— Onde você quer chegar? — minha irmã perguntou.
Respondi: a lugar nenhum. Mas teria sido muito mais preciso se eu enfatizasse: ao nosso lugar nenhum. Disse a ela, sem preliminares, o que desejava, já que não parava de me provocar sobre os objetivos e os ideais da vida.
— Com um passo de cada vez, retornar ao nunca ter nascido, ao nunca ter existido, a um suicídio anterior — eu disse.
— O trajeto é longo, talvez você precise de sapatos novos para atravessar quatro décadas novamente — ela respondeu, de pronto, com lufadas de ironia entre os dentes.
— Pretendo ir até o fim — revidei, apesar de não saber quanto tempo ainda tenho.
Houve um silêncio. E continuamos caminhando, levando o silêncio conosco. Percorríamos os caminhos de terra fabricados nos meios do pequeno cafezal. A vista era bonita lá de cima, podíamos ver os arredores, os eucaliptos, os tanques de água, os ecos luminosos dos latidos e dos assobios, a poeira como rastro de que alguma coisa em movimento atravessava a estrada depois da montanha.
Chegamos a um ponto da plantação onde podíamos observar a casa que nosso pai havia construído, pouco a pouco, há alguns anos.
— A árvore está linda — minha irmã disse, apontando para o lado esquerdo da casa.
O vento estava forte e a árvore apontada pela minha irmã dançava em sua posição; havia algo de lúdico e livre em sua dança, como se estivesse em plena performance.
Senti primeiro meu estômago queimando, depois minha garganta e, por fim, meus olhos. O choro chegou, calmamente, e tomou todo o meu corpo. Meu corpo, por inteiro, chorava. Não saberia localizar o que sentia; sei que não era apenas tristeza ou angústia, e que se aproximava mais de um ato contínuo de transbordamento.
No dia em que minha filha morreu, logo após nascer, meu pai colheu algumas sementes em frente à maternidade e as trouxe para plantar no sítio. A árvore tinha a mesma idade da minha filha. Cinco anos.
— Gosto de imaginar que as raízes da árvore ainda chegarão ao princípio do mundo — eu disse.
Minha irmã sorriu e tocou meu rosto. Uma cintilância delineava as fronteiras da plantação e inseria devagar uma quentura vaga na atmosfera.
Começamos a nos confundir pelas bifurcações da estrada e acabamos nos perdendo dentro de um desconhecido rizoma territorial.
— Sinto que ainda estamos perdidos dentro do labirinto, daquele labirinto eterno — ela disse.
— Você lembra da época em que mamãe estava doente? — perguntou.
O timbre da sua voz tinha mudado de maneira nuclear; existia agora um tom de candura, talvez, ou de piedade.
— Lembro, sim — respondi, sem saber o que dizer, pois me lembrava daquela época, mas as recordações eram permeadas de uma névoa grafite, fosca. — Lembro de papai tentar esconder o sofrimento dele.
— Acho que ele queria nos poupar de tudo aquilo — minha irmã disse.
— Mas era nossa mãe — respondi —, como seríamos poupados de tudo aquilo ou do que quer que seja?
E concluí:
— Não podemos nos esquecer de que nossa mãe parecia sempre gerenciar um propósito maior, para além do nosso entendimento.
— Lembro do nosso último encontro — minha irmã puxou o ar antes de prosseguir. — Acho que dois ou três dias antes de ela desaparecer.
E continuou:
— Era possível ver nos olhos dela que algo a desamparava imensamente, como se não quisesse mais estar ali, aqui, no mundo, como se ela não tivesse mais saída, como se estivesse obrigada a estar onde estava, sem qualquer possibilidade de escolha, sem qualquer possibilidade de tomar suas próprias decisões. Foi uma sensação terrível. Fiquei dias e dias com um sentimento obtuso no peito, injustificável, de tirá-la dali e levá-la.
— E foi o que mamãe fez por conta própria — eu disse. — Tirou-se dali e levou-se embora.
— Mas você não acha terrível o fato de ela nunca ter sido encontrada? — minha irmã perguntou.
— Terrível? — indaguei a mim mesmo. — Terrível, não. Não acho que tenha sido terrível; foi a saída que ela encontrou.
Prossegui:
— Ela não queria mais ser cuidada por ninguém. Talvez fosse uma questão de princípios, uma questão fundamental, inegociável. Lembra que papai nos contou depois que nossa mãe murmurava a noite toda, pedindo que a levassem embora?
— Ainda acho terrível — minha irmã consentiu.
— Tenho isso em comum com mamãe, essa vontade de desaparecer. Realmente a compreendo — eu disse.
— Talvez você tenha herdado isso dela — minha irmã respondeu.
No entanto, não pude captar muito bem o tom dessa vez; não sei ao certo se ela falou para me consolar ou para me provocar.
Havia em minha mãe uma aspiração de vestir toda a pele da existência, um fôlego impreterível. Tínhamos uma sintonia complexa, uma conexão espectral, fugidia. Seus poemas só foram encontrados após seu desaparecimento. Eram centenas de folhas avulsas. A energia da sua escrita me possuiu por completo. Havia algo de feitiço, mas dentro de uma certa humanidade, uma magia inventada, feita de osso, sangue, carne e mão.
Sua escrita delirava meus neurônios e me penetrava como se me quisesse presente, como se me convocasse a ser o que eu desejava — para além de qualquer coisa —, o que eu, apenas eu, desejava.
O mundo inteiro passou a estar sob essa condição.
Ainda ressoa em mim seu último verso:
“em direção à fonte de todos os vulcões extintos”.
— Lembra quando descobri que ela não era minha mãe? — perguntei.
— Procuramos você durante a noite toda. Foi inesquecível — minha irmã respondeu.
— Sei que o fato de ela não ter me parido não a torna menos mãe — eu disse.
Antes que pudesse continuar, escutamos ao longe um barulho crescente de motor. Tudo indicava que uma moto chegaria em breve ao nosso ponto da estrada.
Olhamo-nos e compreendemos, sem palavras, que precisávamos de ajuda para retornar. Fiz sinal para que o motorista parasse. Ele ignorou meu gesto e deixou um rastro de poeira extremamente desagradável à retina e à garganta.
Perdemos a vontade de conversar. Precisávamos voltar. Foi o que decidimos com gestos tortos e indiretos.
— Sei que é estranho dizer isso, mas às vezes tenho a sensação de que minha filha é minha verdadeira mãe — eu disse.
Olhei para minha irmã, esperando alguma reação. Para meu assombro, ela não esboçou nenhuma.
— Acho que agora viramos à esquerda — ela disse, pouco depois.
Mãe. Filha.
— Onde você quer chegar? — minha irmã perguntou.
E me dei conta, mais uma vez, de que não queria chegar a lugar nenhum.
— Onde você quer chegar? — ela repetiu, olhando nos meus olhos.
Continuei caminhando.

