A tarde estava fria e úmida, a chuva fina e o vento insistente só confirmavam que aquele era um dia triste. Em dias assim, as ruas ficam desertas. Os guarda-roupas cheiram estranho. A solidão se revela na cor dos muros molhados e na ausência de roupas tremulando nos varais.
As janelas embaçadas escorriam como se chorassem. Algumas pessoas começavam a sair de casa enroladas em seus casacos e cachecóis escuros. Só uns poucos gorros das crianças a caminho da escola traziam algum lampejo de vida. Nem mesmo o cheiro do pão quente de manhã despertou as cores que costuma revelar.
Ah… sim, era sim um dia triste.
Da porta da capela do cemitério municipal, eu via a chuva batendo nas coroas de flores do velório ao lado. Eles fecharam a porta e saíram. Deixaram o morto sozinho a noite inteira, coitado… sozinho nesse frio. “Tomara que não seja esquecido.” Os carros começavam a chegar. Eu voltei para dentro e vi os olhos vermelhos da minha mãe — a única cor deste dia cinza, não mostrava só tristeza, mas também impotência. Mostrava o tamanho das coisas. Um dia se é criança e não existe ninguém no mundo mais forte que a sua mãe. O tempo passa, ela envelhece, e como se fosse justo, morre. Como é que pode morrer uma mãe? Mães nasceram para cuidar, prover, dormir de mãos dadas. Com que direito o mundo vem e deixa sozinhos os filhos que estavam acostumados com seu abraço?
Ali estava minha mãe, totalmente entregue e indefesa, chorando a morte da sua. Dava para sentir a injustiça reclamando em seu olhar quase infantil: “Quem agora há de me dar a mão para dormir?”
Às 10 da manhã, o padre chegou para rezar a missa de corpo presente. Já estavam todos ali, mas eu só via cinza. Minha avó não gostaria daquele clima pesado. Ela era feliz. Nada daquilo contava quem ela foi. Talvez ela trocasse o padre por uma banda de música. Quem sabe as lágrimas por garrafas de vinho. Mas ela nunca disse como queria ser velada.
O padre falou algum tempo, e eu não ouvi o que ele disse. O rosto da minha avó no caixão não parecia satisfeito. Parecia que ela queria me dizer alguma coisa. “A que horas você franziu a testa, Vó?” Será que isso é normal? Estavam fechando o caixão. Esse é o momento que eu detesto. Tem sempre alguém que grita, se joga em cima do morto. Rezei para que minha mãe e meus tios não fizessem essa cena, porque é horrível demais. Minha avó era uma mulher alegre, mas discreta. Ela não ia querer um escândalo nessa hora. Não nessa hora.
Meus quatro tios e dois amigos da família pegaram cada um uma das alças do caixão, para prosseguir até o lugar do enterro. São todos homens fortes. Todos homens grandes. Mas alguma coisa deu errado: um caixão não pesa mais do que uma mesa pequena de jantar. Minha avó de 93 anos, que esteve doente nos últimos dois, não podia pesar mais do que 40 quilos. Mesmo assim, aqueles seis homens grandes não tiveram força para levantar o ataúde. Suas mãos estavam marcadas, seus rostos vermelhos, suando – com todo aquele frio… mas não conseguiam dar um passo sequer. Era um sarcófago chumbado no chão da capela.
Inacreditável…
Foi nesta hora que surgiu, lá de trás, uma velhinha bem velhinha. Cabeça branca, vestidinho preto, bastante ereta e elegante para a idade que tinha. Ela se aproximou da minha mãe, segurou sua mão com o olhar mais meigo e confortante e disse:
— Abra o caixão, querida…
Minha mãe não entendeu.
— Abra o caixão. Preciso ver a sua mãe.
— Quem é você? — minha mãe perguntou.
— Sou amiga de infância da Noa.
— Como é seu nome?
Até eu me emocionei quando ela pronunciou aquele nome.
— Amelinha.
Meu Deus… aquele era o nome que minha avó não cansava de repetir em todas as festas de aniversário: “Amelinha ia adorar estar aqui.”
Amelinha era sua companheira de infância. Eram vizinhas, estudaram juntas, trocaram confidências, trocaram vestidos, namoraram irmãos… Mas Amelinha se mudou para outra cidade e, desde então, sua ausência esteve presente em todos os momentos importantes. Elas se corresponderam sempre. Cartas iam e vinham, e minha avó estava sempre esperando o carteiro, como se esperasse a própria amiga. De uma hora para outra me pareceu óbvio que o caixão da minha avó não saísse do chão antes de Amelinha chegar.
Pois Amelinha insistiu:
— Abra o caixão, filha. Preciso mesmo ver sua mãe.
Os homens da família se afastaram.
Todos se emocionaram quando Amelinha e seus suaves olhos encontraram o rosto da minha avó. Ela mexeu em seu rosto, arrumou-lhe o cabelo, disse palavras que nós não ouvíamos, tocou sua mão, arrumou a gola do vestido. Amelinha conversou com minha Avó Noa por algum tempo, sem que ninguém a apressasse. Com lágrimas nos olhos, ela andou ao redor do caixão, parou aos pés de minha avó, colocou a mão sobre as flores e, bruscamente, tampou a boca para abafar um grito. Muito nervosa, ela batia a mão de leve nos pés da vovó arrumando as flores, balançando a cabeça, indignada. Chorando, Amelinha aproximou-se do ouvido da minha avó e falou:
— Fique tranquila. Eu estou aqui.
