Discover
Véu de chumbo 

Véu de chumbo 

Chico ainda dorme.

O sol já atravessou a fresta da cortina, mas ele continua ali. Às vezes parece que sorri sonhando. Talvez com aquele quebra-cabeça que montamos ontem à noite.

Quando abre os olhos, já sorri. Papai…, e então é como se tudo no mundo encontrasse seu lugar.

Vamos à cozinha ainda meio sonolentos. Ele escolhe qual fruta quer hoje — melancia, claro, como quase sempre — e me ajuda a cortá-la como um pequeno chef. Ele sorri mais do que fala.

Na escola, ele abraça os amigos como se fizesse semanas que não os via. Uma das professoras se abaixa e beija sua testa. Ele se vira e acena pra mim com as duas mãos antes de entrar.

O mundo, por um instante, parece inteiro. Parece certo.

A menina do lenço cor de pêssego

Na mesma hora, uma menina dobra seu lenço cor de pêssego, como aprendeu com a mãe, e o prende no cabelo. É pequena, magra e ligeira. Pula degraus quebrados, enquanto o pai grita pra ela esperar o pão ficar pronto. Ela ri, diz que vai correr até uma loja ali perto, só pra espiar o caderno das borboletas na vitrine. No bolso, leva uma pedrinha branca que diz ser da sorte — a mesma que achou no chão do pátio da escola antes de tudo começar.

No caminho, ela vê um menino sentado no meio-fio. Ela acha que o conhece. Ele carrega uma mochila vermelha rasgada, mas bonita, e tem a mesma cara de sono do irmão de uma amiga que não vê há semanas,

o que sumiu com a escola.

Trocam olhares por um segundo que parece uma tarde inteira.

Então ela corre, porque o cheiro de pão fresco está no ar e ela ama esse cheiro mais do que o do doce de tâmara da vovó.

Ao longe, há um som agudo, quase metálico, que os pombos conhecem melhor do que as pessoas.

Os pombos voam primeiro.

Depois,

os gritos.

O caderno que nunca foi comprado é perfurado. A pedra da sorte rola pela calçada rachada. O lenço cor de pêssego dança um instante no ar — como se esperasse que alguém o segurasse — e depois
cai.

Cai também um corpo pequeno na quadra da escola — mas é só um tombo entre amigos. Chico rala o joelho, chora alto, e é acolhido. Recebe um gelo enrolado num tecido vermelho bem limpo e uma promessa de curativo com desenho de dinossauro. Seu suco de caixinha preferido o espera ainda fechado. Ele o segura com as duas mãos, tentando não apertar demais. Sem sucesso. Escorre suco cor de groselha pela abertura até molhar suas mãos. Ele sorri como quem vence, coloca o canudo e toma um gole comprido. Uma música infantil preenche o ar.

O céu segue azul. As árvores se movem devagar. A manhã ainda está começando.

O menino do balde azul

O céu também é azul lá longe,
como um balde que outro menino carrega no meio de escombros. Ele caminha sem destino exato, descalço, coberto de fuligem, com os olhos arregalados não de tanto medo,

mas de ausência.

O balde está vazio. Mas ele o leva como se contivesse água, brinquedos,
ossos

— ou talvez tudo isso junto.

Anda devagar, desviando de vergalhões, encostando-se em muros que já não existem. De vez em quando, chama por um nome, fraco demais pra ser ouvido.

A câmera de um repórter treme ao registrar seu caminho. Ele vira à direita. Para diante de um portão torto. Ali era onde costumava ficar a sua casa.

Dentro do balde, ele começa a colocar coisas: uma colher torta, uma meia suja, um pedaço de azulejo com um peixinho pintado. Joga também um brinquedo quebrado que ele reconhece. Onde está meu irmão?, ele se pergunta em silêncio. Seus olhos são maiores do que seu rosto. Seu corpo não treme. Apenas continua.

Em algum canto, uma avó procura netos com uma lista suja de nomes. Em meio a tudo, o menino não chora. Ou talvez já tenha chorado demais. A fumaça ainda sobe. Uma sirene parece se aproximar.

Só parece.

Desvia longe demais pra ser útil.

A câmera do repórter treme mais intensamente
e se perde.

O menino sai do enquadramento.

Mas o balde, ainda azul,
permanece.

***

Agora, lavado pelo tempo e pelas manhãs sucessivas, um balde que virara chapéu, escudo, tambor está empoleirado no cabide da sala de aula. Francisco volta do intervalo com os cabelos cheios de areia. Em uma mão, um carrinho de brinquedo cinza, na outra… Ué?! Cadê meu carrinho vermelho?, ele pergunta à professora, que carinhosamente chama de tia.

Na aula de artes, desenha a mim. Uau, Francisco! Como tá ficando bonito!, diz a tia. Ele usa o lápis amarelo até gastar a ponta toda, finalizando algo que mais parece um Rothko com solvente. Que lindo, filho! Adorei! Você tá ficando bom nisso!, eu direi a ele em breve. Depois larga o desenho e dá uma cambalhota. Pede música. E dança até escutar
um som.

Forte e agudo.

É a campainha indicando o fim da aula.

Ele ganha um adesivo por ter se comportado tão bem.

O menino da mochila vermelha

Do outro lado do muro imaginário —
do outro lado de qualquer possibilidade —,
um menino acorda com o som de algo que ainda não entende. Tem quase a mesma idade do outro, aquele do balde azul. Caminha entre estilhaços de um ontem que nunca cessou.

