Sentou no banco do pequeno jardim na entrada do cartório. Preferiu ficar lá fora: pediu para o doutor Léo, aquele fofo, cuidar do restante da burocracia sem ela. Não aguentava mais tanta papelada, tanta assinatura, tanto formulário, tanto protocolo.
— É só mais esse registro e tudo está resolvido — doutor Léo garantiu.
Tudo resolvido lhe pareceu muita coisa.
— Verônica — pronunciou em voz alta.
Depois de novo, sílaba a sílaba, experimentando a textura na boca. Vê, rô, ní, cá. Degustou o sabor da palavra, sentindo a dobradura da língua, vê, rô, ní, cá, provou cada formato dos lábios, apalpando o ar nas cordas vocais, vê, rô, ní, cá, a vibração sonora fazendo-a existir.
Não que não conhecesse o nome, não que não se reconhecesse no nome — carregava-o há tanto tempo… Mas mesmo que já o tivesse assumido há tanto e já não soubesse existir sob outra forma, sentia-se usando um vestido emprestado, cedido por uma desconhecida. Porque a roupa que tinham lhe dado não se conformava a seu corpo. Uma roupa que machucava, rebentava costuras, lacerava o tecido e a pele; e que, por muito tempo, teimou em usar e consertar e remendar, tentando disfarçar sua inadequação, camuflar seu desajuste.
E então uma desconhecida gentil lhe emprestou este vestido. Emprestado e não devolvido, continuando a ser usado, usado e usado, ao ponto de se amoldar a suas formas, ajustar-se tanto a si que parecia ter sempre lhe pertencido. Quase ninguém se lembrava da antiga roupa, hoje rasgada, a memória espúria de sua inadequação. Mas ainda assim, o vestido era emprestado.
Não mais. Só mais esse registro e tudo, tudo está resolvido: agora ele é seu. Seu, seu, de papel passado. O verdadeiro ícone, vero ícone, vê, rô, ní, cá. Só mais um instante: o instante da burocracia alongando a materialização do verdadeiro. Minutos, horas, dias batalhando por essa verdade.
Uma cigarra começou a cantar na oiticica. Ziiiiiiiii, zi, zi, zi, zi. Era a primeira que ouvia naquele ano, apesar do avançado do calendário: as chuvas atrasadas finalmente viriam. Olhou para o céu aberto, o sol espalhado, azulando a abóbada de uma ponta a outra, sem sinal de refresco. Nenhuma gota tinha caído ainda naquele ano, nenhum orvalho para amenizar o estio sem fim, a garganta seca, os vasos do nariz estourando e manchando de sangue os travesseiros. Invernada tardia, agora anunciada no canto estridente, prenúncio do fim da aridez: zi, zi, zi, zi.
Procurou o bichinho com os olhos: percorreu as reentrâncias da árvore, subindo pelo tronco, tentando sincronizar imagem e som, até quase onde o caule abria galhos em copa. Lá estava ela, grudada, quase escondida pela folhagem, em um jogo dúbio de chamar a atenção e se camuflar ao mesmo tempo. Ainda era boa em encontrar cigarras, apesar da falta de prática.
Quando garoto, subia nas árvores para catar esses insetos. Escalava os troncos, prendendo-se com a habilidade que só o destemor infantil tem. Pegava as cigarras e ia colocando dentro de algum pote de vidro roubado de casa: ia prendendo uma depois da outra, enchendo o pote até não poder, competindo com as outras crianças pelo posto de melhor caçador da região.
Riu da própria maldade infantil: a pobre cigarra anos e anos embaixo da terra, vivendo no escuro, parasitando raízes secas, finalmente consegue encontrar o caminho de saída, realizar a metamorfose, se libertar da casca seca que contém suas asas e, quando dá o primeiro grito de liberdade, seu canto de amor, a criança vem e lhe coloca dentro de um pote. O pouco tempo de vida que lhe restou para ser cigarra, desperdiçado por uma competição que nunca tinha vencedores. Olhou novamente para o inseto, que continuava seu canto — desta vez, sem ninguém para cercear.
Doutor Léo saiu do cartório com ar pesado. Desceu a escadaria com olhar baixo.
— Ainda não está pronto, dona Verônica, eu sinto muito. Uma falha no sistema do tribunal, não explicaram direito. O processo acabou ficando preso na fila. Eu sinto muito mesmo. Disseram que vai ser preciso remarcar.
Nada nunca tinha sido fácil: parecia que sempre tinha que alinhavar um drapeado adicional para a peça ficar pronta. Mas dessa vez… parecia costurar com tecido de pedra.
Quando a amiga falou em alterar os documentos, recusou. Tinha vivido a vida toda daquele jeito; depois de velha, que que um papel ia fazer diferença? Mas ela falou que era fácil, que era direito, que ela nunca mais ia precisar ver o povo estranhando a cara dela quando precisasse mostrar RG.
— Tá todo mundo fazendo, criatura, tem lei e tudo, vai por mim.