Nos entreolhamos sem entender quando Amelinha pediu uma reunião com todos os filhos da amiga. O caixão foi coberto novamente, mas ninguém ousou tocá-lo.
De portas fechadas, na sala ao lado, Amelinha contou uma história.
— Éramos inseparáveis: Eu, sua mãe e outra menina…Valquíria. Fazíamos tudo juntas no colégio interno… e nas férias também, quando nossos pais permitiam. E eles permitiam, porque as famílias eram muito amigas e porque morávamos muito perto umas das outras. Éramos três. Sempre três.
Mas a vida às vezes nos é cruel… Nos subtrai os números preferidos, trazendo uma tristeza profunda — como agora. Diminuem os pratos em volta da mesa, as camas nos quartos, as cartas que chegam.
E foi o que aconteceu: a vida nos tirou Valquíria num passeio a um lago perto da fazenda do meu avô, em 1927. Ela resolveu nadar, mergulhou… e não voltou. Foi muito triste, profundamente dolorido. Eu e Noa ficamos inconsoláveis, assim como a família, nossos professores e nossas amigas. Mesmo tão abaladas, insistimos para ir ao funeral. Eles queriam nos poupar, mas nós tínhamos um pacto de estar sempre juntas, em qualquer situação, por pior que fosse. Era certo estar ao lado dela na despedida… como estou hoje, honrando nosso pacto
Era o primeiro funeral a que íamos. Nunca tínhamos visto uma pessoa morta, um caixão, nada. Tínhamos 13 anos, e a felicidade de não ter perdido alguém. Tudo correu bem, mas Noa ficou muito angustiada quando viu Valquíria no caixão, coberta de flores, trajando seu melhor vestido, cabelos impecáveis, expressão linda, porém descalça.
Eu lembro da revolta de Noa ao se deparar com os pés de Valquíria. Dizia: “Uma pessoa descalça é uma pessoa esquecida por Deus!” E era assim mesmo que se pensava. Naquela época, os desvalidos não tinham sapatos. Eu dizia a ela que isso era bobagem. Pra que enterrar um par de sapatos? Já era absurdo enterrar as roupas. Seria melhor doar estas peças, do que deixar apodrecendo sob a terra. Mas Noa não se conformava… nunca se conformou.
Assim que o pai de vocês faleceu, Noa começou a me escrever com mais frequência. Em todas as cartas ela dizia que tinha medo de morrer de repente e ser enterrada sem sapatos.
Minha mãe, chorando muito, perguntou:
— Mas por que ela nunca nos disse nada? Alguém sabia disso?
E Amelinha respondeu:
— Porque ela não suportava a ideia da partida… e muito menos falar disso com vocês. Preferia fingir que tinha todo o tempo do mundo.
— Eu nem sabia que ela estava sem sapatos — disse o meu tio. — Aliás, eu nem sei se as pessoas são enterradas de sapatos.
— Bem — disse Amelinha — agora que vocês sabem o desejo de Noa, sugiro que o enterro seja adiado para a tarde, porque eu preciso ir à casa dela. Quem pode me levar?
Foi estranho, porque ninguém contestou. Meu tio já saiu da sala, indo direto para a administração do cemitério. Minha mãe pediu que todos fossem embora e voltassem às 5 da tarde. Ninguém entendeu nada, mas todos acataram sem discutir.
Chegando na casa da minha avó, Amelinha andou por tudo, viu fotos, cheirou perfumes, ajeitou os enfeites na estante. Ela tinha o ar tão tranquilo que parecia que minha avó estava na cozinha pegando uma fatia de bolo enquanto ela observava a decoração. No quarto, ela abriu a terceira porta do armário e puxou uma caixa que estava na prateleira mais alta. Era uma caixa antiga, grande, de papelão. Amelinha colocou a caixa em cima da cama e abriu, revelando dois pares de sapatos de verniz preto.
— Ela sempre gostou de verniz…
Minha mãe perguntou como ela sabia da existência daquela caixa, e Amelinha explicou.
— Em todas as cartas, Noa escrevia: “Os sapatos estão na prateleira de cima, terceira porta do armário. Não me deixe ir embora sem eles.”
Amelinha colocou a grande caixa embaixo do braço e estava preparada para ir. Ninguém discutiu. Apenas pusemos aquela senhora no carro e voltamos para a capela.
Ao chegar lá, Amelinha pediu que meus tios abrissem novamente o caixão. Cuidadosamente, ela tirou as flores que cobriam os pés descalços de minha avó, calçou os sapatos com carinho e voltou a cobri-los de flores. Nós todos assistimos àquele ritual emocionados, querendo ter uma amiga tão dedicada, querendo ter guardada uma história bonita para o nosso último dia. Amelinha pegou o segundo par de sapatos, colocou sobre o corpo de Vovó Noa. Ajeitou as mãos inertes, para que ela fosse enterrada segurando o outro par. Depois, aproximou-se do ouvido dela e disse:
— Aqui estão os sapatos da Valquíria. Pode ir querida. Logo logo nos encontramos…
Beijou seu rosto, e o da minha mãe e o rosto de cada um de meus tios; virou as costas e foi embora.
Eram cinco da tarde quando meus tios fecharam o caixão e prosseguiram carregando o corpo da Vovó Noa pelas calçadas do cemitério. Já não chovia e o vento varria o céu daquele cinza triste. O caixão estava leve — como ela sempre foi.

