proveito todo — os dois — né, não?

Então eu lá, vendo eles do contrário, daqui ó, dos joelhos pro pé. Veio um que baixou a cabeça de lado, assim, ó, virou e disse que eu dissesse o que ele queria escutar.

— Digo não.

O sujeito desbaixou a cabeça e, com um sinal, eu só senti que o besuntado fritou — uuh! — doeu queimando, misturado com dor de ferrão de marimbondo-tatu, que ele deixa de lembrança, encravado. Já sentiu?

Teve bis, tris, e foi. Entrou pela noite — ou era dia ainda? — e foi: não sei aonde, até que foi a agonia.

ISTO NÃO É COISA QUE HOMEM CONTE, sem vergonha — vergonha eu tenho, sim —, mas é que, se a gente não conta, ninguém sabe. Até que um filho, a mulher, um amigo, um pai…

Vergonha maior é o homem entregar outro no espontâneo, sem o cacete: perguntou, respondeu. Que, de outra forma, debaixo de durindana, no cepo, atochado no rabo, o couro comendo no frio da madrugada, a maquininha rrr-rrr-rrr-rrrrrrr — aí cada um tem seu limite. Há que se entender e conformar.

Certa feita me contaram de um que falou antes do primeiro tabefe, no caminho ainda, no escuro do corredor, só de saber o que lhe vinha. Limite curto, o dele, mas justificável: há gente que se caga antes — sem desmerecer o pobre —, de fraco natural mesmo ou no engano de achar que escapa. E não escapa. O couro-come continua no fim do corredor. Tudo o que se disser é pouco revelado, e eles querem saber mais: o tudo, o acontecido e o inventado.

E, muita vez, não te batem: conversam. Falam de um tudo — da sua mulher, dos filhos esperando, da família, do dia a dia. Coisas que a gente só lembra de lembrar nessas horas em que achamos que vão depressa demais — e curtas. A vida é breve, é.

Eles falam com a voz macia, leve, doce, mas que dói como patada de mão cheia. E dói porque a gente sabe que o falar é só a véspera do coice traiçoeiro que lá vem, outra vez, no pé do ouvido. Agem no psicológico, que desmonta a gente — plof! — e o sujeito dá o credo, a ladainha, as ave-marias todas. Amém.

E, se mulher? — que tem coração mole pra filho, família, homem? Aí é o feio. Poucas vi que não gritassem — antes até da sessão. E, se se calavam, é que eles já tinham estourado o limite do suportável delas. Já não reagiam.

Sabe lá o que é estar ali, com aqueles homens todos, abusados, pegando, passando a mão, ó, e ó!, que nem bicho no cio? Já viu os olhos de uma mulher nessa hora? Eu nunca vi. Imagino: envidrados, pasmos, mortos-vivos, de quem se passou desta num susto grande, assim: …

Muitas morreram. Muitos morrem ainda. Uns poucos sobreviveram; algumas, pra contar, fazer relato do sucedido nos subterrâneos, do dia a dia de lá. De outros não se tem notícia: desapareceram. Só ficaram os gritos, em eco nas paredes; o sangue que o chão bebeu. Longas noites, longas jornadas adentro.

E EU:

Teve uma hora que puf! Outra vez tudo sumiu da minha vista. Só escutei um “filho da puta” escoando pelo ralo do ouvido, este que ainda ziiiiiiimmmm!, de cacete.

Acordei com uns grampos no pau e no saco e água fria descendo pelo nariz. Eu me afogando no seco. Um sujeito me mostrou um papel e disse que estava lá tudo-tudinho, que era pra eu assinar. Só isso. Daí eu podia até ir pra casa.

Olhei pra aquilo com um olho só — que era o que dava pra ver — mas que era irmão do outro, esperto tal e qual. Desconsiderei a proposta, desdenhei pelo rabo do olho, o são.

Um rego de água gelada me derramaram sobre o saco e ligaram a maquininha:

rrr-rrr-rrr-rrrrrrr!

