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Sétima carta

Sétima carta

Sentada na cama, com seis cartas no colo, Valquíria resolveu prolongar a expectativa. Achou que Nelson fosse esquecê-la, quando resolveu ir embora, mas eis que estava diante de sua sétima carta. Antes de abri-la, pôs-se a reler as anteriores. Correu os olhos pela carta em que ele falava dos vizinhos, dos colegas de trabalho, até de passageiros do metrô recém-inaugurado. Numa delas, enviara uma foto da Rua Augusta. Ela se espantou com o enxame de gente nas calçadas, a profusão de carros na rua, o emaranhado de fios nos postes. Mas o que a deixava embaraçada eram os versos picantes que ele salpicava em cada carta, verdadeiras pitadas de pecado.

Sua segunda carta viera com um presente, uma fita cassete com canções do Padre Zezinho. Ela fez questão de preservar o papel de seda e a folha de jornal que protegiam o presente e, ao reabri-lo, viu a notícia sobre a existência de quarenta mil doentes de lepra no Estado de São Paulo. A doença dividia espaço com a propaganda de um televisor em cores, que acabara de ser lançado, sonho impossível para quem via telenovelas na casa da vizinha. No verso da página, ao lado da notícia de que um jornalista chamado Vladimir Herzog tinha sido preso pelo Exército, viu outro sonho que lhe parecia impossível: o anúncio do vestibular de uma faculdade. Ainda pelejava para concluir a oitava série e cursar o antigo Normal era o sonho possível.

O pai de Lurdes foi o primeiro da vizinhança a comprar um televisor preto e branco e, agora que Nelson estava longe, ela ia toda noite à casa da amiga acompanhar as novelas. Entre uma trama e outra, o Jornal Nacional mostrava guerras dos confins do mundo e ela nunca sabia quem brigava com quem. Nelson é quem comprava jornal aos domingos e explicava coisas como o milagre econômico, que possibilitara ao pai de Lurdes comprar o televisor.

O coração já lhe parecia um campo de batalha e, ao acompanhar a novela das seis, desconfiava que havia algo a mais no amor fraterno de Estácio por Helena. Enquanto Lurdes se envolvia com a trama até as lágrimas, ela reservava seus castelos íntimos para as fotonovelas, que podia desfrutar sozinha. Quando Omar Cardoso dizia no rádio que o Sol em Escorpião era bom para o amor, ela se abstraía da lida diária e se deixava embalar pelo olhar felino de Franco Gasparri, galã da revista Grande Hotel.

Desde que recebera a fita cassete, as canções do Padre Zezinho passariam a ter outro sentido em sua vida. Quando as ouvia no gravador de Lurdes, era como se Nelson as sussurrasse em seu ouvido. Não foi fácil contar isso no confessionário, mas o padre, a despeito do breve sermão para que não misturasse as coisas de Deus com as tentações da carne, não viu gravidade em seu pecado e a despachou com a penitência de sempre. Ela rezou o pai-nosso e as dez ave-marias com devoção e alívio.

O que não teve coragem de contar foi que a carta continha outros versos picantes, um deles comparando seus seios a cachos de uva. Por isso, resolveu pedir ao padre para consultar a Bíblia que ficava na sacristia, a pretexto de preparar uma aula da catequese. Em casa, os escassos livros eram quase todos escolares. Nem Bíblia havia, só um exemplar de bolso do Novo Testamento, deixado por uns crentes, e uma História Sagrada para crianças, que ganhara no bingo da quermesse em louvor a Santa Maria Gorete. Deus Negro, de Neimar de Barros, outro presente de Nelson, talvez não contasse como livro de religião.

Entre alvas, estolas, casulas e patenas, ela descobriu, com espanto, que Nelson dissera a verdade. “Os teus seios são cachos de uva”, leu no Cântico dos Cânticos o verso que ele transformara em epígrafe. O poema bíblico também descrevia curvas de quadris como dois colares, lábios como favo de mel escorrendo, a taça redonda de um umbigo a que não faltava vinho e até seios peraltas como filhotes de gazela. Fechou a Bíblia e saiu da sacristia receosa de que fossem dela as entranhas que estremecem quando o amado põe a mão na fenda da porta.

O namoro com Nelson havia começado, de certo modo, na delegacia, onde fora fazer um boletim de ocorrência. O ladrão lhe arrancara a bolsa quando entrava no ônibus ao voltar da escola às dez da noite e, por sorte, a alça arrebentou, senão poderia ter caído justo quando o ônibus arrancava. Só havia uns trocados na bolsa, mas lá se foram os documentos. Pelo vulto a correr, o ladrão lhe pareceu mais forte e com melhor aparência do que seu irmão mais velho, que bebia cada vez mais, inconformado com a sina de servente de pedreiro.

Como se adivinhasse suas apreensões, o escrivão transformou a ocorrência numa conversa. O cabelo aparado e a camisa abotoada até o punho davam-lhe um aspecto senhoril e ela chegou a pensar que fosse o delegado. Datilografava depressa, sem olhar para as teclas, e parecia colher suas palavras na fonte, saboreando-lhe os lábios. Ao concluir a coleta dos dados pessoais, observou que era sete anos mais velho do que ela, disse que se chamava Nelson e que tinham em comum pais nordestinos.

