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Unhas vermelhas

Unhas vermelhas

— Dr. Pamplona, ainda não posso dizer que frequento seu consultório. É a quinta vez que venho aqui e ainda não fico à vontade. Nem sentada olhando nos olhos, nem deitada no divã, tendo você sentado na poltrona atrás de mim.

Procurei-o para me livrar dos eternos pesadelos. Ainda não tive coragem de dizer o que me toca. Estou enrolando há quatro sessões. Só que aconteceu um agravante, e preciso desabafar com urgência, por mim e por minha netinha. Passei a semana remoendo e escrevendo. Por favor — estendi uma carta —, leia sem me questionar. Tudo começou quando eu tinha a idade que a minha neta tem agora.

Há quem tenha pesadelos dormindo; os meus acontecem enquanto me ensaboo. Lembro que o tio Alfredo me levou para a escola no meu primeiro dia. Felizes recordações. Ganhei balas e uma boneca, a Doris.

Eu adorava brincar de ciranda, passa-anel e pula-carniça. Cavava buracos e construía castelos na areia. Minha brincadeira predileta era Corre-cutia, na casa da tia. Corre-cutia, na casa da vó. Lencinho na mão, caiu no chão. Moça bonita do meu coração. Posso jogar? Ninguém vai olhar? Foi a época mais feliz da minha vida.

O tio me levava e buscava na escola. Ele estava desempregado e, à tarde, lia histórias para mim. Histórias de cachorros e gatos. Histórias de montanhas e rios. Histórias de príncipes e princesas. O tio latia e miava, escalava árvores e guerreava contra exércitos. Um dia, mostrou como o príncipe beijava a princesa.

Preciso me esfregar bem.

Quando fecho a torneira, peço para as lembranças irem para o ralo, junto com a água.

Basta eu entrar no chuveiro e me recordo de quando a mamãe, pela primeira vez, pintou as minhas unhas de vermelho. Fiquei muito saltitante. Mamãe disse que os homens gostam muito de unhas vermelhas, que são atraídos pela cor. Que fora assim que conquistara o tio Alfredo.

No dia seguinte, depois da aula, o tio contou outra história. História de guerreiro. Pediu que eu segurasse, com as minhas mãos, a sua espada. Disse que eram as mãos mais lindas que já vira.

Estou tão suja. Passo a esponja nos braços e nas pernas.

Era o tio que fazia o café da manhã. Ele escovava meus cabelos, amarrava uma fita cor-de-rosa, escolhia uma laranja ou banana para a lancheira e me deixava na escola. Quase sempre fazia o almoço; sabia que eu gostava de batatas fritas.

Quando a água morna toca as minhas costas, percebo as mãos do tio deslizando em mim. Como estou suja.

Durante o café, falei para mamãe que ele trocara de roupa na minha frente. Naquele dia, o tio bateu em mim pela primeira vez. Ele arrancou a perna da Doris e disse que faria a mesma coisa comigo se eu falasse do nosso segredo para qualquer outra pessoa.

Fiquei muda durante uma semana. Nunca falei do tio para ninguém.

Abro um pouco mais a torneira de água quente.

O tempo passava, e o tio sempre queria fazer aquilo. Todos os dias fazia aquilo. Só depois eu podia brincar ou estudar na casa da Fê. À noite, quando mamãe chegava do trabalho, ele era um doce.

Eu queria morrer. Eu queria ser uma estrela no céu. Eu tinha medo de apanhar. Eu não sabia como morrer.

Sempre foi assim. Estava suja. Precisava do banho. Ainda preciso do banho, mesmo agora que já me aposentei.

Um dia, eu devia ter 35. Não, 36. O Brasil ganhara a Copa naquele dia. Lembro da manchete no jornal do dia seguinte. Para meu alívio, nada escreveram sobre aquela menininha.

Eu a vi no ônibus. Devia ter sete anos: olhos tristes, uma blusinha branca e unhas com esmalte vermelho. Fiquei chocada. Será que a história se repetia? Desci na mesma parada e segui as duas — mãe e filha. Reparei bem na casa em que entraram. O portão se fechou, e permaneci do outro lado da rua por pelo menos vinte minutos, pensando em quem estaria fazendo aquilo com a menininha dos olhos tristes.

Determinada, voltei no outro dia. Iria ajudá-la. Levei um chocolate com estricnina na bolsa. Confirmando minha suspeita, ela surgiu no portão segurando uma boneca sem uma das pernas. Quase vomitei. Não esqueci do meu pavor por outra surra nem de que não sabia como fazer para morrer. Dei-lhe o chocolate. Agora, ela seria uma estrela.

Quanta sujeira. Não há xampu que lave meu corpo imundo.

Anos depois, eu estava na mercearia e observava uma menina com cabelos cacheados presos por uma fita rosa. Por instinto, olhei suas mãos e vi unhas com esmalte vermelho. Senti náuseas.

Nem se passou a tarde; dei-lhe um chocolate recheado. Foi a segunda estrela.

Fecho a torneira de água fria. A água está pelando. Quero ferver meu corpo para tirar as impurezas.

Houve outros chocolates. Muitos chocolates. Muitas meninas de unhas vermelhas. Aqui, na minha cidade, ou em outras. Nem sei quantos chocolates distribuí. Por piedade, nem sei quantas estrelas fiz nascer.

Eu me lavo e continuo impura. Estou com náuseas.

Hoje vi a minha netinha com as unhas vermelhas.

1º Bula Prêmio de Conto
Roberto Klotz

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