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Porto fechado

Porto fechado

Ele segurava a xícara de café com as duas mãos, como se aquela fosse a única âncora em um mar de memórias que teimavam em afundá-lo. Era cedo, e a luz filtrada pelas janelas da padaria dava ao alumínio da mesa um tom opaco, de coisa que já viu muito, já sofreu muito, e agora somente resiste. As mãos estavam firmes. Não tremiam mais. Um ano havia passado desde a separação, e aquela firmeza era uma vitória modesta, mas sua. Só ele sabia o preço que pagara por ela.

No primeiro mês, as mãos tremiam até para beber água. No segundo, passaram a tremer por dentro, como se o terremoto tivesse migrado para debaixo da pele. E foi no terceiro que ele descobriu que a dor da ausência não era maior do que a dor da presença mal resolvida. A presença dela, que antes era lar, tornou-se uma ferida aberta que ele precisava aprender a costurar sozinho.

Tirou da mochila um texto impresso, já sublinhado, anotado. Era parte da terapia. Um trecho o paralisava:

“As doenças psíquicas, como a depressão, os transtornos ansiosos e os quadros psicossomáticos, são altamente prevalentes em separações de casais. A dor emocional pode se cristalizar no corpo.”

Ele havia sentido isso — nos ombros, na lombar, na vista que embaçava sem razão física. Era como se a tristeza tivesse adquirido forma, peso, densidade. Lembrou-se dos dias em que não conseguiu sair da cama. Do enjoo ao tentar comer. Do aperto no peito ao ouvir um simples barulho de chave na porta.

Esquecer não era um ato de vontade, era uma necessidade do corpo. Acordava suando, sentindo o gosto metálico do nome dela na boca, como se tivesse mastigado lâminas durante o sono. O estômago, antes cúmplice dos encontros, recusava-se a digerir até mesmo a saudade. Durante meses, ele tentou apagar cada traço: evitou os lugares que frequentavam, renomeou contatos, diminuiu o tempo de tela, desinstalou aplicativos. Mas nada impedia a lembrança de vir, mascarada de sonho, ou de cheiro, ou de música. O amor havia se transformado num veneno de liberação lenta, e ele, em um sobrevivente intoxicado.

Ela entrou com a mesma naturalidade de sempre, como se não fosse o epicentro de um terremoto que há meses resistia em cessar. O perfume floral tão conhecido chegou antes dela, invadindo seu espaço, inebriando, doendo. O corpo dele reagiu antes da mente: náusea leve, coração acelerado, um calor repentino nos ouvidos. Aquilo que o corpo guarda, a mente raramente perdoa.

Sentou-se sem pedir convite, como costumava fazer. Havia naquela ação uma espécie de domínio silencioso, como se ainda fosse possível ocupar aquele espaço sem resistência. Como se ele ainda fosse território dela.

— Um ano. Você está diferente. Mais forte — disse, com um sorriso que não alcançava os olhos. A voz dela ainda sabia o caminho até o nervo exposto, como uma faca que já conhece o lugar certo para cortar.

Ele olhou para o pulso dela. Ainda usava a pulseira que ele havia dado. As lembranças congeladas em cada pendente, como no dia em que ela riu da sua declaração de amor desajeitada. Uma entre tantas. Ele então compreendeu: existem rejeições que não moram nas palavras, e sim nos gestos que as acompanham. No sorriso torto, no olhar que desvia, no silêncio que dói mais que um grito.

— Raízes perecem quando são envenenadas, Laura — pensou. Sua voz não saiu. Ainda não aprendera a dizer o necessário: o medo de acordar os fantasmas o acompanhava.

Ela tirou de sua bolsa um envelope amarelado, recheado de fotos. Praia, falésias, sorrisos. Recordações de uma promessa que nunca se cumpriu. Ele não precisou tocar nas imagens para reviver o gosto salgado da ilusão.

— Lembra da Baleia? Você disse que me amava incondicionalmente ali, olhando a imensidão do mar. Disse que eu sempre seria sua riqueza.

Ele tocou a borda da xícara. Ainda quente. Mas não o suficiente para afastar o frio nas costas. Pensou em como o corpo dela cabia no abraço e em como, lentamente, esse corpo se tornou armadura. O que o afeto não protegia, a indiferença destruía.

— Lembro, sim. Jamais poderia esquecer. E você ainda é minha riqueza, embora intangível. Seu lugar jamais será novamente ocupado, pois dificilmente outro amor me atravessará a ponto de estar pronto, uma vez mais, a entregar o melhor de mim novamente. Por uma década, vivi com você, por você e para você. Há um ano, vivo com medo do sofrimento, e esse medo não me permitirá, em tempo algum, carregar outro coração em meu coração.

Ela hesitou. O sorriso desapareceu, substituído por um tremor leve nos lábios. O que ele via agora não era arrependimento, mas surpresa. Como se não esperasse que ele lembrasse da ferida com tanta nitidez.

— Eu estava brava. Coisas que se dizem… Você sabe. Você sempre soube perdoar, sempre me tratou com carinho, respeito. Foi, tantas vezes, meu porto seguro. Agora parece outra pessoa.

