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Suruapu

Suruapu

1.

O sol espiava a morte pelos furos dos telhados e as paredes escondiam o passado daquela casa. O rosário em volta do altar sussurrava, as imagens outrora vívidas, perenes ficaram. A família encontrava-se ali, pendente. O afeto, não teriam mais, as palavras não viriam mais, os gatos pulariam outros muros.

A saudade chegou pelos cantos. Se ajeitou, se arrumou e perenemente, preencheu o espaço. Os que restaram, cabisbaixos, deitavam os olhos sobre o corpo. As velas, tensas em seus dedos, pingavam pelo chão.

Por que Senhor?

Ali, posta a fechar o ciclo, repousava os duros ossos da face. A expressão da morte é o espelho da alma. Dizem que ela, duramente, dita os costumes gerais; sutis os modos, servis suas qualidades. Os cabelos, dispostos para trás em finas ondas até o pescoço, exalavam os resquícios do corpo. A farda branca e o seu quepe pulsavam cheios de vida enquanto o caixão proclamava seu encontro à terra. No terço posto no berço de sua clavícula, dormia o seu pai. Em suas mãos, a sua velha espada o protegia e, aos pés, puseram lírios, rosas e anis.

A dor da perda borbulha a razão. Os portões da vida se encerram. Não terão outra chance, outra oportunidade de vê-lo. Aquele que lhes criou, lhes concedeu o ar da esperança, jaz agora gris, inerte.

Na terra, o terno ritmava tristemente. Nos caixeiros, o choro vinha coberto de folhas. Na dança, os passos eram resolutos, febris. Na boca do vice-capitão, um canto descia.

tá caindo flô

tá caindo flô

caí no céu, cai na terra

oh, tá caindo flô…

Martinho havia falecido.

2.

Hoje acordei com o meu estômago aberto, minha irmã. As minhas tripas saltavam, pulavam e corriam pegajosas pelo quarto. A dor que circula minhas costas enrijece os meus pensamentos. Estaria eu preso em mim mesmo? Qual é o gosto da liberdade? Certamente, sangue sinto em meus lábios. A agonia de um porco no abate anuncia a minha hora. Todos os que já morreram passaram por isso. Redundante não? Redondo são os nós presos em minha garganta. Há uma conexão entre o cérebro e estômago que desconheço. O caminho, cavernoso, obscuro e pálido que as emoções obrigatoriamente passam quando o coração estala. Os olhos captam o ar, os ouvidos gravam os tormentos da fome e o nariz sente o gosto da manhã. Acredite, tudo isto passa entre a raiz e as folhas. Os troncos nodosos acoplados à minha espinha, permitem que de mim o trovão saia. Estridente, perpassa o mundo na procura do tempo. A vida é obrigação. Viver talvez seja a resposta. Temos em nossas bílis, o desejo de relatar nossas memórias. Giramos o mundo assim como ele nos gira. Nesse pequeno carrossel, contido não contudo, respondemos ao Criador o porquê de existirmos. O nosso nascimento fora entregue como uma carta, a cada um de nós. Alguns, a rasgam, outros a perdem. Nem todos sabem do seu emissor. Desprovido de qualquer residência, morada ou teto. Simplesmente, não habita entre nós. Mas em nós. Curioso não? Divide ele, o espaço com nossas vontades. Impessoais, sujas e promíscuas. Conseguiria ele viver entre nós com tais verdades? Nossos desejos não passam de sombras de nossas sombras à meia-noite. Camadas e camadas e camadas de sentimentos que, ao anoitecer ganham vida. Corpo e imagem. Se aproveitam de nossas esperanças, se alimentam de nossas memórias e embebidas pela dor, contaminam a nossa morada. Estaria à vontade assim o nosso Criador? Como ele enxerga estes sanguessugas? Os nossos sentimentos são como ladrões nas cidades. Roubadas as nossas almas, entregues às emoções do mundo, o livre arbítrio se acorrenta às estrias do corpo. Aos seios e às curvas, a carne agarra o osso. A imagem fisga os olhos, pingados de sangue, e como no mar, se alimenta, devagarzinho, daqueles peixes que, outrora nutridos de pequenas iscas, pulam desesperadamente por ar anil. Gostaria eu de expulsar os males que sujam o meu lar. Aproveitam-se da minha boa índole e espalham as suas tralhas por toda a casa. No banheiro arrastam a lama de dentro pra fora deixando rupestre os azulejos. Na cozinha, corrompem os meus talheres com os ácidos de suas línguas. Na sala, mortalmente, se debruçam sob o meu sofá. Na varanda, gritam à liberdade. Imundos, são seres imundos. Mas imundo eu também sou. Impossível. Serei então expulso de minha própria casa? Como ficarão as novas cartas que virão? Quem as responderá em meu lugar? Um destino, uma vida, é tudo que eu tenho. Sou insubstituível, indubitável. As vozes que me chamam do lado do sol, gravam os seus nomes em minhas costas. De ferro e fogo são as marcas em seus sons. Filho, pai, tio, irmão são os meus nomes. Não dispenso nenhum deles, não haverá outros de mim. Retribuo pelo leve hálito que me sobra a resposta que de mim exigem — bença mãe, bença pai, irmã benção.