Ai. Eu queria era morrer.

E foi.

A VELA: EU FALEI? Eu vi quando acenderam a vela, uma dessas de sete dias. Calculei que era o meu prazo. Numa fechada de olho, quando abri, me senti todo cagado e metade da vela tinha se acabado. Era a metade respingada no meu pau, no meu saco, com crostas endurecidas na beira do — sabe? — dor que nem senti e que, se sentisse, era fichinha, em vista do mais que me fizeram.

Vergonha nenhuma de relatar, também, como eu já disse (não disse?). De estar vivo, de poder estar aqui agora? Não-não. Vergonha mesmo é ainda hoje: são eles — autoridade constituída — que nós, eu, todos aqui, e mais quem está aí fora, colocamos lá. Com poder de mandar e demandar, fazer aquilo tudo e mais.

É como digo: cada roca com seu fuso, cada povo com seu uso — cada qual o que merece. Passarinho que come pedra…

ATÉ QUE ME DESCERAM. Fiquei sentado, a bunda na chapa fria da cadeira. A água de beber era a que eu conseguia aparar — a boca, á! — do balde que tchuof! me jogavam na cara, sem aviso, com os olhos vendados. E os telefones tocavam: plaft! plaft! plaft! — sem parar.

De novo: cloaca!

De novo, recusei o papel.

De novo, tum!

Papel nenhum que eu ia assinar, dizendo o que eu não disse nem o que eu pensava ou nem pensava. Minha ideia era minha, sem botar no papel coisa alguma. O juízo do certo e do errado, do reto e do atravessado, do justo e do não. Coisa de berço.

Saber o que é bom e o que é mau: o forte bater no fraco; o poderoso explorar o coitado; o rico, os pobres. Eu sabia, ó, aqui dentro. Justiça.

Deduragem eu não pratico, nunca pratiquei. Não ia entregar amigo nem conhecido — nem desconhecido. Assumir culpa que não era minha, também não. Nem por proteger quem culpa tinha, nem por bom-samaritanismo, nem por preço acertado.

Quem fosse culpado, que assumisse. Em cartório. Pagasse o de lei. É lei — ou não é? Sou besta?

MAS A VELA…

Daí acordei sem vela, com o silêncio e a escuridão. Os pulsos soltos de repente. Os olhos, sem venda. Os pés descalços no chão frio, molhado de sangue, cachaça, mijo, água do balde.

Com custo, e desconfiado, consegui me levantar. Tateei o derredor, as paredes sem reboco, frias, úmidas, até passar a mão no marco de uma porta. Fechada. Maçaneta. Chave. Giro. Fresta: fuga.

Questão de segundos, eu já corria por entre campos floridos de girassóis, sentindo o cheiro das folhas orvalhadas, refletindo os primeiros raios do sol. A alegria matinal dos pássaros, o barulho dos meus passos e da minha respiração ofegante.

O mais ainda era o silêncio de um dia que nem tinha começado direito. Os gritos ficaram pra trás, abafados pelas asas de borboletas multicoloridas. Crescia o som de um regato, uma cascata. Logo eu dava num veio d’água limpa, pura. Bebia, me fartava, esquecia o maldito balde. Quem sabe um banho digno, no remanso.

Tibum!

Liberdade.

Corri mais forte, recomposto, até alcançar uma estrada de tijolos amarelos, com lilases ao redor e flores silvestres de toda natureza — precisava ver. Uma tal 101 em Ré Maior, de Haydn, atravessava meus ouvidos. Doce.

Meus pés se elevavam do chão. Eu era pássaro. Livre. Senhor daqueles domínios intangíveis, céus.

Meus filhos corriam ao meu encontro. Meu cão fiel. Minhas musas, seminuas, diáfanas, generosas de seios, coxas e carícias. E ainda…

Quando me tiraram a venda, é que vi. Tomei tento.

Assinei o papel.

Confessei tudo o que queriam.

Me desculpem.

1º Bula Prêmio de Conto
José Carlos Barbosa de Aragão

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