Foi por ela, mas nada aconteceu como ela falou. Em um cartório disseram que aquilo não existia, em outro disseram que não faziam aquele tipo de coisa lá, em outro fizeram uma lista de um monte de papéis que ela ia ter que pagar antes de começar — ia custar uma fortuna. Tinha quase desistido, quando outra amiga falou da associação.
— Vai lá, criatura. Sozinha não tem o p do perigo de você conseguir.
E realmente, a associação foi o que fez dar certo. O pessoal explicou e acompanhou tudo: cada formulário, cada fila, cada guichê. Foi lá que descobriu que podia até fazer tudo de graça. Foi lá que descobriu que podia.
Tinha sido um processo longo e complicado. E depois de tudo, essa agora de sistema fora do ar. Não, não: traz esse tecido que a gente puxa o drapeado agora. Partiu para o cartório com doutor Léo. Pediu para falar com o chefe, insistiu que precisava do documento naquele dia, que não podia adiar, que estava tudo certo, que o prazo daquele tamanhão não fazia sentido atrasar. Falou com um, franziu tecido; falou com outro, prendeu alfinete; falou com mais outro, pregueou as dobras. Com cuidado e delicadeza, foi cerzindo cada ponto, esticando e folgando as ranhuras do próprio figurino. Insistiu até que o tabelião mandou adiantar logo sua certidão, mais por querer se livrar dela do que por ouvir o que ela estava falando.
Saiu do cartório com a certidão na mão, ainda eufórica. Era oficial: registro concluído e corrigido. Sentou-se de volta no velho banco e olhou para o documento nas mãos. Tinha recebido o papel tão afobada que nem prestou atenção. Segurou-o ali como quem manuseia pergaminho antigo em filme de aventura: com a ponta dos dedos, muito cuidado para não amassar, não danificar essa nova vida, a certidão atestando o nascimento de Vênus.
Afastou o documento para longe do corpo e curvou a cabeça para trás para conseguir distinguir pelo menos o próprio nome. Vaidosa, não tinha levado os óculos que clareavam o embaço da escrita, mas lhe davam aspecto de senhorinha. Para seu grande dia, foi ao salão fazer cabelo, unha, maquiagem; calçou o salto mais alto, que lhe custaria dois dias de dor nas panturrilhas; fez um vestido azul, rosa e branco, especialmente para a ocasião; colocou sua pulseira preferida, a serpente multicolorida girando em torno do braço até morder o próprio rabo; levou sua melhor bolsa nas cores do vestido — não iria estragar a produção com acessório de vovó. Estava linda, mas via apenas o borrão que dizia Verônica.
— Agora a senhora vai ter que levar essa certidão para retificar os outros documentos: identidade, motorista, eleitor, essas coisas — doutor Léo explicou mais ou menos cada órgão onde tinha que ir. — O pessoal da associação manda tudo direitinho pra você. Ah, e também tem que levar esta certidão pra dar entrada pra mudar seu nome na certidão da sua filha e do seu neto. Se a senhora quiser, claro.
Pegou inconscientemente nas contas verdes rajadas de amarelo sob o vestido. Se a senhora quiser, claro…
Tinha falado da alteração do nome com a filha no domingo. Perfumou a casa, fez o bolo que o neto adorava, espalhou brinquedos no chão da sala. A filha foi visitá-la depois do culto.
O garoto saiu para brincar de bola na rua, e ela foi com a filha para a cozinha fazer um café novo. Contou que o advogado da associação tinha marcado para terça-feira a averbação final no registro. A filha sabia que ela pelejava com aquilo havia meses, o quanto era importante. Comentou que depois tinha os outros documentos — uma chateação ficar mexendo em tudo, mas que ela ia até o fim.
Enquanto ela falava e terminava de coar o café, a filha escutava muda: fez um ou outro hum-hum e chegou a ameaçar um sorriso. Mas não passou disso. Depois pegou uma xícara, se serviu de café, soprou com os olhos baixos, tomou um gole.
— Tenho dúvida quanto à ideia de mudar a certidão do Ismaelzinho. Não tenho nada contra, você sabe disso, o apoio sempre foi de coração. É só que… uma certidão com três avós e só um avô, meio esquisito, não? Sei lá, pode dar problema, essas coisas de matrícula em colégio, cadastro de posto de saúde… sempre tem alguém pra dizer que não está no formato certo, pra mandar corrigir. Não seria justo o menino ter que passar por isso, entende?
Claro que entendia.
A cigarra silenciou. Procurou com os olhos e a viu levantar voo, partindo zumbizente em busca de outros pontos para cantar. Tão pouco tempo lhe restava depois de criar asas; não podia ficar parada, aguardando predadores. Acompanhou-a com os olhos até desaparecer, longe.
À distância, no horizonte onde a cigarra sumiu, o céu escurecia com a formação da primeira chuva da temporada. As nuvens avançavam, já trazendo cheiro de terra molhada. Margeando a umidade, um arco-íris se insinuava em sua direção.
Verônica saudou o arco-íris e partiu com seu vestido novo.