3.

As minhas pernas doem, todo dia. Tem algo que as incomoda, que as puxa pra dentro. Num sei o quê. Elas acordam primeiro. Eu acordo depois. Igual o pai que prometera ao filho o passeio no parque. O filho ansioso pela hora, acorda mais cedo. Arrumado, vai à cama do pai e eletricamente puxa as cobertas. Pai, papai, é hoje! Vamos, vamos! O menino adora o carrossel, o bate-bate e as pipocas ante o meio-dia. O pai, entre o sono e o nada, abre os olhos na procura da voz. Ao se deparar com o sorriso do filho, retribui o encanto…

Gostaria de falar um pouco mais, Eli, pois, gosto de falar de tudo um pouco. Ou um pouco de tudo. Um grande pedaço de coisa. Olhe só. Não sei do que se trata. Apenas sei que é grande. A casa, o lar, a falta, o amor, o mar. Que coisa. De qual eu mais gosto? As paredes grudam, o abraço engole, as dores turvam e o último cospe. Melhor não. Acho que prefiro as coisas pequenas, pois, cabem na palma da minha mão. O caroço, o grão, o tumor, o coração. O de galinha, não o nosso. O meu transborda. Que coisa. Mas eu mesmo não caibo aqui. Preciso então dos meus músculos, dos meus ossos e das minhas cartilagens. Ligações. O meu corpo se conecta, se comunica. Envia uma mensagem da folha à raiz sem pensar. Ando, penso, traço, gravo e narro uma história. Que coisa. Eu até poderia continuar falando e contando estórias, mas a contragosto, o tempo anda roubando as minhas memórias, selando o meu viver. Seco, como uma árvore em beira de estrada, empoeirado, preciso me banhar novamente com a chuva que nos cai para me livrar de todo o mal esquecimento. Pigarreio e já cuspo a semente que estava presa em minha garganta, uma pequena, não tão grande, uma que falava muito, não tão pouco, uma que bebia demais e de menos. Vejo apenas que ela caiu em meus pés, e lá deixei. Preso estou nesta casa, não consigo varrê-la pra longe.