Na calçada estreita, avança como quem ainda brinca de pular amarelinha no chão rachado. Usa um tênis surrado, presente do irmão mais novo. Cadê você?, ele suspira. Carrega uma mochila vermelha, já desbotada, com um único zíper funcionando. Nela, um caderno com desenhos feitos com carvão e um estojo que não fecha mais.

Ele vira a esquina devagar, quase sem levantar os olhos. E é nesse instante, apenas nesse, que vê — por um segundo — o menino do balde azul passar correndo, atravessando uma rua metros à frente, rindo alto como quem foge de um castelo animado. Aquele riso ecoa. A cena é tão breve que ele nem tem certeza se aconteceu.

Mas ele para.

Seus olhos demoram um pouco mais no espaço onde o outro desapareceu. Sorri com o canto da boca. Depois, olha pro céu: é o mesmo azul claro da manhã anterior que,

de repente,

transforma-se

em zumbido.

Um som metálico, surdo, como se o ar fosse cortado por algo que não pertence à Terra.

O menino corre. Na mesma direção que aquele outro do balde azul.

Primeiro devagar,

depois mais rápido,

até escutar um estrondo,

o primeiro de uma sequência ensurdecedora.

Ele tenta se esconder atrás de uma banca de frutas quase vazia. Abraça a mochila como se ela fosse seu próprio peito.

O som aumenta.

Aproxima-se.

Ouve-se um assobio que engole o horizonte.

E, então,

silêncio.

Cinzas descem como neve. Uma romã parte ao meio no chão. Um pedaço de tecido vermelho voa entre sementes queimadas de melancia.

***

Chico me espera na saída da sala de aula com o balde azul virado sobre a cabeça.
É o recém-descoberto capacete de astronauta que o leva pra longe. Enquanto me abraça, o balde cai de lado e rola até encostar na porta. Ele ri.

No caminho de volta, me conta que o amigo Caetano agora sabe voar. Ele acredita. E eu, por um instante, também. O mundo parece leve quando ele acredita em coisas assim.

À noite, Chico pede uma história. Não quer dragões. Quer saber somente do sapo gigante que come caminhões. Eu percebo que seu sono começa a chegar quando ele passa a misturar tudo. Diz que vai sonhar que é um cometa, desses que riscam o céu e depois desaparecem pra sempre — mas que voltam de ré, um dia, quando a gente virar um dinossauro que monta quebra-cabeças.

Adormece como quem pousa. A mão ainda segura o lençol, como se ajudasse o sapão a guinchar um caminhão. No silêncio do quarto, o abajur projeta na parede uma luz colorida em forma de peixe. Enquanto a respiração dele se afunda no sono,

***

o repórter ajeita a câmera. O balde caído lançara tudo longe. A colher torta e as meias estavam a um lado e o azulejo com o peixinho pintado bem à sua frente, à distância de um cochicho.

O menino levanta.

O repórter engole o nó na garganta como quem engole o barulho ao redor. O silêncio momentâneo é falso, é como se tudo ali estivesse abstraído. Aviões sobrevoam perigosamente baixos, quase à distância de uma corda de guinchar. O menino pega o balde, recoloca a colher torta e as meias dentro e procura o pedaço de azulejo.

O peixinho cai próximo ao seu pé.
Ele olha pro repórter e o encara como quem vê uma esperança distante. Pega o azulejo e segue seu caminho.

***

Chico salta da cama ao amanhecer. Papai, eu me esqueci!, e corre até sua mochila. De dentro, saca um papel amassado com um desenho indecifrável. Amarelo. O sorriso dele brilha. É você, papai! Eu que fiz!, diz orgulhoso. Que lindo, filho! Adorei! Você tá ficando bom nisso!, digo.

***

O sol nasce do outro lado, mas há uma névoa eclipsando a luz. O menino do balde azul agora recolhe um lenço cor de pêssego do chão. Perto dali, ele começa a seguir sementes de melancia que estão espalhadas, quase como João e Maria, do conto de fadas que Francisco conhece bem.

Encontra um pedaço de tecido vermelho. Parece aquela mochila, ele pensa. Uma sensação estranha comprime seu peito. Ele aperta aquele pano contra si esperando resposta para a única e silenciosa pergunta que sabe elaborar: Onde está meu irmão?. Pega uma metade de romã do chão e morde como se fosse a última refeição de sua vida.

Artificialmente, o repórter aproxima a imagem do rosto do menino, os cílios empedrados de poeira e o contorno da fruta aberta — a romã esfarelada entre os dentes pequenos, a boca rubra. As sementes de melancia agora são como ponto, ponto, ponto — um fim de frase que perdeu o sentido pelo meio…

A câmera treme. É cansaço. Ou vergonha. O menino encara a lente, sem entender por que alguém o olha tanto e, ao mesmo tempo, não o impede de continuar sozinho.

O repórter abaixa a câmera.

O menino caminha em direção ao lado mais escuro da névoa, carregando o tecido vermelho como um escudo. Morde a romã mais uma vez. Num gesto instintivo, coloca o resto dela no chão.

Talvez queira que o caminho continue,
mesmo que ninguém mais consiga segui-lo.

O repórter desliga a câmera.

***

Chico me encara. Parece elaborar alguma peripécia. De repente grita
que hoje é sábado, papai! Dia de ir na casa da vovó!

Ele adora o cheiro do doce que ela faz.

O sol se impõe. Atravessa as nuvens. E, com a mesma força, guia o caminho de Chico até a casa de minha mãe

***

e deixa a névoa com um brilho difuso
como um véu
de chumbo.

1º Bula Prêmio de Conto
Pedro Henrique Felix Barbosa

Voltar para a Lista de Ganhadores do 1º Bula Prêmio de Conto