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Proveniência

Proveniência

O produto chegou pelo correio. Mas ele não tinha comprado nada. Tinha quase certeza disso. Voltando do trabalho um dia, encontrou o pacote na portaria. Examinou-o: uma caixa mediana, comum, embrulhada em papel pardo, sem identificação de remetente, nenhum logotipo ou marca que pudesse sugerir sua origem.

Primeiro, pensou que poderia ser para o morador antigo do apartamento, já que, mesmo depois de tantos anos, ainda lhe chegavam cartas e até uma intimação judicial, o safado. Mas o nome no pacote era o dele, correto até o detalhe do “o” cortado que denunciava sua ascendência nórdica. Essa precisão o fez teorizar que seria um presente fora de época de algum bom amigo. Se fosse isso, porém, seria uma iniciativa inédita e um tanto deslocada, numa época em que as pessoas já não enviam mais presentes, fora ou dentro da época, nem mesmo os poucos amigos que chegavam ao ponto de saber que o seu “o” tem um corte. Aliás, ele até gostava do fato de o “o” com corte ter desaparecido da sua vida; sentia-se integrado, nacionalizado, por assim dizer. E agora vinha um pacote trazendo-lhe um produto e uma letra morta, ambos não solicitados. Percebeu também que a postagem do pacote era internacional, mas o carimbo borrado e o selo enigmático não deixavam compreender com clareza de onde havia vindo. Definitivamente, de nenhum amigo.

Enquanto o elevador subia, executou o processo padronizado de inspeção de objetos estranhos: girou o pacote nas mãos, examinou-o sob vários ângulos, agitou-o com cuidado, mas num movimento firme e seco, como quem prepara um coquetel e pretende passar uma imagem convincente de que realmente sabe o que está fazendo, embora para a composição dessa imagem conte muito um olhar que tenha um quê de astuto e ao mesmo tempo de malandro, e no caso em questão o seu olhar era apenas de quem ainda não conseguiu ver nada. Ao executar essa sondagem, ouviu um chiado arenoso e alguns cliques, como os que produzem as pequenas partes móveis e articuladas de um objeto projetado e construído obedecendo especificações precisas. Chegou a sentir-se culpado por aplicar um movimento tão descuidadamente coqueteleiro a um produto de delicada engenharia. O que quer que fosse.

Entrando em casa, acomodou-se no meio do sofá, paletó de um lado, pasta do outro, o pacote no colo. Abriu-o. O produto estava imerso em uma camada de fragmentos de isopor e envolto por uma folha desses plásticos cheios de bolinhas de ar, a qual o remetente não havia tido a menor preocupação de economizar, de modo que a aparência da coisa era a de uma bolota túrgida e irregular, um inchaço opaco de plástico, atravessado na diagonal por uma larga fita adesiva.

Esse ovo de polímero extrapolou a função prevista de absorver impactos, refletindo de volta suas tentativas inúteis de abri-lo com alguma classe, o que o fez mudar rapidamente de estratégia, atacando-o a golpes de ponta de caneta, por cujos furos aleatórios introduziu os dedos, destroçando a bola em segundos como quem estraçalha um repolho sem nenhuma consideração por suas qualidades nutritivas e inúmeras aplicações culinárias.

Então, finalmente, mostrou-se a ele, em sua nudez, o produto.

O produto, à primeira vista, correspondeu à impressão de pequena joia tecnológica que a ausculta feita no elevador lhe havia causado. Agradou-lhe e causou-lhe até um inusitado orgulho. O acabamento era elegante. Havia, de fato, articulações precisas. Havia também hastes, algumas molas e outros componentes que indicavam uma mecânica fina. Mas o produto tinha componentes eletrônicos também: interfaces como as de computador, um visor de cristal líquido e, no centro da peça, um botão redondo sulcado diametralmente por uma suave fenda. Ou seja, as partes eram identificáveis, mas não eram óbvias as suas funções, e o todo não dava a menor indicação de qual poderia ser o propósito do produto.