Oh, chora muito longe capitão

Oh, todo mundo vai chorá

Como seria se não pudéssemos falar, andar, comer ou mover? Nossos corpos seriam menores, esguios e ineficazes. Estaríamos fadados ao repouso eterno. Ficaríamos tão presos pelos tendões que nem o vento conseguiria nos derrubar. Confronto. Seríamos as muralhas de Jerusalém frente aos inimigos. Será que assim seríamos felizes? Ou será que de tão pequeninos que fôssemos, o mesmo vento poderia nos levar para novas terras. Um lugar… onde teríamos comidas com sabor de fé. Imagina. A alegria no mastigar de cada grão. Um doce afeto brincando com a nossa barriga, fazendo surgir um inesperado milagre. Agradeceríamos a natureza por sua ousadia em nos trazer aqui nesta terra de flores e frutos. O gosto do bolinho de chuva de Nelita ainda vem à boca quando vejo as panelas e vasilhas guardadas no armário da cozinha. O suco do maracujá colhido no quintal, acompanhava o agrado.

Deve ser assim que deve ser comer junto ao sol. Como quem nos cobre, nos aquece com sua luz e nos conta divertidas histórias de quando pequenina, acompanhava os pais na fazenda.

4.

Uma pele rubra pertence à minha família. Um tom de muitas peles. A do sol, a da terra, a do cobre e a do órgão que nos cobre, nos fortifica e nos endurece com o passar dos anos. Uma pele que ressalta as veias, os tons e subtons das nossas eras passadas. Talvez sejamos como o nosso Criador. A sua imagem e semelhança. Talvez a sua aparência deva lembrar a de Martinho. Com os cabelos crespos, de corpo magro e curvado pelo sol cuidava todos os dias das terras de Suruapu. Diziam que a pele do primeiro homem era toda feita de unhas, lisa e reluzente e que também não tinha umbigo, pois não havia nascido de uma mulher. Um tatu. Talvez Adão fosse como o tatu que Martinho caçava na roça. Apontava a garruchinha, mirava e bum! Caía outro.

5.

 Eli, preciso avisar-lhe que entornei. Mas não de beber, cachaça e aguardente. Não.  De saudade. Na falta do afeto e da paixão. Desconheço a minha mãe. Não a tive. O tempo a levou antes de eu dar um simples oi. Ao nascer, morri. Alguém nasce e morre ao mesmo tempo? Eu sim. Enquanto eu surgia ao mundo na esperança de sorrir, ela partia na rasa ilusão de me ver crescer. Complicações no parto. Complicou-se mesmo foi o meu caso, a minha história. Como poderei contar-lhe o que não vivi? Das vezes em que pequenino, segurava as suas mãos enquanto caminhávamos pela praça. Aproveitamos a tarde serena, o domingo seguro que nos conforta, que nos acolhe. Paramos e compramos um balão. As crianças corriam em volta da Igreja do Rosário. Na praça, jogavam dama os mais velhos e tomavam água de coco. O jornal lia os ansiosos pela manhã. O vento mente. O que te conto são apenas estórias. Não as minhas. Vim na ambição de ter algo. Alguma ligação, alguma paz desejo ter contigo, Eli. Um suspiro, um afeto que encontro nestes velhos retratos que se escondem em nossa casa. O de pai, o de mãe. O de vó. Esses retratos que camuflam as vontades que tinham Nelita de sair da fazenda, mas que, seguindo o caminho dos pais, tivera que viver da reza e da colheita de Suruapu.

Eu também tenho um corpo, minha irmãzinha. Um feito, não de carne e osso, mas de folhas e flores. As minhas pétalas são esguias, rubras, vertiginosas. Uma flor que vem debaixo. Uma que se esconde no passado dos outros. Uma que dorme no dorso do cavalo enquanto este se curva ao sol. Digo que sou feito de folhas, essas, longas, contatam a lua pela manhã. Ela me alimenta com a sua cor enquanto me deito aqui nessas longas serras. Os vales aqui são profundos, protegem nossas almas e cuidam dos nossos lares. Quando chove consigo ouvir claramente o som da água escorrendo nas telhas. Atento. A grama sua no outro dia. Daqui, vem a minha raiz, o meu tronco e meu caule. Deles, nasço, cresço e compartilho os meus segredos. Durmo no espinhaço do céu. Minhas folhas apontam em direção à luz anil. Observo que só vivo porque pulso. Volto a ser carne. Preciso dos meus ossos novamente para voltar a ser gente. Cordas e tendões, elásticas tensões que me puxam, me jogam, me projetam e me lançam às árvores. Penduro nos galhos altos destas matas e balanço em direção ao primeiro homem. Ao me ver, ele sopra em meus ouvidos o meu velho nome.

