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Pureza

Pureza

No consultório do doutor Fogaça, Natália equilibrava os pés no ar. Bem a mãe havia avisado que se aprontasse, mas o quintal falou tão alto, lá fora com suas jabuticabeiras e sebes verdejantes. O quintal tinha um ipê de flores brancas, a que só se chegava atravessando a terra fofa. Bem a mãe avisara, mas Natália agora nem pensava nisso; as crianças não pensam senão no que acontece. Ela via a cadeira branquinha do doutor Fogaça, com o apoio branquinho para os pés, revestida de plástico branquinho. E o doutor Fogaça todo de branco, a máscara, as luvas, a touca, os sapatos. Por trás dos palhações, do sol e dos girassóis pintados, a parede também toda branca, e o ventilador no teto. Aqui e ali, enfeites vermelhos de flores e caras sorridentes, desfilando dentes brancos. E o cheiro branco de consultório, sem sombras, sem detalhes, sem cor nenhuma. Os pés de Natália, escondidos nas sandálias, não pertenciam a aquele lugar. Haviam refutado acolhida desde que entraram, e agora pousavam sem jeito sobre o vazio, nas laterais da cadeira. Se ela descuidasse, alguém veria as bordas marrons, ou pior, a crosta avermelhada que sobrava no cantinho das unhas, entre os dedos, gritante como a sujeira na porcelana de um banheiro. E as pernas começavam a falhar, quando o doutor Fogaça derrubou-se sobre ela, pedindo-lhe que abrisse bem a boca. Jorrava água limpinha do tubo para dentro, esfriando a língua, enfiava uns algodões com sabor branco nos cantos, e jogava a luz branca nos olhos de Natália. Ela abria bem a boca e, embaçado pelo refletor, o doutor ficava observando, observando, observando sabe-se lá o quê. Parado como um enorme louva-deus sobre ela, os braços longos e as mãos gigantescas transformadas em delicados aparelhos de pinçar. E os olhos muito vivos se multiplicavam no olhar lacrimoso de Natália.

— Com quantos anos você já está, querida?

— onzhhhewee.

— Onze? E já está essa moçona hein. Cresceu muito desde a última vez que nos vimos. Pode cuspir.

— (Cuspe)

— Abre bastante. Assim, um bocão! Sua mãe vai bem? Por que ela te deixou aqui hoje?

— Shuparmeeeercado.

— Hm, no supermercado então. Tem escovado todos os dias?

— Shwim.

— Pode cuspir. 

Natália foi cuspir e quase caiu. As pernas fraquejavam, de tanto segurarem os pés — de repente, não era mais esse o trabalho delas. E havia o frio branco do consultório, eriçando os pelinhos das coxas. O doutor Fogaça sempre deixava o consultório gelado.  Bem sua mãe havia lhe dito que usasse as calças e não o vestido. Mas ele não percebeu nada, observando sabe-se lá o quê. Sabe-se lá o quê. Natália viu os palhações pintados na parede, e os girassóis com dentes brancos. Tudo tinha dentes ali dentro. Nunca antes percebera como eram ridículos. Um Sol dentado e ridículo sorria no canto da parede. Natália imaginou seus pés deixando um rastro amarronzado no teto, e passando depois para a cadeira limpa, pura, inocente. Imaginou o próprio jaleco do Doutor Fogaça se tingir de barro, e ele pulando para trás, num susto, como um louva-deus na chuva. 

— Queridinha, o que houve? Você está bem?

— Hum, hum.

— Pode colocar os pés ali no encosto. Assim você se desequilibra.

Pronto, ele ia notar! Os olhos dos dois correram até a ponta da cadeira, e Natália desceu ao máximo os pés, escondendo as bordas para dentro. Mais um pouco e ele ia perceber. Mas não, pois o olhar do doutor Fogaça ficou no meio do caminho.  Seria a mancha de barro no joelho? Natália se deu conta de que seus joelhos estavam num estado deplorável. Ai, ai, ai, uns joelhões de moleque! Foi naquela hora da sebe, quando o gato pulou para o jardim e ela se agachou para pegá-lo. Podia inclusive estar contaminada de gato. E se quando saísse deixasse a cadeira cheia de pelinhos? Somando-se ao rastro marrom das sandálias, teríamos uma bela desgraceira.  A mãe lhe acharia um outro dentista, pois o doutor Fogaça era um homem muito limpinho, sempre cheirando à falta de cheiro, e parando muito no ar, com seu jeitão de louva-deus. Ele estava mesmo parado demais, perscrutando com mil olhos algo entre o joelho e o vestido de Natália.

— Onze anos, Natália?

— Hm, hm.

— Já está uma moçona hein.

— Hm, hm.

— Será que sua mãe demora?

Era sempre assim quando ia à casa do pai. Ele não se importava dela se divertir como um porquinho na lama, de voltar a ser criança. Se pudesse, até esqueceria de mandá-la para o banho, ou de comprar roupas novas. Toda vez que passava uns dias por lá, tinha que usar o mesmo pijama furado, e aqueles vestidinhos que deixaram de servir há anos.  Nunca mais iria à casa do pai. Só havia o gato, e o quintal verdejante, e as tardes de chuva quando ele empinava a rede e ficavam os dois na varanda, contando piadas e bebendo refrigerante. E havia os dias que ele inventava de descer as bicicletas, e os dois pedalavam até o parque. E havia a risada pançuda do pai, tremelicando-se toda. Certo. Nunca mais iria à casa do pai quando tivesse dentista no mesmo dia. E nunca mais deixaria de tomar banho antes de ir a qualquer lugar.

— Vou te ajudar a se ajeitar melhor na cadeira, querida. — disse-lhe o doutor, de um jeito meio engraçado, meio pegajoso.

O doutor Fogaça pinçou a perna de Natália e a acomodou sobre a cadeira. Uma depois a outra. Mas e os pés? Agora Natália precisava calcular o que causaria menos estrago: a sola das sandálias ou a borda dos pés? Talvez se ela não se movesse, se não arrastasse, a sujeira ficaria quietinha onde estava.  O doutor tentou ajeitá-la novamente e surgiu um novo perigo: e se ele encostasse a mão no joelho sujo? Com a perna esquerda foi quase; por sorte que com a direita ele pinçou bem acima. Se a luva passasse no joelho ele certamente teria de trocá-la. O resto da bagaceira viria em seguida: pelos de gato, rastro de lama, e o suor.  Seria um transtorno, diria a mãe. Por sorte, a mão do doutor Fogaça ficou firme acima do joelho, apertada na coxa. Natália, porém, já pensava em alguma tática evasiva para o caso dele descê-la um pouquinho mais. Estava bem perto de uma manchona feia de sujeira.  Poderia cuspir o algodãozinho, fingir que engasgava, tossir. Se ele descesse um pouquinho, sujaria a luva no joelho. Mas, para alívio de Natália, a mãozona do doutor Fogaça começou a subir. 

1º Bula Prêmio de Conto
José Eduardo Mendonça Umbelino Filho

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