Se pelo menos houvesse instruções… Instruções! Ele irritou-se consigo mesmo por haver demorado tanto para pensar nisso. Voltou ao pacote aberto e emborcou-o no tapete, que ficou coberto do capeletti de isopor, e eis que, dormindo meio socada no fundo da caixa, estava uma folha de papel. Pescou-a dali satisfeito. Correu-lhe os olhos: era um folheto dobrado sobre si mesmo um sem-número de vezes, com certeza um conjunto de instruções, um texto imenso em caracteres minúsculos repetido em diversos idiomas. Chinês, árabe, grego, hebraico, russo… Nem mesmo a familiaridade despertada pela coluna em que se podiam ver muitos “os” cortados foi suficiente para suplantar o desapontamento que sentiu ao perceber que era incapaz de ler qualquer uma das versões. Inclusive aquela, a dos “os” cortados. No rodapé, um logotipo pouco esclarecedor, de tão abstrato. E só. Sem assinatura, sem endereço, sem telefone de atendimento ao cliente, sem sentido.

Mas havia algo. Havia o endereço de um site. Reanimado, ele lançou-se do sofá, correu ao computador, digitou o endereço. Recebeu uma mensagem de “endereço não encontrado”. Conferiu letra por letra e topou com um “o” com um corte que ele havia trocado por um reles “o”, o nosso “o”, amplo, desobstruído. Mas como digitar aquilo? Varreu o teclado de cabo a rabo, de “Tab” a “Enter”, nada de “o” cortado, e ele, que nunca havia se importado com essa ausência no cibermundo, desta vez enfureceu-se com uma raiva leiga. Antes ele não se incomodava, ainda que a falta prejudicasse a digitação fiel do próprio nome, pois a isso estava acostumado, o seu nome tropicalizado. Porque ele nunca soubera a função daquele “o” adulterado e ninguém sabia a diferença entre os “os”, todo mundo pronunciava o nome dele como se ali estivesse a vogal padrão, inclusive ele mesmo. A exceção distante no tempo e no afeto era o bisavô paterno, em cuja boca o som do seu nome de família era outro, como outros eram os sons da maioria das palavras, sonoridades alienígenas que haviam desaparecido desde seu falecimento — o do bisavô, que fique claro — entre elas o som original e irrepetível do “o” cortado.

Tudo isso era muito antigo, histórias de sua primeiríssima infância, que nunca lhe haviam interessado e com as quais ele já havia cortado relações havia muito tempo. Agora era bem pior, agora ele se via apartado da verdade final por aquele “o” gringo covarde, o mesmo do seu nome, aquele “o” atravessado por uma faixa, como uma plaquinha de proibido que voltasse do passado para cobrar o espaço perdido em sua vida.

Jogou-se de volta no sofá. Ao seu lado, meio mal acomodado, o produto. Ele pegou-o, passou os dedos pela superfície metalizada desviando de juntas e protuberâncias, olhou-o desiludido como a uma amante que acaba de confessar a traição ou a um médico que finalmente lhe diz a verdade sobre sua condição de saúde. O dedão, indo e vindo no eixo central, tropeçou no botão, que não exibia nenhum símbolo ou nome de função. Deu voltas ao botão, agrediu-o de leve com a unha na fenda, olhou, pensou, pressionou-o.

O produto vibrou levemente e o visor iluminou-se. Então, a engenhoca inteira aqueceu-se de súbito, emitiu um apito e expeliu uma névoa delgada e malcheirosa. No visor trincado, ficou congelada uma sequência de caracteres estranhos, uma série de zeros com uma linha a mais na diagonal.

Ele ficou sentado durante algum tempo, imóvel, o produto calcinado na mão. Colocou-o de volta na caixa com carinho, como um bichinho de estimação morto, e sentiu-se muito só. De repente, sofreu também pela morte do bisavô, tanto tempo atrás, e por todas as letras estranhas, sons e histórias de família que provavelmente tinham morrido com ele. E tremeu de pensar em como seria sua vida dali em diante, sem jamais poder desfrutar do conforto e da praticidade que o produto poderia lhe proporcionar. Sem ter sido capaz de ler as instruções cheias de letras estranhas que poderiam ter-lhe dito o que era e como se usava o produto. E sem jamais poder escrever corretamente no computador o seu próprio nome.

1º Bula Prêmio de Conto
Paulo Antonio Zoppi

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