Eliã… Eliã… Eliã…

Do céu consigo lhe contar melhor o que penso. Desacorrentado. Não tenho mais aquilo que um dia me prendeu, aquilo que demos o nome de corpo. Aqui, sou apenas voz, costume. Quando crianças, nos diziam que quando alguém morre, vem pra cá, que o céu é infinito, que se fôssemos bons na terra, nossas almas repousariam aqui, que seríamos eternos e finalmente encontraríamos trégua para os nossos tormentos, que as nossas aflições seriam purgadas e os nossos corpos descansariam em paz, que se rezássemos e pedíssemos perdão ao nosso Criador, ele nos perdoaria de todo o mal que cometêssemos. Mentira. Não os vejo aqui. Estou em sua morada e não vejo a nossa mãe. Que mal ela poderia ter cometido? Nos criou para que nos tornássemos bons. Conviveu bem ao lado de meu pai. Ia toda quarta e domingo na igreja orar. Cuidava da casa e nos alimentava com o que podia. Escutava a homilia do padre atentamente, principalmente, na hora do perdão. Busquemos perdoar uns aos outros, não carreguemos o ódio no coração, pois esse é o motivo do mal que nos cerca. No evangelho de Mateus, Pedro diz: “Mestre, quantas vezes devo perdoar uma pessoa que me ofende: até sete vezes? Jesus responde a Pedro e a todos nós: “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete!”. Nossa mãe digeria cada palavra, cada migalha deste pão fermentado e assim punha em prática o sermão. Nem mesmo quando soube da traição, grávida, demonstrou dor. Mãe, perdoe o seu filho. Esposa, perdoe o seu marido. Luís, eu te perdoo.

Eli, dizem que na hora em que nasceu, nossa mãe, com o terço em uma das mãos, orou.

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco

bendita sois vós entre as mulheres

bendito é o fruto em vosso ventre, Jesus.

Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós, os pecadores,

agora e na hora da nossa morte.

Amém.

6.

A palavra cai. Ela desce escorregadia pelos meus dedos enquanto desalinha as cordas que vibram tensas em meus pulsos, desfazendo os nós que me prendem por inteiro. Mais inteiro nem sou. Já fui um terço, dois quartos, quatro oitavos de um nó. Hoje, mais pareço um cão. Um curvo, duramente torto pela miséria e pela fome. Um cão que manca os ossos enquanto late. Para os homens que andam na rua, rujo na espera e na cura, no abraço e na fuga, na amarga culpa de vê-los correr.

*

O cão. Aquele velho cão de família. Com as orelhas duras, os caninos luzentes e os olhos pétreos, fitava o sol como quem realmente o vê. Estava prostrado ali na sala, desde a época em que Martinho veio pra vila. Cada filha sua ficara com um. Sabe-se lá de onde vieram, o que são. Diziam de longe. Vivencio apenas o ruído do fim. Na época viva da família, os cães abriam caminhos, guiavam os mais novos nos costumes. Proteção. Nosso tio dizia que era proteção. O de Nelita era o cão mais cuidado, o mais sabido. Toda manhã, ela o limpava. De noite, punha uma rubra vela em seu centro e rezava. Na família, quando tem morte a casa desanda e, de vida restou pouco. O cão de Neuza fora pra capital, o segundo ali estava e o terceiro, quebrou-se por maldição. Dizem que um perdeu a fé, o segundo a crença e o último a razão. O cão agora era cuidado por Luís, porém com a morte de sua mãe, o cão ficara mudo. Descrente as portas fecharam o seu destino. Agora, quem sabe como ficariam os seus pelos. Eu não conseguiria mais amar-lhe. Para mim era pouco, os seus pensamentos, fúteis, as suas emoções, fugazes. Pensei em falar com Luís para passá-lo para Bento Caseiro, sua família já havia perdido um, ficaria com outro.