Outro trecho do texto lhe veio à mente: “A somatização pode ser também uma forma de gritar quando a alma está muda. A dor no corpo diz o que o coração não consegue organizar.”

Ele ergueu os olhos, finalmente. Não havia raiva neles. Havia cansaço. O tipo de cansaço que se acumula nos ossos, não nos músculos. Um esgotamento sem voz, sem lágrimas, sem espetáculo.

— Nada para mim é mais importante que o trabalho, cuja recompensa é prover a casa, a família. E você sempre soube disso. Te amei incondicionalmente até o dia em que teu desdém envenenou o que restava de mim. E, embora ainda te ame, e tenha esperado sinais nesse ano passado, sei que não devo alimentar fantasias, pois amor nenhum sobrevive sem dignidade.

O silêncio pesou sobre os dois. Ela procurava palavras. Não para pedir desculpas, mas para reescrever a história. A memória dela parecia seletiva, guiada por uma urgência de não ser responsabilizada. A dele, não. Essa era feita de cicatriz.

— A gente poderia tentar. Recomeçar. Juro que mudei.

Ele pensou no primeiro mês depois da partida. Nas madrugadas em que encarava o teto, tentando entender em que ponto foi que se perdeu. Nas mensagens apagadas antes de serem enviadas. Nos dias sem sair da cama. Na terapia. No corpo que deixou de escrever, de desejar, de cantar. Pensou no dia em que se sentiu culpado por não conseguir odiá-la, e depois se sentiu culpado por ainda a amar.

— O que você quer não é um recomeço. É um retorno. E eu não sou mais aquele homem. Você o matou. Eu somente enterrei.

As lágrimas vieram. Não as dele. As dela. Mas não era luto. Eram pela perda do controle, pela quebra da fantasia de que ele estaria sempre ali, à disposição. Como um farol que nunca apaga.

— Você não sente mais nada por mim? — perguntou, com a voz embargada.

Ele suspirou. A falta de ar, forte, típica das crises de ansiedade agravadas pelo quadro crônico de gastrite, fez com que os pulmões ficassem pela metade. Os dois sabiam que ele ainda sentia. Mas sentia como quem reconhece uma cicatriz antiga: sabe do que veio, lembra da dor, mas não deseja revivê-la.

— Sinto. Imenso. Mas escolho a tranquilidade.

Ela baixou os olhos. Quando falou, sua voz já não era a mesma de minutos antes.

— É estranho… como se agora eu tivesse colocado óculos e só agora enxergasse tudo o que não vi. A atenção que você me dava, o cuidado. Estava submersa em minha dor e não olhava para você. Disse até que você era a mulher da relação. Eu achava que isso era fraqueza. Mas agora vejo… era coragem. Era entrega.

Ele não respondeu. Havia coisas que só se escutavam uma vez antes de deixarem de importar.

Ela prosseguiu, em um tom que misturava desespero e lucidez tardia.

— Eu dizia que você fazia tudo errado. Que não prestava atenção. Que comprava tudo errado. Como se o erro fosse seu por tentar. Mas hoje vejo que o erro era meu, por não saber receber. Por achar que amar era só ser amada, e não cuidar.

Ele se levantou devagar, como quem move uma estrutura antiga. Pagou a conta, deixou a gorjeta. Ao sair, não olhou para trás e seguiu firme, com sua dor e com reafirmação das responsabilidades assumidas no final daquela vida a dois. A chuva ameaçava cair, e o ar cheirava a terra molhada.

— O porto está fechado — disse para si, enquanto caminhava.

E, naquele instante, sob o céu plúmbeo, rememorou a última recaída: aquela separação já havia sido anunciada; o lar já havia sido deixado mais de uma vez, mas foi da última vez em que estiveram juntos que ele, sem palavras, se perdeu em si. Sem saber falar “não”, sem conseguir distinguir sonho de realidade, aceitara encontrá-la. Viveu, mais uma vez, a ilusão da reconciliação; da retomada da vida que sonhara viver até o fim dos seus dias. Uma retomada igualmente breve e cruel. Na sequência, veio a confusão mental, o silêncio ensurdecedor que precede as crises, os ataques de ansiedade que o deixavam prostrado, incapaz de respirar. Para ela, ele se tornara um canalha oportunista. Para ele, aquela havia sido a confirmação de que mergulhara novamente na escuridão, com a sensação de que até os ossos pareciam dissolver-se em ácido. Lembrou-se da lâmina invisível na garganta, da voz que se recusava a sair, do vazio que engolia palavras e vontades. Agora estava claro: fora a última vez que se permitira aproximar do grande amor de sua vida, tristemente transformado em kryptonita.

E o que era para ter sido um sonho, se transformou em uma história sem vitórias. De sua última despedida, não saiu triunfante… Era, por fim, somente um homem que decidiu continuar respirando. Mesmo sem entusiasmo, mesmo com um corpo cheio de cicatrizes. Mas vivo.

E para alguns, isso já era milagre suficiente.

1º Bula Prêmio de Conto
João Paulo Vani

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