Dias depois apareceu de surpresa na padaria.

— Você tem mãos de pianista — sorriu, ao receber a xícara de café com pão de queijo.

Logo estava cedendo o primeiro beijo de sua vida. Foi a caminho do cinema, na marquise de uma banca de jornal, onde se esconderam de uma chuva inesperada. Na capa de uma revista masculina, uma mulher aconchegava sua nudez nas mãos de um homem de terno. Ao desviar o olhar daquela imagem que a ruborizava, o corpo de Nelson estava junto ao seu. Sua mão esquerda está sob minha cabeça e com a direita me abraça — era como se recitasse com os instintos o Cântico dos Cânticos e, ao abrir os lábios, sentiu que um pedaço de sua virgindade começava a se esvair.

Quando Nelson avançou um pouco mais na penumbra do cinema, prometeu a si mesma que não viraria mulher perdida, o destino das moças que desonravam a família e eram postas na rua com um filho sem pai. Iria apresentá-lo em casa, ainda que isso fosse mais difícil do que resistir a suas carícias. Para sua surpresa, o pai não fez objeção ao namoro. “É um preto bom”, retorquia aos parentes, equilibrando na comissura dos lábios o cigarro sem filtro. Fora desarmado pela atenção com que Nelson se dispunha a ouvi-lo recitar os versos de Leandro Gomes de Barros, que sabia de cor.

A poesia de cordel era a devoção do pai, para desespero de sua mãe, que não tinha paciência com os devaneios do marido. O sonho da mãe era largar as faxinas e o trabalho de lavadeira para ganhar a vida fazendo bordados, mas acabou emendando uma gravidez na outra e se tornou um celeiro de anjinhos, ceifados pelo sarampo, o tifo, a coqueluche, até que ela própria se foi na última gravidez. Ganhou uma coroa de flores da patroa, enviada por meio do motorista, que também trouxera um cheque para as despesas do funeral. Talvez fosse remorso. Na hora do almoço, na casa da patroa, a mãe dizia não ter fome e, segurando o cigarro entre o indicador e o médio, deixava que ela e o irmão caçula dividissem o único prato que lhes era servido.

Tinha vontade de se abrir com Nelson sobre todas essas coisas, mas agora ele estava longe e escrevia cada vez menos. Havia tirado carteira de motorista e dirigia a Veraneio da polícia. E só se lembrou de seu aniversário com atraso. Mesmo assim, mandou-lhe um brinco de presente, com a promessa de que iria ligar para lhe dar os parabéns de viva voz. Não ligou.

No dia marcado, ela estreou os brincos para receber seu primeiro telefonema interurbano, chegou mais cedo ao posto telefônico, mas viu sua expectativa se transformar em angústia até que desistiu. No caminho até o ponto de ônibus, as luzes e os faróis tremulavam em seus olhos como se ainda chovesse.

Em sua penúltima carta, Nelson se desculpou por não ter ligado. Tivera uma difícil missão no Bico do Papagaio e aproveitou para visitar o pai, um delegado de polícia aposentado e viúvo, que vivia em Imperatriz com a segunda mulher, loura e vinte anos mais jovem. A foto que acompanhava a carta mostrava um homem de costas, na entrada de uma rua de terra, na qual se projetava a sombra de sua juba. Estava quase irreconhecível, mas era Nelson, com calça boca de sino, camisa florida de mangas largas e cabelo black power.

— É a rua do hotel em Xambioá. Consegue reconhecer esse Tony Tornado da foto? — brincou.

Finalmente abriu a sétima carta, que, como as demais, trazia no endereço do remetente um número de caixa postal. Na medida em que ela avançava na leitura, a letra de Nelson ia ficando trêmula. Depois de alegar excesso de trabalho, falta de tempo e a distância que os separava, ele confessou que havia outra mulher em sua vida. Estava grávida e talvez fossem morar juntos, mas desejava a Valquíria toda a felicidade do mundo.

— Que safado! Que sem vergonha! — Lurdes repetia, enquanto consolava a amiga, que atravessara a cerca e desabou em seus braços.

Depois de maldizer Nelson por preferir uma mulher de vida fácil, que se entregava a ele sem aliança nem altar, Valquíria secou as lágrimas e voltou para casa. Enquanto pelejava com o fósforo no quintal, um turbilhão de perguntas sem respostas alimentava sua raiva. A outra fumava? Nelson dividia com ela o ar morno de fumaça? Tragava o filtro manchado de batom? Comparava seus seios a cachos de uva?

Só se deu conta de que nada disso importava mais quando a página de jornal começou a queimar. As chamas avançaram sobre a propaganda do televisor, os anúncios do vestibular e a notícia da prisão de Vladimir Herzog pelo Exército. Já começavam a consumir a matéria sobre os casos de lepra, quando ela, sem saber por que, desistiu de alimentá-las. Passou as costas da mão numa lágrima tardia e entrou em casa. Com a mão esquerda, apoiou no colo a caixa de bambu onde guardava lembranças pessoais, colocou nela as cartas de Nelson e apertou o fecho apenas com o polegar direito, pois o indicador e o médio, entre novelos de fumaça, apertavam seu primeiro cigarro.

1º Bula Prêmio de Conto
José Maria e Silva

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