*

Eu o encarei. O cão retribuiu o olhar. Pra fora, a sua língua grande quase tocou o chão. Os seus pelos alvinegros enrijeceram sob a sombra turva da manhã. Hostil era sua face. Momentaneamente, suas expressões de gesso se contraíram com a minha presença. Tum, tudum, tum, tudum. O cão late culpa, remorso. Eu não cabia mais naquela casa. Rodei, rodei, rodamos. Estonteadas as ideias, a premissa da saudade me soava melhor. Quando criança, eu brincava com Nelita. No alpendre pendurado, quando ia cair, ela me acudia. Balangando pra lá e pra cá, segurando a grade, numa pequena aventura. Não muito longe da brita e não muito perto da telha, sorria. Mininu, cuidado pra não cair, desce daí mininu! Não caia, girava o mundo até a hora em que os pés vacilem e o chão vem a cara, grudado ficava ao portão de casa. Entre os muros, pendia que nem gato espreitado a noite, escondia eu de Nelita. Entre as sombras dos telhados, Eli também ficava.

…3,2,1 lá vou eu!

Timidamente, eu cambaleava pelos aposentos. A sua procura ia de cômodo em cômodo. Os passos precisavam ser discretos. Abria devagarzinho cada ranger de porta velha para te achar. Quarto nosso nada, de tio nada. Sobrara um. Como quem pisa em ovos, cui da do sa men te, vou até o quarto de Nelita. Escutando seus risos contidos, debaixo da cama encontro…

Um punhal. Na gaveta um punhal. De lâmina oxidada, fina, e com cabo de tom amadeirado. O medo me fura aos tropeços. No bar, Martinho fincou no fígado de algum sujeito da região, numa disputa de terra. Rumores. A terra dele mesmo já deixei de ir faz tempo. Quando criança, ajudando no plantio e no benzer, no manejo do arado e no cozer dos legumes. Hoje, o tempo já comeu, bebeu e sugou até os ossinhos e, naquela fazenda, de tanto se empanturrar com as vacas gordas do curral, decidiu banquetear em outros lares. Agora, seca, a terra grita.

7.

Aqui, jaz o tempo da memória e da dor. A paz que habita no amor me foge. Moro nesta casa desde muito antes da minha mãe parir o céu. O nosso pai, um homem jamecó, começou a trabalhar aos 8 anos, de leiteiro. Pequenino, carregando as garrafas de leite numa caixa de papelão, percorria toda cidade. Aos finais de semana ajudava Martinho na roça a capinar o mato e a plantar batata, mandioca e milho. Cresceu no costume e no dito interiorano. Quando a fábrica faliu, por razões que não me cabem dizer, tivera que arrumar novo emprego. Martinho, quando descobriu que aos 10, Luís, na oficina, carregava motor, rugiu. Como pode?! Menino, pro cê tá fazendo isso, tá te faltando alguma coisa aqui em casa?! Cê nunca mais vai voltar lá, cê tá ouvindo?! Nunca mais! Voltou, pra lá não, pra a escola. Aprendeu o ABC e a contar. Era bom nisso. Resolvia qualquer cálculo que o professor colocava no quadro. Adição, subtração, divisão, multiplicação. Sabia os números primos, racionais, irracionais, naturais, inteiros e reais. Memorizou a fração, a porcentagem e os algoritmos romanos dos números mais conhecidos. O pi sabia até onde dava. Em época de prova, o professor dava uma bala para quem terminasse primeiro. Farta ficou sua glicose no sétimo ano. Cresceu e no segundo grau, tivera que decidir o que ia fazer da vida. Um dia, passando pela praça da Matriz, percebeu dois homens entrando no banco M. De camisa e calça social, sapatos de couro bem engraxados, com a caneta azul e alguns documentos em papel pardo nas mãos, se apresentavam pro serviço. Brilho, foi o que apareceu nos olhos de meu pai quando os viu. Quero, desejou. Pra formatura, arrumaram uma graninha como pedintes no trevo da cidade. Quem passasse por lá saberia que os alunos da Escola E. F. C. estavam prestes a colar o segundo grau. Pra praia foram com o que sobrou do cascalho da festa e como nunca haviam ido antes, deram alguns vexames. Trupicavam na areia e capotavam no mar. As notas do meu pai no colégio impressionaram o diretor do banco M., que o próprio, o convida a trabalhar lá. Você tem que trabalhar aqui, meu filho! Você tem ar de menino inteligente, posso ver em seus olhos. Olhar de conhecedor, de gente sabida. Isso é bom, afirmou. Lá começou a gostar desse trem de ficar atrás da mesa, com uma caneta em punhos e não uma enxada, sentado e não curvado, limpo não sujo de graxa ou de barro.

*

Sua cama, Eli, ao vê-la novamente com as madeiras podres e quebradas, juntamente com este colchão duro que as cobre, lembro-me daquele milagre que lhe ocorreu. Na época em que a dor e a morte rodeavam esta família, febrilmente adoeceu. Novilha. Após as aulas, voltava pra casa, segurando as minhas mãos. O sol batia em nossas costas como quem lhe deve, não paga. Por razões que desconheço, começa a convulsionar terrivelmente. Sua língua começou levemente a se entortar e o corpo a se contorcer. Ajoelhado na brita, supliquei. Pelo amor de Deus! Senhor! Não leva agora a minha irmãzinha! Senhor! Santa Efigênia eu te imploro! Nossa Senhora eu te suplico! Por favor! Depois da minha prece, o seu corpo começa a relaxar na terra, inerte, ficou depois da convulsão e só assim pude ver a quão magra era. As suas perninhas estalavam secamente sob a terra e as suas contorcidas mãos agarravam duramente o solo. Eu carregava apressadamente aqueles ossinhos miúdos daquele corpo pasmo em direção a nossa casa. Meu Deus do Céu! Quê isso mininu!? Nelita ao nos ver, largou a faca e o frango na bacia, ensanguentado o vestido voou com a toalha em mãos para te enrolar. Abre a boca minina, abre a boca! E com a mão cheia de nervos e gordura, esticando a sua língua rachada, fez promessas aos deuses. Amargo ficou o sabor do socorro.

*

Sai pra rua e, ao encontrar com Tião Preto, limitei ao aceno. De olhar áspero, retribui. Coloco o penacho de volta a cabeça e retorno para a formação. Dançávamos rentes ao céu. O vento pisava no barro, guiando os curiosos pelo ritual. Do costume, o nosso capitão estava sendo velado em casa, assim como foram as suas filhas. Naja, Neuza e Nelita. As três acompanharam os pais na época da fazenda. Das curas às preces atendidas pelo pai, do plantio à reza colhida pela mãe, iam para as outras fazendas cumprir caso. Conhecido José Honório de Lima Martins, benfeitor, disseram, fora em ceder um cado de terra de Suruapu pelo serviço dos escravos, ante e pós a alforria.

Começamos a passar com o terno pela vila. Levando o destino ao coveiro, de casa em casa, DonaDora nos guiava segurando sua bandeira florida. Nossa Senhora do Rosário. Rogai por nós. Nosso vice-capitão Tião Preto, conduzia o rito, duramente calmo. O verde-amarelo da farda hoje sumia com o dia fechado. O bigode cobria a boca, mas não a sua voz. Cantava os hinos de despedida e de memória.

 chorano só, ei chorano só, eu vim cá dispidi chorano ai, eu agora vô m’imbora

 A chuva em nossos cocos escorria sucessivamente. Nossas botas de couro iam e vinham. A espada de Tião Preto cortava o vento, ritmado. Um, dois, três, um, dois, três, quatro cinco, um, dois, três, quatro cinco. Tião Preto laçava o aço enquanto cuspia o fogo do sol. O de outono. Opaco, mas reluzente.

Havia alguns anos que não eu via todos tão tristes. Era doído estar ali. No meio, o caixão seguia firme nos braços dos dançantes. Um deles, o nosso pai, com a mão esquerda segurava por baixo do caixão, e com a direita tentava reerguer o mundo. Nas laterais, MassaBarro e ZéBoi, irmãos de caixa, provocavam lentamente ritos tristes. Nosso outro vice-capitão Haroldo, ajudava mais na formação. Bento Caseiro, nas vestes, não exalava sobriedade. Tiquinho, de cabeça ruim, segurava a sanfona sem tocar. Pros novilhos, guardei um fisgo no peito. Os meninos, surrados os trajes, mastigavam a dura fé. A escassez de seus escuros corpos gritava o hoje, o agora. Na retaguarda, vinham as famílias dos dançantes; de esposas e filhos, avós e netinhos, primos e sobrinhos aos curiosos e esquecidos, aos jagunços e condenados. Cabia as mulheres do grupo incutirem as crias pros costumes. Nos penachos há regras, há ordem! Não é igual aos catupés de BerroLento ou aos moçambiqueiros da Vila Nova, um fuzuê sem igual. Confusão de branco e preto. Não treinam, não devoteiam. Estão lá pra dizer que estão. São os bebuns e os maltrapilhos que vivem naquele lugar. Gente pra lá do Buracão. Desordem! Não, não. Vão e obedeçam aos seus capitães. Quando tiverem que cantar vão cantar, na hora de orar, vão orar, ensaiam bem e que Nossa Senhora os acompanhe!

Mas as mulheres no terno não entram. Ficou claro quando o cumpadre MassaBarro quis levar a primogênita no ensaio. Que diabos?! Incandesceu Martinho ao ver a pequena soerguendo as varetas. Pápápáticapá. Arrancando os instrumentos de suas mãos, joga-os ao longe na premissa da raiva. Camilinha, no susto, começa a chorar. MassaBarro vê o ato e suplica. Mas cumpadre, deixa ela, só ela, pufavô. Num vê que ela fica doidinha atrás dos terno tudo, alegre, pulando que nem cabritinho. Aqui não entra! Riscou Martinho. Atrás das lentes, sua expressão carregava chumbo.

Com o entardecer chegando, tínhamos que fazer apenas mais uma parada. Na casa dos Martins. Nossa Senhora do Rosário nos aguardava. Na frente de todos, de chapéu em mãos, nos recebeu José Honório. Meus sentimentos, meus filhos. Seu olhar guardava algo. Vocês sabem muito bem que seu avô era muito querido por nós, vocês sabem disso. Toda a sua família sempre fora muito boa pra nós, sempre nos demos muito bem, afirmava. Sim, nós sabemos, Tião Preto respondeu. Entre os pés e as lamúrias, estava DonaLena. Alcilena Martins, filha de José Honório de Lima Martins, conseguiu dedicar a sua vida no ofício das letras, quando nova, pra cursar magistério se muda pra capital e após o período, retorna com a serenidade e o saber nos olhos, que só os de boa alma têm. Hoje, não parava de chorar, a morte a assombrava. O seu corpo cambaleava, os seus pés tremiam e em suas mãos contorcidas, cabiam o desejo de rasgar o tempo.

Ainda havia histórias não contadas por aqui. Maldição. Nos dentes do velho luzia o ouro da família. Guardava a sua história e a de nossos avós em sua boca. Quando o dia viesse a raiar rubro, teriam sangue. Nos dias de hoje, trabalhando para eles, apenas o filho de Neuza. Bento Caseiro.

José Honório antes de irmos embora, lembrou-se:

— Viva Martinho!

— Viva!

Pelas ruas, alguns conhecidos acenavam de suas janelas e outros acompanhando o nosso andar, segurando terços e flores, iam nos protegendo de todo mal caminho. A chuva escorregava pelos nossos calcanhares e descia a serra aos tropeços. Banhava as folhas e adormecia os enfermos. Nas casas vinha com pedido de paz, selando a fome e a sede. Encharcada, Indaiá se recusava em descer do alpendre de vó enquanto ela ainda lhe gritava:

Desce Indaiá! Desce Indaiá! desce…

Chegamos ao cemitério, mas, resistíamos. Era como se um sonho ruim estivesse prestes a brotar. Quer queria, quer não. Ele realmente partira. Ao redor da cova, ficaram aqueles poucos mais velhos da família. O restante dos dançantes aguardava do outro lado da pequena mureta que separava o cemitério da vila. O canto cessou. Amontados no escasso espaço, arredamos, para que pudessem repousar o caixão. Adormecido pelo frio, chegava em seu novo lar. Um lugar quente, pingando cera, revestido de madeira e algodão, onde jazem as suas filhas.

*

Minha irmã, hoje eu te batizo. Te curo destes males que levam os esquecidos ao repouso eterno. Varro a poeira do tempo e lhe descubro destes lençóis da mísera fome que lhe acorrenta a morte. A prece que faço desfaz toda mágoa que te enche o peito e que te alivia as feridas do coração. As suas chagas, hoje, se tornam apenas grãos do passado, de um velho passado que não existe mais. O tempo rói o tempo. Das cascas desta árvore que nos sobra no quintal, vejo apenas lembranças de panos limpos, Eli. Quem, o próprio corpo pardo não viu, não ouviu e nem falou suas verdades. Minha irmã, você não viu o que se passou contigo, também não soube como, quando e onde nasceu. Não conheceu os seus criadores, não presenciou o esforço que teve a nossa mãe em de ter no mundo. Não viu quando nosso pai, deformado, rugiu frente à morte que lhe encarava, escancarada. Eli, você não sentiu o peso do seu próprio corpo morto, com os seus bracinhos inertes, a cabeça pendente para o lado e o vazio no peito onde havia o coração. Você também não descobriu o sexo, turvo, nublado e misterioso, do qual, dele, não proveriam novos lares. Em sua maturidade, você veria que as festas que fazíamos todo ano em homenagem à Nossa Senhora eram a nossa comunicação contigo. Dançávamos e cantávamos por ti. As nossas espadas de aço riscavam o chão produzindo fogo e das nossas vozes, vinham o lamento da terra, deste mesmo barro que te engoliu, de que nele você reside. Você é a terra. Eli, devo lhe contar quem é a sua mãe. Maria. Você também é filha dela, assim como eu sou. É a sua mãe quem está presente contigo. Imagino que já deva saber da verdade. Mas devo reforçar a minha confissão para que se sinta um pouco mais confortada com o que te falo. Até porque, minha irmã, espero, na próxima vez em que nos vermos aqui embaixo, doentes, enfermos do mundo, possamos selar a nossa paz, a nossa cura. Pois, de tantos dias encolhidos, cobreados pelo sol, domados pela chuva, somos pelo tempo esculpidos. A machado, nos corta friamente pelas bordas até chegar em nosso centro, quente e úmido, realçando as nossas carnes. Dos trapos que nos cobrem e do amor que nos veste somos devidamente opacos. De muitas formas e vozes são as nossas vontades, as nossas preces. Por elas andamos, delas, voltamos.

1º Bula Prêmio de Conto
Gabriel Lauriano

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